Chegado a Lisboa para o reencontro com o treinador Frederico Marques depois de mais de dois meses a treinar em Guimarães, com a ajuda do pai, João Sousa aceitou o desafio de celebrar o 10.º Aniversário do Raquetc com uma Grande Entrevista em que recorda momentos marcantes de uma carreira cada vez mais histórica, faz algumas revelações e aponta ao futuro.

– Estiveste mais de dois meses a treinar em casa. Como é que foram estes tempos e de que forma é que te mantiveste ativo? Sei que tens um campo em casa, mas estavas sem o Frederico…

Foi uma situação de surpresa para todos. Obviamente ninguém sabia muito bem como lidar com a situação e a nível profissional passei por uma fase de confinamento em que não fiz nada durante 15 dias, porque sabíamos que o circuito ia estar parado durante algum tempo e não fazia sentido eu estar a preparar-me de uma maneira tão ativa sabendo eu que íamos ter muito tempo. Então passei por uma fase de confinamento, em que seguimos à regra todas as medidas da Direção Geral de Saúde e do Governo, e passadas essas duas semanas, e sempre conectado com o Frederico acerca do que íamos fazer, comecei a jogar em casa. Felizmente tenho um campo em casa, o meu pai também adora ténis e quis dar uma ajuda nesse sentido. E através do Frederico começámos a fazer um trabalho um bocadinho mais tranquilo, não com uma intensidade enorme mas para não perder a forma física. Os objetivos principais eram manter a forma física, o que dadas as circunstâncias não era fácil, e melhorar alguns aspetos, como o serviço. Aproveitei para servir muito, acho que é uma pancada que posso sempre melhorar bastante e a fase de confinamento foi um bocadinho por aí, tentar manter a forma física na melhor maneira possível e tentar não perder algum ritmo.

– Imagino que nunca tenhas estado tanto tempo sem competir, nem mesmo quando tiveste aquela lesão no pé…

Não… Desde que comecei a ser mais profissional, com cerca de 17 anos, que não tinha tanto tempo sem competir, portanto já lá vão quase 13 anos. Aliás, nem tanto tempo estando em casa. Acabei por passar dois meses e meio em casa e foi bom poder estar tanto tempo com eles, porque o máximo que tinha estado foram 10 dias. Foi bom passar mais tempo com eles e disfrutar da companhia, portanto essa parte foi positiva, mas voltando à competição obviamente que sentimos falta de competir, porque é aquilo a que estamos habituados.

– Agora já começas a ter algumas datas, sobretudo graças ao torneio de exibição em que vais participar (no início de julho, na academia de Juan Carlos Ferrero). Isso ajuda? Muda os treinos?

Sim, bom… O foco é estar bem fisicamente e tenisticamente quando começar a temporada. Estas exibições e torneios que se possam vir a fazer e em que eu possa participar vão fazer parte de uma preparação para o circuito, que é o nosso objetivo principal. Vão servir para nos adaptarmos, para competirmos um bocadinho e acho que vai ser uma ótima iniciativa para poder ganhar algum ritmo de jogo e estar a 100% quando pudermos voltar a competir à séria.

– A Federação Portuguesa de Ténis já disse que gostava de contar com os melhores portugueses nos novos torneios com prize-money e no Campeonato Nacional. Pões em cima da mesa poderes jogar uma ou outra semana em Portugal enquanto o circuito internacional não voltar?

Sim, sim. Já tive reuniões com o Vasco Costa [n.d.r.: presidente da FPT] acerca disso, existe sempre a hipótese de o fazer. Obviamente que existem também outras coisas em cima da mesa que eu tenho de valorizar e tentar perceber o que é que é melhor para mim, não só em termos competitivos, mas também monetários, mas sim, estão em cima da mesa. Acho que são uma ótima iniciativa da Federação para dar algum ritmo e competição aos profissionais e acho que é ótimo não só para nós jogadores, mas também para o ténis. E está em cima da mesa. Vamos ver, há algumas coisas que tenho de ter em conta e vamos tomar uma decisão nas próximas semanas.

– Como te disse, o Raquetc está a celebrar 10 anos e queria rever alguns momentos especiais. Lembras-te de como é que estava a tua carreira há 10 anos, onde é que estavas?

