Rui Machado abriu o jogo e teceu considerações sobre os portugueses no Lisboa Belém Open (e não só)

Beatriz Ruivo/Lisboa Belém Open

LISBOA — Nove dias depois, o Lisboa Belém Open chegou ao fim. O torneio marcou o regresso do ATP Challenger Tour a Portugal pela primeira vez em 2020 e entre as várias oportunidades proporcionadas a jogadores portugueses resultou na melhor vitória da carreira para Nuno Borges, na chegada a mais uma final para Pedro Sousa (a 15.ª em torneios da categoria) e noutro título de pares para Gonçalo Oliveira, que o descreveu como “o mais especial”.

A fechar a quarta edição do torneio organizado pela Unisports, a MP Ténis e a Federação Portuguesa de Ténis, o coordenador técnico nacional, Rui Machado, fez uma longa análise à semana e ao momento do ténis português, começando pela importância do regresso dos torneios ao mais alto nível ao país. “É muito importante para o ténis mundial que se continuem a organizar torneios. E para o ténis nacional tem sido uma grande oportunidade para todos os agentes da modalidade, e sobretudo os jogadores, que assim podem competir — não só em Portugal, mas competir, porque atualmente há pouquíssimas oportunidades. Através dos wild cards conseguimos dar ainda mais oportunidades a mais jogadores e isso tem tido um peso extra neste ano especial”, começou por salientar, antes de destacar a qualidade organizativa do torneio lisboeta.

“Foi excelente, como já nos tem habituado. E foi uma oportunidade dos nossos jogadores competirem em Portugal a um bom nível e dar a oportunidade a jogadores e treinadores de estarem estar lado a lado com os melhores do mundo. Viu-se que também podemos ter bons resultados dos tenistas portugueses”, continuou Rui Machado, que no CIF acompanhou Tiago Cação (no qualifying) e Pedro Sousa, que só foi travado na grande final.

“Foi uma excelente semana para o Pedro, não a podemos classificar de outra maneira. Foi mais uma demonstração do nível que ele tem solidificado e que é fruto de todo o trabalho que temos feito nos últimos anos, desde que trabalhamos juntos. Em relação à final, foi uma final em casa, que é sempre difícil de jogar, mas penso que hoje não foi isso que pesou. Pesou sim ter tido pela frente um adversário que fez o trabalho dele, que fez um grande encontro e que o soube gerir de uma maneira extraordinária”, começou por explicar o algarvio de 36 anos, que elaborou o trabalho feito por Jaume Munar a caminho da vitória e o que logo depois da final retirou para analisar com o seu pupilo.

“Já tive a oportunidade de ver as declarações dele [disponíveis aqui], de as mostrar ao Pedro e de as analisar-mos e usarmos como exemplo para continuarmos a trabalhar. Ele foi capaz de aceitar que em determinados momentos do jogo não iria dominar contra um adversário contra o Pedro e soube manter-se focado e à espera da sua oportunidade. E é isso que nós também temos trabalhado nos últimos tempos: conseguir aproveitar melhor as oportunidades e aceitar que no ténis não é quando se quer, é quando se consegue. Esta semana já vimos um Pedro Sousa a aproveitar melhor e a gerir um pouco melhor o jogo do que nos anos anteriores”, acrescentou Rui Machado.

Para o técnico português, a final decidiu-se com o grande arranque do tenista maiorquino: “A vantagem que ele criou nos momentos em que esteve bem e em que as condições lhe eram mais favoráveis, com as bolas mais lentas, foi demasiado expressiva. Neste ténis de alto nível é muito difícil recuperar de desvantagens tão grandes e quando se recupera isso tem um peso muito importante naquilo que é a dinâmica do jogo. É um esforço mental diferente, um esforço físico diferente, é difícil recuperar de uma desvantagem tão dilatada sem que isso pese e viu-se que pesou. O Pedro bateu-se e recuperou muito bem do 1-5, mas a diferença era demasiado grande para que depois não pesasse. E pesou no tie-break e no início do segundo set, quando as condições voltaram a não lhe estar tão favoráveis. Com estas bolas [Wilson, Roland-Garros] o jogo do Pedro brilhava mais quando estavam novas, era aí que conseguia fazer a diferença. Agora vamos trabalhar para que não se note tanto e que ele tenha armas para que quando não está com condições tão favoráveis o resultado não se dilate tanto e ele mantenha o encontro mais equilibrado.”

