Dos “ares” portugueses à superação e os regressos, assim terminou o qualifying do Australian Open

Salvo raras exceções, o qualifying mais estranho, controlado e complicado da história dos torneios do Grand Slam concluiu-se esta quarta-feira com sucesso em Doha e no Dubai, as cidades que aproveitaram as restrições impostas pelo governo australiano para organizarem as fases prévias do Australian Open. E foram muitas as histórias com final feliz que se escreveram ao longo da última semana.

Para o ténis português, a mais marcante foi sem dúvida alguma a que Frederico Silva escreveu. Aos 25 anos, o jogador natural das Caldas da Rainha fechou a semana em grande estilo, ao afastar o primeiro cabeça de série para chegar, pela primeira vez na carreira, a um quadro principal.

Mas o número quatro nacional não foi o único a partir de Portugal com destino à Austrália: duas semanas depois de ter escolhido o país para um pequeno stopover com Frederico Gil e o treinador Eduardo Rodrigues em plena pré-época, Quentin Halys colheu os frutos e derrotou o ex-top 40 Robin Haase, por 6-3 e 6-4, para aceder pela 10.ª vez na carreira ao quadro principal de um Grand Slam. Para o francês, que enquanto júnior disputou uma final de pares do US Open ao lado de Frederico Silva, em 2013, o regresso aos grandes palcos chega num momento crucial, em que tenta recuperar a toda a velocidade os resultados de outrora para recuperar apoios no seu país e, acima de tudo, a crença que em tempos fez dele uma das maiores promessas do ténis mundial.

Quem também foi apontado a grandes voos e reencontrou no qualifying do Australian Open os dias felizes foi Bernard Tomic. Agora com 28 anos, o ex-número um mundial de juniores e 17 ATP continua irreverente, polémico e, no fundo, igual a si mesmo, mas deixou de parte os amuos e voltou a apresentar bom ténis para regressar ao quadro principal de um Grand Slam quase dois anos depois. Depois de afastar Jozef Kovalik por 6-4, 3-6 e 6-4 na primeira ronda, o atual número 228 do ranking — que recentemente voltou às bocas do mundo ao assumir o namoro com uma estrela da plataforma Only Fans, onde publica conteúdos para adultos — reservou o bilhete graças a dois tie-breaks decisivos contra compatriotas: primeiro salvou um match point para derrotar Tristan Schoolkate, por 6-4, 1-6 e 7-6(3), e depois venceu John-Patrick Smith por emocionantes 6-4, 5-7 e 7-6(7).

Marcante foi igualmente a semana de Carlos Alcaraz, que com apenas 17 anos se tornou no primeiro jogador nascido em 2003 — o ano em que Roger Federer venceu o seu primeiro “Major”, em Wimbledon — a garantir a presença no quadro principal de um Grand Slam.

A nova sensação do ténis espanhol começou o torneio a dar a volta a Filip Horansky (5-7, 6-1 e 6-4), depois venceu Evgeny Karlovskiy por 7-6(1) e 7-6(4) e esta quarta-feira superou o segundo cabeça de série Hugo Dellien (111.º ATP) por categóricos 6-2 e 6-3 para garantir um lugar na bolha de Melbourne, onde será um dos nomes a seguir de perto nos primeiros dias.

No Dubai, onde se realizou o torneio feminino, a grande sensação foi Francesca Jones, britânica de apenas 20 anos que contrariou o que lhe foi dito pelos médicos e, apesar de ter nascido com uma displasia ectodérmica rara e só ter 15 dedos (quatro em cada mão, três no pé esquerdo e quatro no direito), não só continuou a jogar ténis como chegou ao primeiro quadro principal em torneios do Grand Slam, ao vencer a ex-top 30 Monica Niculescu, por 6-3 e 6-2.

Se para a número 241 do mundo se trata de uma estreia, houve ainda três grandes regressos a assinalar. Por idades: com 33 anos, a ex-top 10 Sara Errani (finalista de Roland Garros em 2012)  vai jogar o quadro principal do “Happy Slam” pela primeira vez desde 2017, depois de ter derrotado Ana Konjuh por 3-6, 6-2 e 6-4. A jovem croata foi, em tempos, uma grande promessa, mas viu a sua ascensão travada por inúmeras lesões e, agora como 476.ª do ranking, ficou a apenas um passo de regressar aos grandes resultados.

Também com 33 anos, Tsvetana Pironkova voltou a provar que está mesmo de volta: depois de dois anos (2018 e 2019) fora dos courts para se dedicar ao primeiro filho, a búlgara liderou o encontro dos quartos de final do US Open contra Serena Williams por um set antes de ser afastada e pouco depois chegou à terceira ronda de Roland-Garros. Agora, e pela primeira vez desde 2017, vai voltar a Melbourne, ao derrotar Margarita Gasparyan por 6-3 e 7-5.

E por falar em regressos, o que dizer de Rebecca Marino? Atualmente com 30 anos, a canadiana terminou a carreira em 2012, mas regressou cinco anos depois e, após sucessivas participações em torneios das categorias mais baixas, vai voltar ao quadro principal de um Major pela primeira vez desde… Janeiro de 2013. O percurso da atual número 312 mundial fez-se de triunfos sobre Charlotte Kempenaers-Pocz, Viktoriya Tomova e Maryna Zanevska.

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