Orlando Luz. Entre atrasos nos voos, uma mala perdida e um equipamento comprado, em Braga encontrou razões para sorrir

Fotografia: Margarida Moura/Federação Portuguesa de Ténis

Quando, no domingo, se preparava para dizer adeus à cidade de Tabarka, Orlando Luz só tinha razões para estar feliz: tinha acabado de se sagrar vice-campeão de singulares e campeão de pares pela segunda vez consecutiva. Mas o que se seguiu foi um verdadeiro pesadelo, com o tenista brasileiro a ver-se obrigado ao cargo dos trabalhos — e sacrifícios — para conseguir chegar a Portugal a tempo de participar no Braga Open, onde acabou por ter razões para sorrir.

A longa sequência de episódios foi relatada pelo próprio ao Raquetc depois da vitória sobre o português Gastão Elias, em três sets. “Foi bem complicado chegar aqui. A gente saiu ontem do hotel de Tabarka às 10h da manhã, foram duas horas e meia até Tunes de transporte e de lá o nosso voo para Madrid era às 15h, chegava às 23h30 ao Porto. Depois passou para as 20h e entretanto não tinham aeronaves suficientes, não sei o que aconteceu mas eles tiveram que mandar a gente para Barcelona e de lá para Madrid.”

Uma vez chegado à capital espanhola, por volta da meia-noite desta terça-feira e na companhia do amigo e parceiro de pares Rafael Matos, foi preciso “jantar qualquer coisa no aeroporto e dormir no hotel da 1h30 às 4h30. Tivemos de comprar outra passagem e quando chegámos ao Porto eram 7h30 e a minha mala não chegou. Não entendi porque ela estava comigo, vi-a debaixo do avião, na pista, mas não veio.”

A falha no transporte da bagagem levou Orlando Luz a deparar-se com outro problema: chegado a Portugal, e a poucas horas do encontro da primeira ronda, teve de ir… às compras. “Tive que comprar uma camiseta e uns shorts da Nike, para poder jogar (tem contrato com a empresa norte-americana). Paguei 120€ e nem fui eu a ir comprar, foram as pessoas aqui do torneio que me ajudaram, senão não aquecia. E depois fui para o jogo, cansado, meio sem me conseguir concentrar e um pouco nervoso por tudo o que aconteceu. Mas no final deu certo e ainda bem.”

Fotografia: Margarida Moura/Federação Portuguesa de Ténis

Uma vez somada a vitória na variante de singulares, Orlando Luz teve pouco tempo para se preparar para o duelo de pares, onde voltou a ser bem sucedido contra tenistas da casa: ele e Rafael Matos derrotaram os convidados Fred GilBernardo Saraiva, por 6-3 e 6-1, num encontro que jogou com a mesma roupa, sem sequer a conseguir lavar.

E ainda assim, no meio de tantas peripécias e desafios, o ex-número 1 mundial de juniores não recusa uma oportunidade de conversar e consegue ter sempre um sorriso na cara. Como disse, “com as novas regras não é todos os dias que a gente consegue entrar num torneio Challenger e por isso temos de aproveitar e jogar. É o terceiro Challenger que estou jogando no ano e nos dois primeiros só fiquei a saber no sábado à noite que tinha entrado. Desta vez fiquei a saber na sexta-feira à noite (entrou com uma das vagas reservadas aos jogadores com ranking ITF — neste momento é o 31.º dessa tabela e 474.º ATP), mas mesmo assim não tem como se programar, dois dias antes você está noutro país, noutro continente…”

E continua a não ter tempo para respirar — ou lavar a roupa: na quarta-feira mede forças com o belga Kimmer Coppejans (sétimo cabeça de série e número 187 ATP) por um lugar nos oitavos de final do maior torneio de ténis organizado no Norte do país.

Gaspar Ribeiro Lança
gasparlanca@raquetc.com | Dar palavras a um encontro de dois, três, quatro ou cinco sets, com ou sem tie-break. Dar palavras a recordes, a histórias. Dar ténis a todos aqueles que o queiram. E mais, sempre mais. Por isso depois chegaram o padel e o squash. E assim cá estamos, no RAQUETC ("raquetecétera"). Como escreveu Fernando Pessoa nos anos 20, "primeiro estranha-se, depois entranha-se."