Rui Machado reconheceu ainda que “há sempre um Pedro Sousa diferente quando joga no CIF”, mas admitiu ter visto, em 2020, a melhor das versões: “É um Pedro mais pressionado a não defraudar as expetativas dos outros, de um clube que o viu crescer e sempre lhe chamou jogador talentoso e o menino prodígio, mas este foi o ano em que houve um Pedro menos diferente, o que é sinal de mais experiência e de maior maturidade.”

No Lisboa Belém Open, o tenista português de 32 anos jogou a 15.ª final da carreira no ATP Challenger Tour. Dessas, 14 aconteceram desde que se juntou à equipa do Centro de Alto Rendimento da Federação Portuguesa de Ténis. Questionado sobre o “momento de explosão”, Rui Machado identificou como grande diferença o compromisso assumido: “Comprometemo-nos de uma forma muito natural, porque ele sabe que não há outra forma de trabalhar comigo. Sou um treinador exigente, uma pessoa muito competitiva que leva as coisas muito a sério e que gosta de resultados. Gosto de sentir que dei tudo como jogador e como treinador. Há um respeito enorme entre os dois e acho que [a ligação] foi um ponto de viragem na carreira dele, o assumir de um compromisso diferente, uma maneira de trabalhar e encarar as coisas. Há altos e baixos, como é óbvio, mas foi um ponto de viragem em que se começou a trabalhar de maneira diferente, com objetivos diferentes e isso traduz-se em resultados.”

O impacto do sucesso no grupo de trabalho

Questionado sobre o impacto que o sucesso de um elemento pode ter no grupo de trabalho, Machado explicou que “quando um português alcança resultados, quando um Nuno Marques, um Fred Gil, um Rui Machado ou um João Sousa quebram barreiras, isso faz os outros acreditar que é possível, porque estão a quebrar barreiras. O Nuno quebrou umas, o Frederico outras e o João as maiores até hoje. E isso faz-nos acreditar. O que o Pedro tem feito também e para aqueles que trabalham diretamente com ele são referências ainda maiores, porque treinam com ele, têm a mesma equipa técnica e fazem os treinos baseados na mesma linha orientadora. Isso fá-los acreditar e dá confiança ao processo. Num país em que temos tão poucos processos de alto rendimento ativo é importante que exista confiança neles”, explicou.

O aquecimento de Pedro Sousa para a final foi feito com Miguel Gomes, que na véspera ganhou, em Vale do Lobo, no Algarve, um torneio júnior. O gesto deixou o coordenador técnico nacional orgulhoso: “Foi o próprio Miguel Gomes que, depois de eu lhe enviar uma mensagem a felicitá-lo, me respondeu ‘se for preciso alguém para aquecer com o Pedro já sabes que eu estou sempre pronto’. E isto é mentalidade, é isto que me deixa orgulhoso da equipa com que trabalho e dos jogadores que tenho. Hoje [domingo] seria o dia que o Miguel teria para descansar, mas foi o primeiro a chegar e estava aqui pronto para bater bolas com o Pedro durante 25 minutos. Não é nada de especial, ele tem a oportunidade de treinar com ele noutros dias, mas isto é mentalidade. E os colegas do Miguel, o Henrique Rocha e o Jaime Faria, também estavam a ver o jogo. Acho muito importante haver esta mentalidade e mais cedo ou mais tarde toda esta envolvência traz resultados. Já os estamos a sentir e assim os jogadores percebem que há diferentes patamares de evolução e diferentes fases da carreira. Dá-lhes uma perspetiva importante.”

A análise à prestação portuguesa

Como coordenador técnico nacional e capitão de Portugal na Taça Davis, Rui Machado fez, também, uma análise individual à prestação dos jogadores portugueses no Lisboa Belém Open. “É sempre um pouco injusto fazer balanços de uma semana, porque pode correr bem a uns e menos bem a outros. Mas obviamente que fiquei contente por ver o Gastão Elias de volta a um bom nível. Apesar de ele não ter gostado do nível a que jogou contra o Pedro acho que eles fizeram um bom encontro e ele jogou a um nível superior ao dos últimos meses. E isso é muito importante, porque mostra que ele está a voltar. Todos o conhecemos e sabemos o nível e o valor dele e queremos que regresse o mais rápido possível ao que nos habituou.”