Há 10 anos tinha 21… (pensa) Lembro-me dos Challengers, de momentos difíceis, no final de 2011 foi quando comecei a trabalhar com o Frederico. Acho que nesse ano ainda joguei alguns Futures, portanto foi uma fase de transição em que estava a tentar integrar os Challengers e salvo erro acabei como 210 ou 215 do ranking, portanto foi uma transição de jogar e ganhar Futures para passar a jogar Challengers regularmente. São boas memórias. Momentos duros, difíceis, de muita luta e de andar sozinho pelos torneios, o que nem sempre é fácil, mas todos esses anos ajudaram-me a ser quem sou agora, portanto guardo com carinho esses momentos mais difíceis.

– Há sempre aquele sonho e a vontade de singrar, mas nessa altura já imaginavas que nos 10 anos seguintes ias estar sempre ao mais alto nível e entre os melhores, como um dos melhores?

Não, não, não me passava pela cabeça que ia atingir isso. Não era uma coisa que tinha em mente. O meu objetivo principal, e todos os anos meto objetivos, era pensar no presente, pensar nesse ano e tentar evoluir como jogador. E portanto a minha carreira foi-se fazendo aos poucos. Não era uma coisa que eu imaginaria, algum dia poder atingir o que até agora atingi. Simplesmente trabalhei para tentar atingir os meus objetivos e todos os anos ia pondo metas um bocadinho mais altas, objetivos mais ambiciosos e acho que esse é o caminho a percorrer para um tenista. Há poucos atletas que sonhariam fazer aquilo que estão a fazer neste momento, acho difícil saber o futuro. Mas acho que tenho feito uma boa carreira e estou orgulhoso disso.

– Nessa altura já estarias há cinco ou seis anos em Barcelona. Sair de casa tão novo foi a decisão mais difícil da tua carreira?

A decisão mais difícil da minha carreia e a nível pessoal também. Foi um ano em que decidi apostar tudo no ténis, em que decidi deixar muitas coisas para trás, amigos, família, coisas muito importantes para mim, para tentar tornar-me profissional de ténis, que era o sonho que eu tinha, ser profissional e ser top 100. Foi a decisão mais difícil não só para mim, mas também para os meus pais, o meu irmão e tudo o que envolvia essa decisão. Foi difícil. No início estava sozinho em Barcelona, sem conhecer ninguém e a tentar adaptar-me à cultura, à língua, às pessoas que lá estavam. Houve muitas pessoas que me ajudaram imenso: o Alvaro Margets, que é um dos treinadores na academia em que estou, a BTT; o Jordi Arrese, que na altura me ajudou muitíssimo porque era o coordenador máximo da Federação Catalã de Ténis. Mas no fim de tudo fui eu que tive de lutar e tentar ir para a frente, obviamente com a ajuda à distância dos meus pais e do meu irmão, mas foram momentos muito difíceis. Há peripécias muito difíceis que serviram de aprendizagem para aquilo que eu tenho hoje como bagagem e para aquilo que sou.

– Lembras-te de alguma dessas peripécias?

Várias… (risos) Tentaram assaltar-me três ou quatro vezes no metro, quando ia para a escola. Aquilo era numa zona um bocadinho difícil, a Federação Catalã, numa zona mais afastada, e portanto eu quando saía do metro tinha de fazer mais ou menos 20 minutos a andar até à academia. E eu fazia em 7 minutos a correr (risos). Era miúdo, já me tinham tentado assaltar e portanto eu fazia sempre aquilo a correr. Chegava por volta das 21h30, porque a escola acabava às 20h e eu ainda tinha de apanhar um autocarro, o metro, mudar de metro e ainda tinha de andar, portanto acaba por ser uma hora, uma hora e meia para chegar, sozinho, sem conhecer muita gente, e quando chegava as senhoras já me tinham deixado a comida em tupperwares, para se manter quente. Eu comia sozinho, porque àquela hora já toda a gente tinha comido, deixava as coisas todas direitinhas e depois ia para a cama e no dia seguinte começava outra vez às 8h. O acordar, tomar o pequeno almoço, fazer o físico, ténis, almoçar, ir para a escola e era assim, a minha rotina era assim. Como digo, foram momentos difíceis mas foram momentos marcantes que guardo com carinho e que serviram para ser o que sou hoje.

