Esplendor na Relva | “Roland Garros vs. Wimbledon”, por Miguel Seabra (em Wimbledon)

São os dois colossos europeus dos torneios do Grand Slam e decorrem muito perto um do outro no calendário do circuito profissional. Roland Garros já ficou para trás e a 132ª edição de Wimbledon está a carburar em pleno. Os dois torneios europeus do Grand Slam são os únicos dos ‘Quatro Grandes’ a jogarem-se na mesma superfície das suas origens e a concretização da dobradinha já apelidada de ‘Grand Slam do Canal da Mancha’ é muito rara, sendo dificultada pela brutal transição da lenta terra batida para a rápida relva. Roland Garros e Wimbledon são eventos de personalidade muito distinta – aqui ficam explanadas as grandes diferenças entre ambos. 

Miguel Seabra, em Wimbledon

São as contingências do calendário: o primeiro torneio do Grand Slam realiza-se logo na segunda quinzena de Janeiro na Austrália e quatro meses depois os tenistas profissionais estão condenados a jogar os dois seguintes de modo quase consecutivo – e a efectuar uma brutal transição entre os tipos de piso mais antagónicos para a prática da modalidade: a terra batida de Roland Garros e a relva de Wimbledon.

Mal acaba o grande evento parisiense no pó-de-tijolo, arranca de imediato uma mini-época relvada que, após três semanas ‘preparatórias’ (e eram somente duas até 2015!), desemboca na Catedral do Ténis. Na ‘Era Open’ (ou seja, desde 1968), apenas quatro jogadores lograram obter a famosa dobradinha Roland Garros/Wimbledon: o australiano Rod Laver em 1969 (ano em que ganhou mesmo os quatro eventos do Grand Slam), o sueco Bjorn Borg de 1978 a 1980, o espanhol Rafael Nadal em 2008 e 2010, e o suíço Roger Federer em 2009. Incrivelmente, após 17 anos sem que tal feito fosse conseguido, houve três dobradinhas consecutivas…

Depois de o Open da Austrália (em 1988) e o Open dos Estados Unidos (em 1978) terem adoptado courts sintéticos e instaurado sessões nocturnas para tirarem o melhor partido do prime-time televisivo e venderem mais ingressos (acima dos 600 mil bilhetes em ambos os casos), Roland Garros e Wimbledon mantiveram os seus pisos originais e permanecem como bastiões do tradicionalismo – ou não fossem ambos realizados no Velho Continente. Colocando o exotismo australiano da cimeira de Melbourne e o carácter metropolitano do evento novaiorquino de parte, será possível estabelecer uma comparação entre os dois torneios europeus do Grand Slam? Há parâmetros comuns e categorias subjectivas que podem fomentar um estudo comparativo. O certo é que se trata de um duelo de gigantes entre duas competições que há muito se tornaram instituições míticas no mundo do desporto…

Roland Garros e Wimbledon têm ‘personalidades’ quase antagónicas, mas cada qual apresenta um fascínio muito particular. O evento parisiense tem muito a ver com a cidade onde se realiza: é cosmopolita, charmoso, sofisticado; por ser habitualmente dominado pelos especialistas da terra batida, tem maior repercussão no universo latino-americano. A prova inglesa joga-se nos arredores de Londres e assume as características campestres de um jardim britânico: é suburbano, verdejante, místico; a sua enorme fama tinha particular incidência anglo-saxónica, mas nas últimas décadas e com a recente eclosão das redes sociais tornou-se ainda mais global.

Em ambos os casos, a história assume um papel preponderante. Curiosamente, até à década passada, as duas competições protagonizaram um saudável despique – e quando uma melhorava num determinado aspecto, a outra avançava noutro departamento. Entretanto, as restrições urbanas de Roland Garros condicionaram o seu crescimento e evolução até à inauguração do novo Stade des Serres e a colocação do tecto amovível no Court Philippe Chatrier em 2020, enquanto Wimbledon não tem parado de melhorar de ano para ano e em 2019 o Court 1 já terá as mesmas caraterísticas cabriolet do Centre Court.