Sobre João Domingues, que competiu limitado por uma lesão no pulso esquerdo, também deixou elogios: “Espero que recupere rapidamente desta fase menos boa, que está diretamente relacionada com as limitações físicas que tem. Sei muito bem o valor competitivo dele e se não tivesse estas limitações a sua forma de competir seria completamente diferente. É um jogador que sabe muito bem o que fazer em court e de cada vez que o vemos jogar dá-nos uma lição das opções a tomar em alguns momentos. Os nossos mais jovens podiam olhar para ele e ver as opções táticas que toma enquanto compete, não é de certeza uma perda de tempo.”

Acerca de Nuno Borges, que somou a melhor vitória da carreira ao bater Damir Dzumhur rumo à segunda ronda, Rui Machado também recolheu boas impressões: “O Nuno voltou a demonstrar que está numa linha ascendente. Vamos ver até onde é que ele pode subir no ranking, espero que seja muito longe. Gostei de o ver a competir em terra batida, mais do que na Maia. Achei que com mais semanas neste piso pode ser realmente perigoso e foi curioso ele próprio ter dito isso, que lhe faltavam semanas assim. Num ou outro momento sentiu-se essa falta de adaptação ao piso, mas tem potencial e condições para também poder competir a alto nível na terra batida, apesar de ele preferir o piso rápido.”

Em pares, quem mais se destacou foi Gonçalo Oliveira, que conquistou o 33.º título da carreira na variante e o 10.º só no ATP Challenger Tour: “Mais uma vez fez um excelente torneio de pares. Já nos tem habituado semana atrás de semana a ganhar muitos torneios no nível Challenger e teve mais uma excelente vitória. Em singulares fez um bom primeiro encontro, tive a oportunidade de assistir a grande parte. Ele próprio disse que sentiu que a família que o veio apoiar o ajudou em determinados momentos e isso é competir em casa, portanto de certa forma ele sentiu um apoio diferente que fez com que tivesse feito um bom jogo.”

Menos feliz foi a semana de Frederico Silva, que não conseguiu ir além da primeira ronda, mas Rui Machado não tem dúvidas do valor do caldense: “Ficou um certo sabor agridoce, mas a realidade é que umas semanas correm bem e outras não tão bem. Aqui infelizmente não correu, mas houve momentos em que podia ter sido diferente. É uma pena, porque nas últimas semanas tem tido jogos que não caem para o lado dele, mas o historial diz-nos que quando insistimos começam a cair. Toda a gente o conhece e sabe o profissionalismo que ele tem e a sua entrega e comprometimento com a modalidade. Ninguém duvida de que as coisas estão a ser bem feitas e que ele e o seu treinador terão certamente mais oportunidades.”

Cada vez mais opções, mas sempre com “a melhor equipa possível” em mente

Na condição de capitão de Portugal na Taça Davis, Rui Machado também explicou que “pouco a pouco vamos tendo cada vez mais opções a surgir”, mas salientou que “o que está sempre presente é levarmos a melhor equipa possível”.

“A próxima eliminatória da Taça Davis é só em setembro de 2021, portanto ainda temos muito tempo até lá”, observou. “Não gosto nem de ‘matar’ jogadores muito cedo, nem de os pôr lá em cima muito cedo. A experiência conta, mas a vontade de ganhar e de ser melhor também conta muito. E é bom para um selecionador que haja uma maior dificuldade na escolha dos jogadores. Quanto mais escolha existir a alto nível, melhor e acho que pouco a pouco vamos tendo algumas opções diferentes a surgir, mas ainda temos jogadores no ativo que são muito experientes e têm muito bons resultados. Esta é uma fase diferente, que alguns recomeçaram melhor do que outros. Mas os portugueses estão a melhorar e isso é muito bom para o nosso ténis. Agora para a Taça Davis ainda falta muito tempo e espero que me dêem dores de cabeça a alto nível.”

Questionado sobre a possibilidade de chamar pela primeira vez Gonçalo Oliveira e juntar os dois portugueses que integram o top 100 de pares (o outro é João Sousa) num encontro, o selecionador nacional explicou que “num par, em todos os torneios, mas sobretudo na Taça Davis, é importante que os jogadores se sintam confortáveis a jogar um com o outro e que exista química. Química entre o selecionador e os jogadores, mas sobretudo entre os dois jogadores. E isso tem de ser avaliado pelo selecionador. Levarei aqueles que considero que são os melhores para representar Portugal, independentemente de serem A ou B. Aqueles que eu considero que como equipa serão a melhor equipa para representar o país e que terá melhores chances de vencer. E eu levo isto muito a peito, porque representei Portugal muitas vezes e não quero levar uma equipa que eu sinto que não é a melhor.”

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