Maria João Koehler estabeleceu recordes para o ténis português dentro e fora de portas, até que no final de 2018 trocou a carreira de jogadora pela de treinadora. Nesta segunda Grande Entrevista 10 Anos Raquetc, desafiámos a jovem portuense de 27 anos a recordar alguns dos momentos mais marcantes que viveu dentro do court e quisemos saber mais sobre a nova fase da sua vida profissional, na Rafa Nadal Academy, em Maiorca.

– Astana, 29 de julho de 2012. É, de longe, o maior título do ténis feminino português. Lembras-te daquela semana? O que é que ainda guardas?

O principal que eu guardo dessa semana foi a capacidade de me superar, porque na semana anterior magoei-me no joelho durante o segundo ponto da final num 50.000 dólares em Donetsk. Não quero dizer que foi uma surpresa, mas já tinha sido uma semana muito boa, em que joguei a final contra uma amiga minha, a Vesna Dolonc, e lembro-me perfeitamente que no segundo ponto da final estava a servir, ela responde-me para a minha esquerda e eu a fazer o split step para ir para o lado senti um puxão no joelho. Até achei que me tinha magoado a sério e joguei a final muito limitada, não sabia se ia estar apta para jogar Astana. Mas fui, na primeira ronda tive bastantes dificuldades e dores, na segunda ronda tive match points contra e nos quartos de final o médico disse-me que eu tinha uma rotura do menisco e que não podia jogar mais sem fazer um exame. Joguei na mesma, estive a perder nos dois sets por 4-2 e 4-3 e depois nas meias-finais ganhei relativamente tranquila e a final também foi em dois sets. Lá está, foi uma semana que eu se calhar não esperava que fosse tão boa, era um torneio de nível alto e eu ainda não tinha jogado muitos 100.000 dólares e acabou por ser uma semana espetacular. Foi longe, mas gostei muito…

– Estavas sozinha?

Sim, mas sempre em contacto com o Nuno [Marques], claro. Lembro-me que ele acordou por volta das 5h de cá para falar comigo antes da final. Ligava-me sempre, normalmente depois do aquecimento em campo. Tranquilizava-me. Não me dava táticas novas, mas perguntava-me como é que aqueci, o que é que senti, dizia-me para me focar mais nisto ou naquilo e dava-me muita tranquilidade. Fiquei contente porque ele também me disse que nunca tinha ganho um 100.000 dólares e pude dar-lhe também esse gostinho.

– Ainda hoje é o maior título do ténis feminino. Na altura sentiste que foi uma grande conquista?

Senti-me bastante contente, mas sempre tive a particularidade de nunca desfrutar muito dos momentos que vivia. Ficava contente, mas sentia que se calhar não era assim tão difícil como eu pensava e não valorizava tanto. Hoje em dia olho para trás e valorizo muito mais as conquistas que tive, e o percurso, do que quando era jogadora. Acho que faz parte, significava que eu queria mais. Foi obviamente uma conquista muito importante, mas eu achava que podia dar mais e já estava a pensar em mais.

– Recuando uns meses, até ao Australian Open de 2012. 19 anos, ainda sem experiência em quadros principais de Grand Slams e de repente estás num dos maiores courts do mundo a defrontar a tua grande referência, a Kim Clijsters. Foi um dia feliz?

Foi um dia muito feliz. Acho que foi o momento mais marcante da minha carreira, não ao nível de melhor ténis jogado, mas foi o momento mais marcante e o que recordo com mais carinho na minha carreira. Nunca senti que joguei verdadeiramente bem, senti sim que servi muito bem e que ela nunca se adaptou ao meu serviço de canhota, mas a visão que tive enquanto estava a jogar é que nunca esteve muito equilibrado, e também que por ser a primeira ronda é sempre mais complicado, mas nunca senti que tivesse chances.

O cumprimento à rede entre Kim Clijsters e Maria João Koehler depois da primeira ronda do Australian Open, em 2012

– Lembras-te de algum momento em particular?

Jogámos na Rod Laver Arena [n.d.r: o court principal de Melbourne Park] e antes de se entrar em campo há o walk of the champions, com as fotografias e os nomes de quem ganhou o torneio. Ela tinha ganho no ano anterior e eu lembro-me de me sentir um bocadinho intimidada ao passar por aquilo e ver a fotografia dela. Íamos com a televisão, a andar uma ao lado da outra, eu estava muito tensa e ela não sei se foi porque se apercebeu, mas começou a falar comigo e perguntou-me se o meu nome não era português. Falámos ali um bocadinho e eu fiquei ainda mais ansiosa, a pensar ‘por favor, não fales agora comigo que isto não vai correr bem’ (risos).

