Gaston volta a brilhar e derrota Alcaraz com ambiente frenético em Paris

Hugo Gaston passou duas semanas na terra batida portuguesa quando no seu país se organizavam torneios da mesma categoria (e até superior) em piso rápido coberto, mas a falta de rotinas neste piso e condições não estão a revelar-se um obstáculo para o talentoso tenista francês. Muito pelo contrário: já depois da meia-noite de quinta para sexta-feira, o jovem da casa levou à loucura os cerca de 15.000 espetadores que esgotaram a arena de Paris-Bercy ao derrotar Carlos Alcaraz por 6-4 e 7-5 para chegar aos quartos de final do ATP Masters 1000 parisiense.

Popular sobretudo desde que alcançou a quarta ronda de Roland-Garros em 2020, nesta mesma cidade e com uma vitória sobre o ex-campeão Stan Wawrinka pelo meio, o ex-número dois mundial de juniores levou a melhor no duelo de prodígios com o espanhol (Gaston tem 21 anos, Alcaraz 18) ao vencer sete jogos consecutivos para transformar um 0-5 que parecia irrecuperável num 7-5 final.

Pelo meio, o público francês levantou-se, puxou pelo seu “miúdo” e cantou La Marseillaise. E com razão: mais do que o resultado que o marcador indicava, a linguagem corporal de Gaston era tal que os próprios adeptos deixaram de puxar por ele quando Alcaraz conquistou um duplo break de vantagem. Tudo indicava que seria uma questão de tempo — e pouco — até o jovem espanhol igualar o duelo e, aí sim, esperavam eles, o tenista francês voltaria a jogo e a arena de Bercy voltaria a explodir.

Mas Gaston, o “mágico” Gaston, que em setembro espalhou alguma da sua magia pelos courts do Clube de Ténis de Braga e do Club Internacional de Foot-Ball (foi semifinalista dos Challengers de Braga e Lisboa, tinha um truque na manga. Depois de segurar o serviço num jogo de honra que lhe permitiu evitar o pneu, jargão utilizado para descrever o sempre indesejado 6-0, o tenista da casa aproveitou um ligeiro relaxamento de Alcaraz para recuperar um dos breaks de atraso, voltou a acreditar e, passo a passo, construiu o que poucos minutos antes parecia impossível.

Conhecido pela técnica e pela variedade de pancadas (a potência não é, de forma nenhuma, um dos seus pontos fortes), Gaston deixou de cometer erros. E do outro lado da rede Alcaraz entrou num bloqueio mental que o afastou do encontro — e que provavelmente levará como lição eterna. À montanha-russa de emoções juntou-se a reação do público e, reunidos estes três ingredientes, a única receita possível foi a reviravolta épica, pela forma, mas também caricata, pelos contornos, que resultou numa das maiores explosões de alegria da história do torneio.

Foi graças a vocês, foi graças a vocês! Vocês têm sido incríveis e não sei como vos agradecer”, disse sem hesitar Hugo Gaston, que tinha acabado de vencer 20 dos últimos 22 pontos do encontro para registar a quinta vitória consecutiva nas instalações do Masters 1000 parisiense (começou a semana no qualifying), um dia depois de ter eliminado outro espanhol, Pablo Carreño-Busta, também em três sets e com muita emoção à mistura.

E agora… Agora não há limites. Sem pressão, com o público do seu lado e embalado por uma semana que nunca vai esquecer, Hugo Gaston parte sem pressão para o encontro dos quartos de final com o campeão em título, Daniil Medvedev, que na antevisão ao duelo já sabia o que esperar: “O Alcaraz e o Gaston estão a jogar agora, mas já sei que se defrontar o Gaston vou ter o público todo contra mim”, desabafou o número dois mundial, que precisa de vencer para continuar a ter hipóteses de terminar o ano com o troféu de número um nas mãos (ainda que no ranking não possa ultrapassar Novak Djokovic antes de 2022).

De volta a Hugo Gaston, ainda sem títulos a nível Challenger (0-4 em finais) e já com uma final em torneios ATP (vice-campeão em Gstaad no verão), o jovem francês tem assegurada a estreia no top 100 mundial em grande estilo: de 103, que já era a melhor classificação de carreira, saltará, no mínimo, para o 67.º lugar.

Última atualização às 23h59.


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