Esplendor na Relva | “Meia dúzia para a história”, por Miguel Seabra (em Wimbledon)

Dez anos depois da épica final entre Rafael Nadal e Roger Federer, aqui fica a recordação desse duelo e de mais cinco extraordinárias cimeiras que ficaram para a historia de Wimbledon – e da própria modalidade modalidade.

Miguel Seabra

O estádio de futebol de Old Trafford é conhecido como o Teatro dos Sonhos, mas Wimbledon tem produzido consistentemente algumas das melhores finais da história do ténis. Numa altura em que os media tem insistido muito no décimo aniversário da extraordinária final de 2008 (ate porque originou um documentário baseado no livro do meu colega Jon Wertheim sobre o que ele designou ‘o melhor encontro jamais jogado’, intitulado ‘Strokes of Genius’), eis uma seleção de meia dúzia de excepcionais finais masculinas jogadas na Era Open que ficam para a posteridade.

Os critérios da escolha?

  • dramatismo: finais jogadas em cinco sets
  • significado histórico: encontros que marcaram uma época, que estabeleceram recordes
  • brilhantismo: nível de jogo evidenciado por ambos os protagonistas
  • equilíbrio competitivo: paridade ao longo da final e no set decisivo
  • impacto nas respectivas carreiras, rankings e público: um triunfo que relançou ou lançou carreiras ao mais alto nível, mexeu com a classificação, que capturou a imaginação do público e entrou para a lenda
  • contraste de estilos e personalidades: estilos de jogo antagónicos, personalidades diferentes que bipolarizam o apoio dos adeptos e dão uma nova dimensão técnica e pessoal ao duelo
  • vedetas em jogo: o peso dos intervenientes, em termos de palmarés, de ranking e de popularidade

Da mais recente para a mais antiga:

2009

Roger Federer – Andy Roddick, 5-7, 7-6, 7-6, 3-6, 16-14

Andy Roddick já havia perdido duas finais para Roger Federer no Centre Court (2004 e 2005, para alem de uma no US Open em 2006) e começou da melhor maneira, servindo imparavelmente e criando mesmo situações de pressão no saque do opositor. Roger Federer conseguiu aguentar-se no marcador e só numa ocasião logrou fazer o break – precisamente no ultimo jogo que determinou o seu triunfo, após um épico quinto set. O desfecho transportou o encontro para a posteridade, porque permitiu a Roger Federer ultrapassar o recorde de títulos do Grand Slam que partilhava com Pete Sampras desde o seu primeiro triunfo em Roland Garros, um mês antes, e conseguir a difícil dobradinha do Canal da Mancha, ao mesmo tempo que esconjurava de certo modo o desaire na dramática final do ano anterior e recuperava o posto de numero um mundial. Os 30 jogos do ultimo set (um recorde) permitiram ao encontro estabelecer uma nova marca em termos de total de jogos realizados numa final do Grand Slam. A chave do encontro terá residido no tie-break da segunda partida: com o ascendente do seu lado e a liderar por 6-2, o americano esbanjou quatro set points consecutivos – um dos quais cantado, a 6-5, num fácil vólei alto de esquerda que enviou cruzado para fora. O suíço ganhou o tie-break do set seguinte e voltou a ser surpreendido no quatro set. A quinta e decisiva partida foi-se prolongando, com Federer a salvar breakpoints a 8-8 (15/40) ate que Roddick, cada vez mais cansado, perdeu o ritmo do serviço aos 14-15. Curiosamente, embora tenha sofrido dois breaks contra apenas um da adversário, Federer alinhou 50 ases contra os 27 de Roddick. Perante a iminência de o seu recorde ser batido, Pete Sampras viajou desde os Estados Unidos e estava presente no camarote real.

2008

Rafael Nadal – Roger Federer, 6-4, 6-4, 6-7, 6-7, 9-7

A final de Wimbledon mais longa (4h48), que se concluiu mais tarde após duas interrupções pela chuva, acabou na penumbra (às 9h18), que foi uma autêntica passagem de testemunho entre o orgulhoso pentacampeão que salvou três match-points (dois no tie-break do quarto set, um no quinto) e o aguerrido desafiante. Tal como em 1980 entre Borg e McEnroe, um destro contra um esquerdino, um jogador mais calmo e outro mais exuberante, tensão extrema no tie-break do quarto set (Federer esteve a perder por 2-5, ganhou por 10-8) e sobretudo qualidade estratosférica de jogo. Nadal impressionou pelo seu jogo defensivo e pela convicção com que passou ao contra-ataque, servindo também muito bem e salvando 12 de 13 break-points. Federer teve de correr atrás do marcador e o seu serviço e a sua direita atingiram níveis excepcionais. Ninguém merecia perder um duelo tão brilhante e equilibrado. O monumental encontro também esteve no fio da navalha porque, se demorasse mais alguns escassos minutos, teria de ser continuado no dia seguinte devido à falta de luz natural. Foi a sexta-final do Grand Slam entre ambos, e depois de três títulos em Roland Garros, à terceira foi de vez para Nadal em Wimbledon – foi ao ‘jardim’ do rival provar que é mais do que um especialista de terra batida.

