Opinião: Jovens jogadoras, os EUA chamam por vocês

Beatriz Ruivo/FPT

Das coisas que mais me irritam é a comparação entre homens e mulheres no desporto. Desde logo, porque revela falta de cultura desportiva. No ténis, essa comparação é provocada muitas vezes pelos torneios mistos, nomeadamente os do Grand Slam, que proporcionam encontros masculinos seguidos de encontros femininos e vice-versa, e as comparações surgem quase automaticamente. Há quem só goste de ténis masculino e há quem só goste de ténis feminino. Tudo bem, gostos não se discutem. Mas por favor, não comparem, pois tal como em todos os desportos, são competições diferentes.

Nos anos 90, tive a oportunidade de falar como uma responsável da Federação Francesa de Ténis (FFT) pelo ténis feminino. Sim, a grande FFT, com um milhão de federados e estrelas como Mary Pierce, Nathalie Tauziat e a, então promissora, Amélie Mauresmo, tinha um cuidado especial para com o ténis feminino. Por cá, não foi possível dar continuidade aos resultados obtidos por Michelle Brito e Maria João Koehler e ninguém sabe quanto tempo irá durar até vermos novamente a bandeira portuguesa num quadro principal feminino de um Grand Slam.

Dada a menor dimensão do ténis português, não vou aqui defender que devia existir um departamento ou pessoa(s) a trabalhar dentro da FPT exclusivamente no sector feminino – até porque isso já aconteceu, sem resultados visíveis. Mas gostava de fortemente sugerir às jovens jogadoras portuguesas, seus pais e treinadores, que, se querem ser tenistas profissionais, deviam passar primeiro pelo circuito universitário dos EUA. É, provavelmente, a melhor forma para as tenistas portuguesas terminarem a sua formação, ao mesmo tempo que acautelam o futuro.

Ao contrário do congénere masculino, cujo nível é semelhante ao dos torneios ITF mais fracos, o circuito universitário feminino continua a ser uma excelente rampa de acesso ao circuito profissional, como se tem comprovado com a chegada de várias universitárias às fases mais adiantadas de torneios do Grand Slam, como Jennifer Brady (semifinalista no último US Open) ou Danielle Collins (semifinalista na Austrália e quarto-finalista no recente torneio de Roland Garros). A verdade é que não há um grande desnível tenístico entre as jogadoras que saem das universidades para o profissionalismo com um “canudo” no thermo-bag e as outras, que preferiram, ainda teenagers, tentar a sua sorte no Women’s World Tennis Tour. Mas as universitárias têm vantagens inegáveis à chegada ao circuito profissional: maior maturidade, maior auto-estima, menor pressão quanto à obtenção de resultados.

E se no ténis português há boas promessas no ténis feminino, então a possibilidade de estas frequentarem uma universidade norte-americana com uma bolsa é proporcionalmente boa. Tal como em outras áreas, um estágio profissional é a melhor entrada para o “mercado de trabalho”. E no mundo do ténis, as universidades dos EUA são as que proporcionam melhores “estágios”.

Não vou concluir que a Direcção Técnica da FPT devia encarar o circuito universitário norte-americano como uma última fase formativa, antes de receber as atletas no CAR. Por isso, fica apenas a minha forte convicção de que a passagem pelas universidades dos EUA é a melhor hipótese para garantir, de forma consistente, a entrada de jogadoras portuguesas no WTA Tour.

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