– Entretanto Barcelona tornou-se a tua casa ou pelo menos uma segunda casa. O percurso inverso alguma vez esteve em cima da mesa ou como jogador já não faz sentido voltares a Portugal?

Cada vez faz mais sentido eu voltar a Portugal. Sempre disse que gostaria de voltar. Neste caso eu já sou um jogador profissional, mas hoje em dia já existem condições muito boas para se fazerem jogadores profissionais. Tenho condições boas para treinar, inclusive aqui no Jamor. Barcelona neste momento, lá está, é a minha segunda casa e aquilo a que estou habituado, tenho as minhas rotinas de treino, a academia, pessoas que para além do Frederico me ajudaram muitíssimo, na academia, pessoas de que gosto, que são minhas amigas, e portanto neste momento sinto-me bem lá. Não é por ter melhores condições em Barcelona que neste momento estou lá, simplesmente sinto-me bem. É mais por motivos pessoais do que profissionais. Mas sim, acredito que num futuro próximo volte a Portugal e cada vez está mais perto, porque eu estou a ficar mais velho (risos), mas sim, sem dúvida que voltarei a Portugal em breve.

João Sousa com o troféu de campeão do ATP 250 de Kuala Lumpur, ao lado de Julien Benneteau (resultado final: 2-6, 7-5 e 6-4)

– Continuando com esta máquina do tempo por momentos importantes: 29 de setembro de 2013, a final de Kuala Lumpur. Recordas-te muitas vezes dessa semana, desse dia em particular e dessas emoções?

Sim, foi uma semana histórica para mim e para o ténis português e acabou por ser o início, digamos, da minha carreira como profissional. Não o início, mas no ATP Tour se calhar foi o ponto de viragem para que eu acreditasse que podia estar lá em cima, no topo, e pertencer à elite do ténis. Foi um momento marcante, em que eu se calhar no momento em que ganhei não fui tão consciente como sou agora daquilo que tinha alcançado, porque ninguém estava à espera… Mas hoje dou valor. Às vezes revejo alguns momentos e a verdade é que foi bonito e foi uma semana muito especial, com o Frederico, as pessoas a apoiarem-me nas bancadas, todos os dias havia muitos portugueses lá. Foi um torneio com uma final quase perdida, com match points contra, em que eu dou a volta, mostro a raça portuguesa e acabo por vencer. Foi uma semana muito bonita que guardo com muito carinho e fica marcada na minha carreira.

Achas que as coisas teriam sido diferentes se não tivesses salvo aqueles match points contra o Benneteau na final?

Diferentes não, simplesmente não teria ganho ali, mas provavelmente depois teria ganho um ATP. Acho que ali demonstrei que podia ter o nível para estar no topo do ténis, para poder jogar regularmente torneios ATP, e portanto mais tarde ou mais cedo podia alcançar bons resultados. Não foi uma final por acaso, entretanto já fiz… Nem sei, nove ou dez e isso só demonstra o nível que eu posso atingir, portanto não acredito que se não tivesse vencido aquele encontro as coisas tivessem sido muito diferentes. Podiam ser ligeiramente, ou até melhores, não sei. Mas que acabou por ser uma semana importante, sem dúvida que sim.

– Dois anos depois Valência, outra semana muito especial, com a conquista do segundo título. Essa final lembro-me que com a tua família lá, contra um amigo…

Também foi uma semana muito especial, mas diferente. Foi uma semana em que eu já era consciente daquilo que estava a fazer, aliás, tinha feito um ano muitíssimo bom, com três finais e estava a jogar muito bom ténis. Sabia que esse ano faltava ali um título para eu me sentir realmente bem, porque estava a ser um ano incrível. Tive uma surpresa na final, em que os meus pais aparecem vindos de carro desde Guimarães, quase 14 horas de carro, em que estava lá o Miguel [n.d.r.: Miguel Ramos, o manager], a minha namorada da altura e muitas pessoas que gostavam de mim. Havia uma proximidade de casa. E era outra final perdida, em que estava com set e break abaixo, mas sabia que o Roberto [Bautista Agut] tinha jogado uma meia-final muito  dura no dia anterior e tinha de tentar apertá-lo para ele descer um bocadinho o ritmo. E há um ponto de viragem em que eu consigo mais uma vez demonstrar essa raça, dar a volta e acabo por vencer. Foi quase como uma prenda para eles por terem vindo de tão longe para me apoiar. E para mim foi o culminar daquela que provavelmente foi a melhor temporada que tive, para além de 2018 em que fiz uma coisa realmente difícil, porque em termos anuais provavelmente 2015 foi o meu melhor ano em termos de resultados.