Depois no fim do jogo ela disse-me que eu tinha feito um primeiro set muito bom, que tinha muito potencial e para continuar. Não me recordo se lhe disse que ela era uma referência para mim, mas desejei-lhe boa sorte e depois disso foi impecável sempre que me cruzei com ela. Era uma referência para mim e fiquei com uma muito boa imagem, foi um privilégio e uma grande experiência.

– Um ano depois voltaste lá e estiveste muito perto de uma enorme vitória contra a Jelena Jankovic que te levaria à terceira ronda. Esse jogo já foi bem diferente. 

Nesse ano tinha 60 pontos a defender por ter passado o qualifying, consegui passar novamente e na primeira ronda ganhei à Karin Knapp, uma jogadora que eu conhecia bem e contra quem já tinha jogado três ou quatro vezes. Tinha perdido uma vez, quando era mais nova, mas depois ganhei-lhe sempre, mas sempre em jogos equilibrados, e sabia que era um encontro em que tinha as minhas oportunidades. No qualifying joguei bem, mas contra ela entrei bastante nervosa e depois… Jogámos numa segunda-feira e eu ia jogar com a Jankovic na quarta-feira, portanto tinha um dia off em que só ia treinar um bocadinho. Como fui sozinha fiz a marcação e 15 minutos antes do meu treino fui ao balcão pedir as bolas e o senhor que lá estava disse-me ‘olha, a jogadora que ia treinar contigo tirou o nome dela quando se apercebeu que tu és canhota’. Era a única meia-hora de campo que tinha, não havia mais espaços e eu ainda não tinha tocado na bola nesse dia. Então fui ao players lounge, eu dava-me muito bem com o grupo de colombianos e lembro-me perfeitamente que numa mesa estavam o Robert Farah, o Juan Sebastian Cabal e o Feliciano López e eu perguntei se algum deles podia jogar comigo meia-hora, porque tinha acontecido isto e eu estava sem treinador. E o Farah disse-me ‘levei uma injeção no pulso hoje, mas jogo contigo desde que me jogues só na esquerda’ e veio comigo para o campo, esteve quase como se fosse o meu treinador, a dizer-me para não acelerar muito, para fazer isto e aquilo, e quando eu estava a fazer uns serviços fiz um lançamento da bola demasiado para a esquerda e em vez de a parar fui atrás e senti um rasgãozinho no abdominal. Na altura não sabia, senti só uma picada. No dia a seguir fui fazer a fisioterapia, puseram-me uma tape para limitar e acabei por jogar, a quente e com a adrenalina obviamente conseguia jogar, mas quando acabou o jogo fiz uma ecografia e tinha uma rutura de 3 centímetros no abdominal, ou seja, se tivesse ganho não tinha conseguido jogar depois. Mas claro que preferia ter ganho e não poder jogar do que não passar aquela ronda, no sentido em que era mais uma vitória.

Acho que preparei muito melhor o jogo e fui com outra mentalidade. Lembro-me que o [António] van Grichen estava lá e que ele tinha um bloco de notas sobre as jogadoras que já tinham jogado contra a Victoria Azarenka. Ele conhecia muito bem este tipo de jogadoras e deu-me umas referências, durante o jogo lembro-me de pensar que pegava exatatamente com o que ele tinha dito: ela gostava mais de bater a esquerda, gostava muito da esquerda inside out. Ele deu-me ali uma ou outra dica que me ajudaram e lá está, a experiência do ano anterior também me ajudou a encarar tudo de forma diferente. Sabia que ela era a favorita, mas já ia melhor preparada. Quando estávamos a ir para o campo estávamos acompanhadas por seguranças e era o treinador que lhe levava os sacos, iam a cantar… Eu achei a postura um pouco arrogante e que ela ia demasiado lançada e deu-me um bocadinho de ‘pica’ extra. No início joguei muito bem! Ganhei o primeiro set por 6-2, depois tive 4-3 com break antes dela o devolver e quando estive mais perto de fechar o set acusei o nervosismo, não quis dar tantos pontos extra e comecei a ser mais cautelosa e a não procurar tanto o ponto, ou a não lhe forçar tanto o erro. Estas jogadoras também ficam nervosas, mas não duvidam tanto e mantêm-se fiéis ao seu tipo de jogo e isso acabou por fazer a diferença.

– Como é que uma jogadora tão nova atravessa sozinha o planeta e está num Grand Slam e resolve as coisas do dia a dia? É claro que tinhas o Nuno, mas à distância… Como é que é estares por ti própria?