Croissants e brioches ou morangos com chantilly? Comercialismo contemporâneo evidente ou um amadorismo anacrónico que só é aparente? Felizmente, já ficaram muito para trás os tempos em que havia especialistas de piso rápido a não jogar em Roland Garros e os habitués da terra batida a tirar férias durante Wimbledon (e, já agora, quem não se incomodava em fazer a longa viagem até à Austrália). Hoje em dia, todos os melhores jogadores do mundo competem em todos os melhores torneios. Quanto aos fãs, na escolha entre um e outro há que ter em consideração muitos outros factores que passam despercebidos àqueles que normalmente seguem ambos os eventos pela televisão. Aqui ficam alguns dos aspectos que devem ser realçados.

FAMA

O evento britânico é o mais antigo torneio de ténis do mundo – por se jogar desde 1877, está carregado de tradição e o All England Club Lawn Tennis & Croquet Club (que comemora este ano um significativo aniversário, já que foi fundado em 1868 para a prática exclusiva do croquet), é considerado a ‘Catedral do Ténis’. E por essa razão todos os jogadores sonham em se ajoelhar triunfalmente na relva do mítico Centre Court; até Rafael Nadal, que começou por construir o seu palmarés na terra batida, desde muito cedo admitiu que o grande sonho da sua carreira consistia mais em ganhar Wimbledon do que Roland Garros. Concretizou os seus intentos em 2008 numa épica final com o arqui-rival Roger Federer e bisou dois anos depois.

Costumava dizer-se no início da década de 80 que ‘um campeão de Wimbledon tem a sua situação financeira resolvida para o resto da vida’. O apelo para o universo empresarial e mediático anglo-saxónico era muito maior na era da pré-globalização; de qualquer forma, os patrocínios atingem valores bem mais elevados e o cachet cobrado por um titular de Wimbledon é sempre superior. E havia outros factores relacionados que entretanto foram atenuados na última década: normalmente, quem ganhava na relva do All England Club também vencia outros torneios do Grand Slam – enquanto muitos dos tradicionais campeões de Roland Garros não conseguiam vencer qualquer um dos outros três. Mas difícil mesmo é juntar ambos os troféus no mesmo palmarés; Rafael Nadal foi o primeiro a conseguir fazê-lo no mesmo ano desde Bjorn Borg em 2008 enquanto Roger Federer logrou finalmente juntar o título parisiense ao seu fabuloso palmarés em 2009. Entretanto, Novak Djokovic colmatou a sua lacuna curricular ao ganhar em Paris há dois anos.

ORGANIZAÇÃO

Um factor importante na comparação: o All England Club espalha-se por uma área de 15 hectares, enquanto Roland Garros dispõe da área mais pequena (8,60 hectares) de todas as quatro sedes do Grand Slam. Esse importante pormenor não influi decisivamente no número de visitantes ao longo da quinzena: cerca de 450 mil ingressos vendidos habitualmente na quinzena de Roland Garros (incluindo o qualifying), contra uma média muito semelhante em Wimbledon… apesar de o torneio britânico dispor de uma jornada a menos (o domingo do meio é dia de descanso) e de não contabilizar as entradas no qualifying (que se joga noutro lado, em Roehampton). O facto de não haver sessões nocturnas tanto em Paris como em Londres impede que os representantes europeus ultrapassem a fasquia do meio milhão de bilhetes vendidos, como sucede no Open da Austrália e no Open dos Estados Unidos.

