Menos torneios, menos pontos.
Mais prémios, mais profissionalização.

É assim que a International Tennis Federation (ITF), a Association of Tennis Professionals (ATP) e a Women’s Tennis Association (WTA) pensam a nova “fórmula” que promete revolucionar a forma como os circuitos profissionais de ténis funcionam. As mudanças são muitas, complexas e, até, polémicas. 

Tudo começou a 30 de março de 2017, quando a ITF tornou pública a aprovação de uma “restruturação significativa do ténis profissional ao nível de ‘entrada'”. Na altura, muitos detalhes faltavam para que se percebesse todo o bolo, mas o objetivo já era claro: reduzir o número de tenistas profissionais de 3.000 para 1.500 (750 em cada um dos circuitos) e, assim, melhorar o rendimento financeiro dos competidores (número que a ITF estima situar-se atualmente perto dos 14.000).

O circuito de transição

As mudanças começam no circuito ITF: a partir de 2019, os torneios internacionais de 15.000 dólares passarão a ser torneios de transição. Mantém-se o prize money, mudam-se os pontos: os jogadores que competirem nestes eventos ganharão “Entry Points” (pontos de entrada) em detrimento de pontos ATP ou WTA. Já os torneios de 25.000 dólares, continuarão a distribuir pontos ATP e WTA (no caso do circuito masculino, só no próximo ano).

Os dois sistemas de torneios e pontos estarão ligados de forma a que jogadores e jogadoras possam utilizar os Entry Points para competirem nos torneios profissionais — que passarão a jogar-se de segunda a domingo, qualifying incluído. E porque muitos deles jogarão os dois tipos de provas, terão um ranking de transição e um ranking profissional.

De forma a que os jogadores júniores e os de transição que sejam bem sucedidos tenham uma transição mais rápida para o nível seguinte, a ITF e a ATP têm planeada a reserva de determinados lugares em eventos de categoria superiores (como Challengers e ITFs femininos de 25.000 dólares) para os melhores jogadores do circuito/ranking de transição.

Os rankings

Antes de falarmos dos “novos” rankings, um pequeno resumo:

  • Em 2019, os jogadores masculinos ganharão pontos ATP em torneios do ATP World Tour, ATP Challenger Tour e nas rondas finais dos Futures de 25.000 dólares (no ano seguinte, estes últimos torneios deixam de ser pontuáveis). Os Entry Points serão ganhos no novo circuito de transição (os atuais Future de 15.000), em todas as rondas dos 25.000 e no qualifying dos ATP Challenger.
  • Em 2019, as jogadoras femininas ganharão pontos WTA em todos os torneios de 25.000 dólares e superiores. Os Entry Points serão ganhos no novo circuito de transição (os atuais ITF de 15.000).

Ou seja, quando o próximo ano civil começar as classificações serão todas atualizadas tendo em conta as novas pontuações. Quer isto dizer que, na primeira atualização de 2019, todos os pontos ganhos por jogadores masculinos em torneios de 15.000 dólares e em rondas anteriores às meias-finais dos de 25.000 dólares e por jogadoras femininas em torneios de 15.000 dólares serão descontados das tabelas ATP e WTA e “transferidos” para o novo ITF World Ranking (os tais “Entry Points”).

Tabela com a distribuição dos pontos ganhos por tenistas masculinos no próximo ano (a amarelo, os pontos para o novo ranking ITF; a azul, os pontos ATP):

Tabela com a distribuição dos pontos ganhos por tenistas femininas no próximo ano nos torneios de transição (todos os outros atribuirão exclusivamente pontos WTA):

O novo circuito Challenger

A Associação dos Tenistas Profissionais quer fazer do ATP Challenger Tour a primeira fase do ténis profissional e melhorar as condições e serviços para “os verdadeiros jogadores profissionais”, criando uma distinção clara entre as fases profissionais e de transição.

Nesse sentido, foram anunciadas, a 23 de julho de 2018, mudanças significativas neste nível de provas: quadros, programação, hospitalidade, prize-money, marca, condições — todos estes aspetos vão ser alvos de mudanças já em 2019.

E mais: em 2020, os torneios de categoria Challenger serão os primeiros a oferecer pontos para o ranking ATP (quer isto dizer que nem nos Future de 25.000 dólares os jogadores conseguirão pontuar para o circuito profissional).

Os quadros principais de singulares destes torneios serão aumentados de 32 para 48 jogadores, o que significa que o número de cabeças de série duplicará de 8 para 16 (tendo todos um bye na primeira eliminatória, ou seja, os trinta e dois avos de final). Desses 48 lugares, quatro estarão reservados para jogadores com mais Entry Points que queiram jogar o torneio. O qualifying será reduzido a quatro jogadores (três deles com Entry Points), tendo apenas duas vagas disponíveis para o quadro principal.

Com esta alteração vem, também, a redução da duração dos eventos: ao contrário do que acontece até dezembro de 2018, os torneios Challenger passarão a ser jogados ao longo de apenas 7 dias, “largando” o primeiro fim de semana. Desta forma, a ATP espera facilitar o planeamento dos jogadores. E por falar em facilitar: todos os torneios Challenger passarão a fornecer alojamento em hotéis aos jogadores que participem nos quadros principais.

Fórmula que ganha é para repetir e por isso os responsáveis pelo circuito Challenger vão apostar numa comunicação semelhante à do ATP World Tour: os torneios passarão a ser conhecidos como ATP Challenger 70, 80, 95, 110 e 125, ficando definida uma estrutura clara e simples de compreender.

Para além destas, estão previstas outras melhorias, quer ao nível dos profissionais e condições de saúde dos torneios, quer no número de courts destinados às sessões de treinos quer, até, no acompanhamento dos encontros: todos os duelos dos quadros principais de singulares serão transmitidos online, o que fará com que o número de transmissões duplique.

Gaspar Ribeiro Lança
gasparlanca@raquetc.com | Dar palavras a um encontro de dois, três, quatro ou cinco sets, com ou sem tie-break. Dar palavras a recordes, a histórias. Dar ténis a todos aqueles que o queiram. E mais, sempre mais. Por isso depois chegaram o padel e o squash. E assim cá estamos, no RAQUETC ("raquetecétera"). Como escreveu Fernando Pessoa nos anos 20, "primeiro estranha-se, depois entranha-se."