– Recebes o troféu do Juan Carlos Ferrero, que era o diretor da prova e o teu ídolo de infância…

É verdade, é verdade. Aliás, era o meu ídolo e o ídolo do Roberto. Acabou por ser um bocadinho ingrato para ele, não é, estando a jogar quase em casa, porque ele é dali de Castellón [de la Plana] e sou consciente da frustração que ele teve naquele momento, ao perder uma final com tudo a favor, que estava quase ganha. Sei que foi uma final dolorosa para ele. Para mim, é obviamente o reverso de uma medalha, uma semana especial, com o Juan Carlos Ferrero a dar-me o troféu e sendo o último ano em que se ia jogar o torneio. É um momento muito bonito e tendo-o como exemplo e ídolo foi muito marcante.

– Houve alguma interação especial na cerimónia?

O discurso que eu faço é relativo a isso, eu sabia que o Roberto naquele momento não era a pessoa mais feliz do mundo, com o Juan Carlos Ferrero ali, um ídolo para os dois, e eu fiz questão de o dizer e ele sabia disso. A única coisa que ele me disse foi ‘cuidado, a taça pesa muito’ e lembro-me que eu peguei na taça e pesava mesmo muito, uns 12 ou 13 kg, e começámo-nos a rir.

– Dois anos e meio depois, o Millennium Estoril Open e todas aquelas emoções. É o maior feito da tua carreira?

Sim, sem dúvida. Na altura o Rafa [Nadal] deu-me os parabéns e depois em conversa com o Francis [Roig], um dos treinadores dele com que eu tenho muita proximidade, ele confessou-me ‘quando eu estava a falar com o Rafa ele disse-me que tu venceres o Estoril Open é como o Rafa vencer Roland Garros’. Ou seja, o feito e a dificuldade provavelmente eram muito parecidos. Obviamente que ele está farto de ganhar Roland Garros, mas vencer em casa é uma coisa muito difícil, porque existem muitas emoções à mistura, muitos fatores que as pessoas não têm em conta, mas nós jogadores temos. Queremos muito, existem muitos fatores externos que nos dificultam o poder jogar bem ténis, o estar livre, o desfrutar do ténis. E é por isso que há muito bons jogadores que nunca venceram em casa. Mas sim, essa semana foi provavelmente a melhor semana da minha carreira até ao momento. Vencer em casa, da maneira como venci, vencer provavelmente uma das edições mais fortes do Millennium Estoril Open… Aliás, é só ver: joguei com o Medvedev, com o Pedro Sousa, com o Kyle Edmund, o Tsitsipas e o Tiafoe. Dois deles estão hoje no top 10. E portanto foi realmente uma semana muito especial para mim, com emoções.

Ver que as pessoas vibravam com os meus jogos, o apoio, eu sair do campo ou ir no carro para o hotel e as pessoas estavam a vibrar. Era uma espécie de ambiente de Taça Davis, na final cantou-se três vezes o hino nacional… Não sei se isso alguma vez aconteceu, não sei se noutro país teria acontecido aquilo que aconteceu comigo. E essa semana acaba por ser muito especial dadas as circunstâncias, tendo só uma oportunidade de jogar em casa, porque há países que têm vários torneios. Nós, portugueses, temos uma semana especial e acho que foi bonito. Faltava ao ténis português um português a vencer o torneio, fosse eu ou outro jogador. Lembro-me do João Zilhão [n.d.r.: diretor do torneio] me dar um abraço e estar completamente em êxtase, porque era uma coisa com que ele tinha sonhado muitas vezes, ter um torneio que um português vencesse. Todo esse carinho que fui recebendo ao longo da semana fez-me ir ganhando força, e depois há uma entrada na final em que as pessoas começam a cantar o hino eu nem sabia o que fazer. Sinceramente houve momentos em que eu pensei ‘e agora, o que é que eu faço?’, porque eu tinha as minhas rotinas de aquecimento. E pensei ‘vou cantar o hino, o hino é o hino, não há volta atrás!’ Foi uma situação… Acho que mesmo o Frances deve ter pensado ‘o que é que está aqui a acontecer?’. No outro dia revi alguns momentos e arrepia. Nem é por ser eu, se fosse outro jogador era exatamente a mesma coisa, e toda a gente que lá estava disse isso, ‘fogo, isto arrepia mesmo’. Por esse motivo e muitos outros acaba por ser a melhor semana da minha carreira.