Para optimizar a sua área mais restrita, Roland Garros investiu nas suas instalações e aproveitamento do subsolo, estando já determinada a construção de um novo estádio numa nova zona adjacente… que terá de ficar situado a algumas centenas de metros do centro nevrálgico do recinto (o eixo Court Philippe Chatrier/Court Suzanne Lenglen). Wimbledon só no final da década de 90 resolveu acompanhar o patente investimento nos outros eventos do Grand Slam e conseguiu finalmente infrastruturas à altura da sua fama a partir de 2000; em 2009 estreou um fabuloso tecto translúcido cabriolet para o famoso Centre Court e um novo Court 2, mais recentemente criou um novo Court 3. Com a inauguração do Millennium Building, o carácter vetusto das instalações deixou de ser um problema, tal como a exiguidade dos balneários e a pobreza da sala de imprensa. Também a falta de elasticidade da organização fazia com que Wimbledon tivesse um carácter excessivamente restrito… mas tem revelado enormes melhorias nesse aspecto ao longo dos últimos 15 anos porque a antiga rigidez colonial britânica foi desaparecendo. E se os jogadores e a imprensa asseguravam que Roland Garros apresentava uma organização global superior, isso já deixou de ser verdade na presente década.

PATROCÍNIOS E DIREITOS

São dois conceitos completamente diferentes. Roland Garros é um torneio normal, com o nome e o logótipo dos seus parceiros comerciais bem visíveis no fundo e nos placares laterais dos courts; Wimbledon parece imaculado, mas a verdade é que as menções comerciais estão lá… embora de modo muito discreto.

Depois de ter vivido um período difícil em meados da década de 70 (Bjorn Borg chegou a optar por jogar uma prova de exibição nos Estados Unidos em 1977!), Roland Garros tornou-se modelar na área da rentabilização comercial. Para isso, começou por ceder gratuitamente os direitos televisivos em mercados estratégicos do planeta – como a China – e ganhar visibilidade em todo o mundo; actualmente, o evento parisiense é seguido em mais de 180 países e também pode ser acompanhado no Eurosport. Wimbledon vai no sentido oposto: capitalizando na sua fama, insiste em fazer-se pagar principescamente e consegue contratos mirabolantes (quatro anos com a BBC valem bem mais de 100 milhões de euros!)… mas somente pode ser visto em canais por cabo com pagamento suplementar, como a Sport TV. Ou seja, a difusão é mais restrita.

No que diz respeito à política de patrocínios, cerca de 15 marcas podem ser vistas nos placares dos courts de Roland Garros – mas o total de parceiros comerciais ultrapassa as quatro dezenas; só o BNP Paribas, principal patrocinador, desembolsa mais de 50 milhões anuais. Wimbledon é bem mais restrito: só se vêem pequenos logótipos da Rolex, da IBM, da Slazenger, da Robinsons… mas há muitas mais marcas oficiais que garantem muitos milhões. O peso dos direitos televisivos inflaciona tremendamente esse valor, valendo pelo menos 150 milhões – valor aproximado ao do Open dos Estados Unidos, que também é transmitido em Portugal no Eurosport.

BILHETEIRA E MARKETING

A importância da bilheteira em Wimbledon é superior, já que o valor facial dos bilhetes também é mais relevante. Os pacotes para empresas também são extremamente frutuosos graças à auréola mítica da competição – que faz elevar sobremaneira os preços.

Noutro âmbito, Wimbledon vende produtos com a sua marca desde 1979, com excelentes resultados nos Estados Unidos e na Ásia; a internet veio potenciar esses resultados em todo o mundo e a associação à Ralph Lauren para uma linha de vestuário mais prestigiosa também colocou o torneio britânico num novo patamar! A griffe Roland Garros surgiu 1987, mas soube recuperar o atraso; o catálogo é grande (cerca de 250 produtos diferentes), com uma facturação inferior mas com artigos de excelente gosto.

RENTABILIZAÇÃO DESPORTIVA

Há uma grande diferença entre Roland Garros e Wimbledon. O evento francês representa uma associação comercial dirigida pela Federação Francesa de Ténis; o torneio britânico é gerido por um clube privado. Esse ‘detalhe’ é significativo…

Em Wimbledon, uma parte do complexo está reservado para os sócios do All England Club (375 membros), que podem usufruir das instalações ao longo de todo o ano; a única concessão do clube foi a criação de um museu que pode ser visitado por turistas fora da duração da competição. Os proventos retirados do torneio permitem ao All England Club doar anualmente muitas dezenas de milhões à federação britânica, mas sem qualquer responsabilidade de gestão. Até os negócios de Wimbledon são geridos pela IMG.

