Ao quarto dia de Roland-Garros ouviu-se um “boom” assustador, houve um walkover mediático e uma grande jogada de marketing

Não faltou emoção à quarta jornada de Roland-Garros, a mais surpreendente de todas as que se realizaram até agora num torneio do Grand Slam que continua a combater o clima (este ano, o final da primavera foi “trocado” pelo início de outono, tradicionalmente frio e chuvoso em Paris). Por isso, o melhor é começar pelos acontecimentos que marcaram o dia:

  • O “boom” que se ouviu em toda a cidade de Paris

A Catedral de Notre-Dame tinha acabado de assinalar as 12 horas quando se ouviu um enorme “boom”. Pela cidade fora as janelas tremeram e as chamadas para os serviços de emergência dispararam, em Roland-Garros os jogadores, árbitros de cadeira e apanha-bolas assustaram-se. Por alguns segundos, Paris parou — e depois as autoridades foram rápidas a esclarecer o sucedido (e descansar a população): o enorme estrondo ouvido em toda a metrópole foi provocado por um avião que quebrou a barreira de som enquanto sobrevoava a cidade.

 

  • walkover de Serena Williams

A norte-americana já tinha revelado algumas dificuldades na movimentação durante o encontro da primeira ronda, e mesmo no US Open deixou escapar que estava a sentir alguns problemas físicos, mas o anúncio chegou como uma surpresa para todos: uma lesão no tendão de Aquiles forçou a ex-número 1 mundial a abdicar do encontro da segunda ronda com Tsevetana Pironkova.

Foi o quinto walkover a verificar-se no quadro principal feminino desde 2000, e o segundo de Serena Williams, que em 2018 já tinha abdicado do reencontro com Maria Sharapova devido a uma lesão peitoral.

Com esta desistência, a norte-americana adiou, uma vez mais, a perseguição ao publicamente desejado 24.º título de singulares em torneios do Grand Slam, que lhe permitiria igualar o recorde de Margaret Court — ainda que a australiana o tenha conseguido com algumas conquistas antes da Era Open, quando o Australian Open ainda era um torneio muito restrito e fraco em oposição.

  • marketing inteligente… Do Burger King

A explicação é rápida, muito rápida — como aliás o encontro: Rafael Nadal chegou às 95 vitórias (25 consecutivas) em Roland-Garros ao superar o norte-americano Mackenzie McDonald por 6-1, 6-0 e 6-3 em apenas 100 minutos e o encontro resultou numa rápida e inteligente resposta da equipa francesa da cadeia de fast food Burger King. Ora volte atrás e repare bem no nome do adversário do espanhol…

  • O colapso de Bertens e os insultos que se seguiram

Num dos encontros mais dramáticos de que há memória, Kiki Bertens sofreu e muito com problemas físicos, mas a adversária Sara Errani não acreditou, e não só não ficou contente como o demonstrou por várias vezes, quer no court, ao despedir-se com um insulto bem italiano, quer na conferência de imprensa, onde disse aos jornalistas que “ela saiu de cadeira de rodas, mas no restaurante estava a rir-se”.

Isso mesmo, de cadeira de rodas: depois de vencer uma maratona épica em que chegou a enfrentar um match point, a tenista holandesa colapsou e precisou de vários minutos para ser assistida no banco, só conseguindo abandonar o court com a ajuda da equipa de fisioterapeutas do torneio e o “aparelho” que a transportou.

E agora vamos ao ténis propriamente dito: tal como Nadal, também Dominic Thiem voltou a encantar. Vindo do primeiro título em torneios do Grand Slam, que lhe permitiu (foi ele quem admitiu) “retirar essa pressão” da cabeça, o austríaco não parece nada perturbado pelo quadro difícil com que foi brindado e afastou o sempre perigoso Jack Sock por 6-1, 6-3 e 7-6(6), ao salvar três set points consecutivos no tie-break para evitar prolongar um encontro que se estava a tornar perigoso.

Na terceira ronda, o austríaco vai enfrentar o norueguês Casper Ruud (que derrotou Tommy Paul em cinco sets, por 6-1, 1-6, 6-3, 1-6 e 6-3), mas é a quarta eliminatória que alimenta o entusiasmo de muitos dos seguidores da modalidade: se se confirmarem os favoritismos, Thiem terá como adversário nos oitavos de final o ex-campeão Stan Wawrinka, outro jogador que também está a conseguir produzir o seu melhor ténis na terre batue parisiense. Depois de despachar Andy Murray no encontro de estreia, o vencedor de 2015 e finalista de 2017 soltou o poder de fogo e passou pelo alemão Daniel Koepfer com 6-3, 6-2, 3-6 e 6-1.

Quem também tem aproveitado as condições fora do comum em Paris para brilhar é o italiano Stefano Travaglia, que derrotou o rei dos cinco sets, Kei Nishikori, por 6-4, 2-6, 7-6(7), 4-6 e 6-2, para chegar pela primeira vez à terceira ronda de um torneio do Grand Slam. A “recompensa”? Um encontro com o 12 vezes campeão Rafael Nadal…

Num dos últimos e mais emocionantes encontros da jornada, Alexander Zverev voltou a forçar-se a trabalhos extra e não andou longe da derrota. O recém-finalista do US Open foi demasiado passivo quando podia entrar no campo e deu espaço a Pierre-Hugues Herbert, que o forçou a cinco partidas: 2-6, 6-4, 7-6(5), 4-6 e 6-4 foram os parciais da vitória do número 7 mundial. Não muito depois o irmão mais velho, Mischa Zverev, também foi a jogo, mas no Porto — e falou com o Raquetc sobre a paixão pelo ténis que o move desde que começou a jogar, em Moscovo, e o quão difícil foi lidar com a derrota do irmão na final de Nova Iorque para Dominic Thiem.

No quadro feminino, o walkover de Serena Williams não foi a única surpresa.

Destinada a grandes feitos, Coco Gauff voltou a ser vítima do próprio serviço — que está numa trajetória decrescente e preocupa cada vez mais — e acabou eliminada na segunda eliminatória: a jovem estrela norte-americana cometeu 19 (!) duplas faltas na derrota para a qualifier Martina Trevisan (159.ª), que graças aos parciais de 4-6, 6-2 e 7-5 chegou pela primeira vez à terceira ronda de um torneio do Grand Slam.

Para além do ténis, a italiana superou uma luta muito mais importante: aos 16 anos, problemas familiares resultaram num imbróglio de emoções que a fizeram começar a odiar o corpo e deixar de comer. A anorexia tornou-se um problema e comer 30 gramas de cereais e uma fruta à noite passou a ser uma luta para Trevisan, que precisou de muita força de vontade e ajuda de profissionais para combater a doença e recuperar a saúde. Até que, no dia 25 de fevereiro de 2014, decidiu recomeçar. “Vamos começar um novo capítulo”, escreveu nas redes sociais.

E Victoria Azarenka, que brilhou na gíria norte-americana (foi campeã do torneio de Cincinnati e finalista do US Open) e também convenceu na terra batida de Roma, foi surpreendentemente (e tranquilamente) derrotada por Anna Karolina Schmiedlova, que triunfou por claros 6-2 e 6-2.

De resto, a cada vez mais favorita Simona Halep superou Irina Camelia Begu por 6-3 e 6-4 (já soma 16 vitórias consecutivas), Elina Svitolina passou por dificuldades, mas deu a volta a Renata Zarazua (6-3, 0-6 e 6-2) e a canadiana Eugenie Bouchard somou mais uma vitória neste regresso à competição, desta feita ao aplicar os parciais de 5-7, 6-4 e 6-3 a Daria Gavrilova.

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