O momento da consagração de João Sousa no Millennium Estoril Open | Fotografia de Fernando Correia

– Foi libertador conseguires ganhar nessa semana e pores a pressão para trás?

Sinceramente nunca tive a pressão de vencer o torneio. Eu sabia… Aliás, se perguntarem ao meu manager, ao Miguel Ramos, em 2016 eu disse-lhe ‘Miguel, escreve aí, eu algum dia vou ganhar este torneio’. Eu tinha um feeling especial de que um dia ia ganhar, mas não tinha pressão. Obviamente que há a pressão de jogar bem, não de vencer o torneio mas de jogar bem, de querer fazer bons resultados, e isso nunca me tinha acontecido. Aconteceu em 2018, no ano passado também joguei bastante bem, mas não teve nada a ver, mas lá está, não foi uma sensação de ‘já está’. Não, foi mais uma sensação de ‘fogo, isto foi mesmo incrível’.

– Das muitas imagens que correram o mundo, se calhar aquela que mais ficou foi a do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa abraçado a ti, no balneário. Tens muitos momentos desses, de demonstrações de carinho nessa semana?

Essa semana foi mesmo muito especial. Aliás, acho que os órgãos de comunicação foram incríveis, porque muitos deles fizeram capa, acho que se deu realmente o ênfase, não só a mim mas também ao ténis. Todos sabemos que o nosso país é futebol, portanto o futebol é o desporto rei e acaba por fazer sentido estar sempre nas capas. Mas muitos jornais e órgãos de comunicação social tiveram o valor de fazer isso, dar ênfase ao ténis e àquilo que um português tinha acabado de fazer e todas essas demonstrações de carinho acabaram por ser bonitas e eu senti-me valorizado por aquilo que fiz.

– Imagino que nunca tinhas sido interrompido enquanto estavas no banho depois de uma vitória…

Não, não (risos). Aliás, eu estava mesmo a acabar de tomar banho quando o meu irmão entrou e disse ‘olha, está aqui o Sr. Presidente’. Não me deu tempo de secar, só tive tempo de pegar na toalha e ele entrou dentro do chuveiro (risos): ‘Joããaão, então, dê-me cá um abraço! Não me deu mesmo tempo para nada, foi uma situação espontânea da parte dele, que acaba por ter esse lado mais humano, e os portugueses terem gosto nisso, e é um fã do ténis. E ele acabou por ser ele mesmo naquele momento mais íntimo.

Presidente Marcelo Rebelo de Sousa congratula João Sousa no balneário do Clube de Ténis do Estoril

– Estás com 31 anos, o que é que ainda te falta alcançar?

Como disse, não penso muito no futuro. Vou tentando meter os meus objetivos a nível anual, tentar melhorar como jogador, sou ambicioso, muito competitivo e enquanto essa ambição e esse bichinho da competição continuarem em mim vou continuar a fazer aquilo de que gosto, que é jogar ténis. O que vier vai ser sempre bem-vindo, nem sempre são flores, nem poderia ser assim senão não daríamos valor aos momentos bons, mas até ao momento tem sido uma boa carreira.

– E arrependimentos, tens?

Arrependimentos não, acho que tudo faz parte de uma aprendizagem. Os momentos menos bons serviram para dar a volta e ter momentos bons. Acho que tudo serve de aprendizagem, principalmente os momentos maus e portanto não me arrependo de nada que possa ter feito.

– Se pudesses ter uma característica de um jogador qual seria e porquê?

Escolheria provavelmente o serviço do Isner (risos). Acho que me daria muitos pontos grátis na hora de enfrentar pontos de break ou momentos assim mais tensos se tivesse o serviço dele. Seria uma boa arma!