Já Roland Garros tem uma missão de formação e promoção do ténis, uma vez que faz parte de uma instituição de utilidade pública como a Federação Francesa de Ténis. O estádio está aberto aos jogadores federados, há escolas de formação e cursos para jovens, para além de uma academia para os valores emergentes do ténis francês.

 NÍVEL DE JOGO

Uma categoria subjectiva e que depende dos gostos dos aficionados. O certo é que os lentos courts de terra batida de Roland Garros estão mais rápidos e a rápida relva de Wimbledon mais lenta.

No evento parisiense, os pontos precisam de ser melhor construídos graças a uma superior explanação técnico-táctica; os pisos relvados do All England Club proporcionam muitas vezes espectáculos unidimensionais onde a preponderância do serviço é excessiva e os pontos são rápidos, mas ao longo dos últimos quinze anos tem-se assistido ao desaparecimento do serviço/vólei e há trocas de bolas mais longas no fundo do court. O certo é que algumas das mais espetaculares finais do presente milénio tiveram lugar em Wimbledon – destacando-se sobretudo as de 2008 e 2009, ambas em cinco sets.

PÚBLICO

Na Catedral do Ténis, a romaria é impressionante (o público chega na véspera e dorme em tendas nas filas, transformando Wimbledon Park numa espécie de campo de refugiados!) e o público respeita religiosamente (à excepção dos ‘exibicionistas’ que por vezes saltam nus para o court) os jogadores e o evento; para mais, logo na abertura do All England Club, os courts ficam imediatamente e completamente cheios logo a partir do primeiro encontro – mesmo os convidados VIP não querem incorrer em pecado e fazem questão de marcar presença.

Em Roland Garros, existe o hábito ‘mediterrânico’ de chegar tarde – e nos courts principais não é bonito ver-se os camarotes despojados no início das jornadas… só se enchendo mais lá para o início da tarde, após os suculentos almoços no Club des Loges. Para mais, o público muitas vezes interfere indevidamente nos encontros, revelando favoritismos declarados e apupando contestações de arbitragem… embora por vezes anime a situação com as já tradicionais ‘olas’ parisienses. 

RESULTADO FINAL: GANHA O TÉNIS!

ROLAND GARROS

OS MAIS:

  • cheiro a croissants
  • gastronomia deliciosa
  • Praça dos Mosqueteiros
  • merchandising de bom gosto
  • proximidade do centro de Paris
  • o ‘oh la la’ das demoiselles
  • sofisticação
  • Tenniseum
  • organização geral

OS MENOS:

  • tráfego intenso entre courts principais
  • maratonas no fundo do court
  • menos acessível aos puros atacantes
  • meias cheias de terra batida
  • exiguidade de espaço
  • comportamento do público
  • algum chauvinismo

WIMBLEDON

OS MAIS:

  • valor histórico
  • Centre Court místico
  • Aorangi Park
  • museu do ténis
  • imprensa sensacionalista
  • morangos e chantilly
  • acampamentos de adeptos
  • público respeitoso
  • ex-campeões comentam na BBC

OS MENOS

  • deterioração da relva
  • meteorologia menos clemente
  • estátua de Fred Perry minúscula
  • acesso restrito a bilhetes
  • maior predominância dos servidores
  • longe do centro de Londres
  • descanso no ‘Middle Sunday’
Miguel Seabra
Miguel Seabra é jornalista de ténis desde 1990 e comentador de ténis no Eurosport desde 2003. Foi editor das publicações Ténis Europeu, Jornal do Ténis e ProTénis. Foi campeão nacional universitário de ténis, treinador e árbitro internacional. É igualmente jornalista especializado em relojoaria mecânica, sendo editor da revista Espiral do Tempo. Assegura que não há nada melhor do que ter as suas paixões por profissão.