2001

Goran Ivanisevic – Patrick Rafter, 6-3, 3-6, 6-3, 2-6, 9-7

Depois de ter perdido três finais em Wimbledon na década de 90, o carismático Goran Ivanisevic surgiu do nada: 132o. mundial, necessitou de um convite da organização para jogar. Bateu o herói local Tim Henman em cinco sets nas meias-finais e tinha a última oportunidade da sua vida para vencer um evento do Grand Slam. Quanto ao popular Pat Rafter, que tinha perdido a final do ano anterior com Sampras, buscava o sonho de ganhar na Catedral do Ténis. Devido à chuva, a final jogou-se numa segunda-feira, sendo que os bilhetes foram emitidos e comprados por adeptos puros e duros – e sobretudo croatas e australianos – que fizeram fila durante toda a noite; num ambiente de festa nunca antes visto no Centre Court e sob arbitragem do português Jorge Dias (primeiro árbitro não britânico numa final de Wimbledon), o esquerdino Goran exorcizou os seus demónios e, com muita tremideira e emoção, lá conseguiu fazer valer o seu serviço-canhão e tornar-se no homem mais feliz do mundo. A maior parte do público e dos telespectadores não evitou chorar de emoção.

1982

Jimmy Connors – John McEnroe, 3-6, 6-3, 6-7, 7-6, 6-4

Um duelo de compatriotas canhotos que se odiavam. Bjorn Borg havia decidido retirar-se da competição e, depois de alinhar seis finais consecutivas entre 1976 e 1981, não apareceu sequer em Wimbledon. John McEnroe, que derrotara o sueco na final do ano anterior, era o favorito – mas foi surpreendido por um Jimmy Connors renascido pelo ‘desaparecimento’ da sua ‘besta negra’ (Bjorn Borg tinha-o derrotado em duas finais em Wimbledon) e em paz familiar após a reconciliação com a sua mulher Patti. Esconjurou a derrota no tie-break da quarta partida e, servindo inesperadamente muito bem (ele nem tinha um grande serviço), conseguiu bater o arqui-rival nacional para um segundo título na Catedral do Ténis oito anos após o primeiro, em 1974. Foi o mote para uma segunda metade da temporada que, com a conquista do US Open, lhe permitiu regressar ao topo do ténis mundial.

1980

Bjorn Borg – John McEnroe, 1-6, 7-5, 6-3, 6-7, 8-6

Considerado o mais famoso encontro de todos os tempos e que lançou o ténis como desporto de moda nos anos 80, tendo contribuído para que milhões de telespectadores começassem a jogar por esse mundo fora. O contraste de estilos e personalidades era evidente: o fogo contra o gelo, o canhoto contra o destro, o jogador de rede contra o jogador do fundo do court, o genial esquerdino contra o imperturbável destro com esquerda a duas mãos. O iconoclasta John McEnroe começou da melhor maneira, surpreendendo o campeão com grandes encadeamentos serviço-vólei e o assalto contínuo à rede nos jogos de resposta. Sempre glacial, Borg sacudiu o desaire no primeiro set e começou a servir melhor e a aplicar os seus passing-shots. Teve dois match-points no seu serviço a 5-4 no quarto set, mas incrivelmente acusou algum nervosismo e McEnroe conseguiu transportar esse set para um fabuloso tie-break de 22 minutos que fez com que a final ficasse conhecido como a ‘Guerra de 1816’ porque o resultado foi precisamente 18-16, com ambos os jogadores a disporem alternadamente de match-points (mais cinco para Borg) e set-points (sete para McEnroe). O nova-iorquino pensou ter puxado o ascendente para o seu lado, mas Borg serviu de modo incrível na quinta partida, fez o break e fechou o set final a 8-6 – ajoelhando-se em triunfo na mais famosa fotografia de ténis de todos os tempos. Curiosamente, porque McEnroe ganhou o monumental tie-break, muita gente recorda essa final como tendo sido ganha pelo americano…

1972

Stan Smith – Ilie Nastase, 4-6, 6-3, 6-3, 4-6, 7-5

Uma final entre dois jogadores cuja cara ficou para a posteridade em modelos de sapatilhas adidas com o respectivo nome. O gentleman americano, longilíneo e louro, adoptou sistematicamente o encadeamento serviço-vólei diante do temperamental e moreno romeno – considerado o grande génio da nova geração da altura. Foi um duelo extremamente equilibrado e a certa altura Nastase ficou sem raquetas porque partiu as cordas das que tinha levado para o court; teve de acabar o encontro com uma raqueta emprestada e talvez tenha sido essa a diferença – e o romeno acabaria mesmo a carreira sem nunca ter ganho em Wimbledon.Quarenta e cinco anos depois, continua a não ter sorte: apesar de a sua fama enquanto jogador perdurar (mesmo no meio de muita polémica, gerada por tomadas de posição politicamente menos correctas), a adidas nunca reeditou o seu modelo de sapatilhas… enquanto o americano ganha cinquenta centimos por cada par de Stan Smiths vendido. E vendem-se milhões de pares por ano.

Miguel Seabra
Miguel Seabra é jornalista de ténis desde 1990 e comentador de ténis no Eurosport desde 2003. Foi editor das publicações Ténis Europeu, Jornal do Ténis e ProTénis. Foi campeão nacional universitário de ténis, treinador e árbitro internacional. É igualmente jornalista especializado em relojoaria mecânica, sendo editor da revista Espiral do Tempo. Assegura que não há nada melhor do que ter as suas paixões por profissão.