João Sousa celebra a vitória frente a Daniel Evans, um resultado que fez dele o primeiro português a chegar à quarta ronda do histórico torneio de Wimbledon

– E o encontro mais memorável da carreira? Em termos de ambiente, sensações… Foi aquela final?

A final com o Frances, sim. E eu atrever-me-ia a dizer também um outro jogo de que as pessoas não são muito conscientes, mas que me marcou muito, que foi em Wimbledon no ano passado, contra o Daniel Evans. Foi o reverso da medalha, foi sentir o público completamente a favor dele, um encontro no Court 1 fechado pela primeira vez na história e completamente cheio. Tenho uma imagem gravada na minha cabeça do match point, em que ele tenta fazer um contra amortie e falha e as pessoas estão cá fora na hill e toda a gente faz assim (faz o gesto de levar as mãos à cabeça), ouve-se um ‘uaaaaaa’ (risos) e é incrível. Tenho mesmo essa imagem na cabeça porque o court estava completamente cheio. Aquele era o único encontro que estava a acontecer e foram umas quatro horas e vinte. Ficou-me muito marcado por ter o público completamente contra, por estar a lutar contra tudo e contra todos, até com um break abaixo no quinto set, dar a volta e acabar por vencer. Também é um momento que eu tenho muito presente, mas sem dúvida que ter vencido a final do Millennium Estoril Open com toda aquela envolvência é mais marcante.

– E em sentido contrário, qual é que foi o que te custou mais a digerir?

(hesita) Acho que todos são difíceis de digerir, mas as finais ATP são mais difíceis de digerir, por estar tão perto e acabar por perder. Porque a verdade é que as pessoas nunca se lembram das finais que nós fizemos, só se lembram dos títulos. E estar tão próximo de um título e acabar por perdê-lo é muito difícil. Lembro-me da primeira final que perdi, em Bastad com o Cuevas, em 2014. Foi mesmo uma sensação muito má e lembro-me do Frederico ter feito um trabalho incrível no sentido de me dizer ‘fica com as coisas boas, estás a jogar bem, a um nível incrível. Sim, estiveste muito perto do teu segundo título, mas a jogares assim vais conseguir, não te preocupes’. O aceitar uma derrota numa final ATP é mesmo muito difícil, porque é uma coisa que queremos muito.

– Se só pudesses fazer mais um jogo na tua carreira, contra quem é que gostarias de jogar, porquê e onde?

Boa pergunta… Provavelmente se estivesse a jogar bem gostaria de jogar com o Federer no Centre Court de Wimbledon. Já joguei com ele em relva, em Halle, e joguei bem. Acho que seria o sítio ideal para jogar contra o Roger, na melhor superfície dele e numa superfície em que eu também gosto de jogar, e sem dúvida que iria desfrutar.

– Para fechar, estamos a celebrar os 10 anos do site. Um desejo para ti e um desejo para o ténis português ao longo dos próximos 10 anos?

O meu desejo é continuar com saúde e tentar fazer com que os amantes do ténis continuem a vibrar comigo e fiquem felizes com as minhas prestações. E lá está, a saúde. No ano passado tive alguns problemas e portanto o que eu mais desejo é ter saúde para continuar a fazer o que gosto. Para o ténis é que nos próximos anos possamos continuar a evoluir como temos evoluído e que possam existir mais atletas portugueses a demonstrar a nossa raça e o nosso valor lá fora. Espero que sejam muitos e que o ténis português continue a evoluir num bom sentido. Acho que neste momento estamos num bom caminho, nos últimos dois, três anos temos evoluído muito e que possa continuar a ser assim.

– Muito obrigado, João, e que o ténis regresse rapidamente.

Exato, esse também é um dos desejos.

Gaspar Ribeiro Lança
gasparlanca@raquetc.com | Dar palavras a um encontro de dois, três, quatro ou cinco sets, com ou sem tie-break. Dar palavras a histórias, a recordes. Dar ténis a todos aqueles que o queiram. E mais, sempre mais — por isso depois chegaram o padel, o ténis de mesa e o squash. E assim cá estamos, no Raquetc ("raquetecétera"). Como escreveu Pessoa, "primeiro estranha-se, depois entranha-se."