Estar num Grand Slam sozinha é muito mais fácil do que estar o resto das semanas sozinha. Por um lado fico triste por não ter tido essas experiências todas com o Nuno, depois mais tarde tive oportunidade de ir com ele a alguns Grand Slams, mas é curioso que na altura, e cheguei a ter um ano em que fiz 28 semanas sozinha, havia muitos treinadores que me davam como exemplo às atletas deles. ‘A miúda vai sozinha, resolve os problemas dela, está no campo e deixa tudo, vê a atitude dela’. E isto a jogadoras que depois chegaram a top 50, top 20. Mas eu na altura não via aquilo como um grande feito, via-o como a minha única opção. Enquanto havia outras pessoas que tinham mais oportunidades e recursos, eu tinha aqueles e era a eles que me tinha de agarrar, portanto acho que isso me fortaleceu. Não me identificava com as jogadoras que viajavam com uma equipa muito grande, mas depois não tinham comportamentos muito éticos, ou à mínima dificuldade não se agarravam. Sempre me vi num extremo completamente diferente.

– Nesse ano de 2013 conseguiste um feito histórico para o ténis feminino: foste a primeira — e única, até à data — portuguesa a disputar os quatro quadros principais dos Grand Slams. Que significado é que teve?

Na altura não sabia que nunca tinha acontecido, não foi uma coisa a que me tivesse agarrado ou dedicado muito tempo. Tinha como objetivo de época estar nos Grand Slams, mas porque temos sempre o objetivo de os jogar. Fiquei contente quando soube que era um feito, e tenho alguns engraçados, mas é um percurso longo, em que há muitos altos e baixos, e eu, da mesma maneira que se calhar não dedicava muito tempo a desfrutar das vitórias porque queria mais, acho que perdia mais tempo com as derrotas, mas tentava não achar que era o fim do mundo quando perdia nem que era incrível quando conquistava alguma coisa.

– Foi mais difícil ganhares o título em 2012 ou chegar lá um ano depois e repetir a presença na final?

É uma boa pergunta… No primeiro ano não estava à espera. Queria sempre ganhar, mas não pensava que ia acabar a semana assim. E quando lá cheguei em 2013 estava numa fase em que não me sentia a jogar bem. Há várias semanas que estava muito perto de entrar no top 100 e só estava a jogar WTAs, porque na altura, como tinha ranking para o fazer, achámos que fazia sentido. O top 100 seria uma etapa e não considerámos jogar torneios ITF, e como eu nesses WTAs apanhava sempre jogadoras do top 100 já estava a ficar um bocadinho tensa. Também houve umas semanas em que não tive muita sorte nos sorteios, joguei com a Muguruza em Indian Wells, a Cornet em Roland Garros, a Azarenka em Wimbledon, em Eastbourne ganhei a uma top 70, a Anna Tatishvili, depois perdi com a Cepelova, em Palermo tive set points contra a Mladenovic, enfim, andava um bocado tensa. E lembro-me que antes de Astana fui a Bad Gastein, com alguma altitude, e foi do pior que há, por isso lembro-me de falar com o Nuno e de lhe dizer que me sentia péssima, que não queria porque de certeza que não ia salvar os pontos. E o Nuno convenceu-me do contrário, disse que se fosse essa a mentalidade não fazia sentido, porque há semanas menos boas, mas temos de continuar.

E curiosamente nas semanas em que tive de defender pontos, mesmo não me sentindo muito melhor, consegui ganhar mais jogos. Sabia que se não os defendesse ia descer mais no ranking e agarrei-me. Não joguei bem, mas acabei por ganhar os mesmos pontos e em Astana perdi a final contra a Nadiya Kichenok, antes de perder nas meias-finais com a Timea Babos, 6-4 no terceiro.

– Numa entrevista que te fiz no ano seguinte chegaste a dizer-me que nessa altura sentiste que se fosses jogar um ITF era provável ganhares os pontos que faltavam, mas que naquela altura não pensavas muito no top 100. Hoje arrependes-te?

Eu pensava, e foi uma coisa de que falei com o Nuno, mas acho que agora é fácil olhar para trás e pensar que se calhar fazia diferente. Se soubesse que não ia entrar no top 100 tinha-o feito (risos), mas a mentalidade e a maneira como o Nuno sempre me fez ver as coisas sempre me fizeram sentido e eu não questionei, porque nós queríamos que isso fizesse parte de uma etapa e eu pudesse estar bastante tempo nesse lote. Não aconteceu, mas não vou dizer que me arrependo porque acho que é um cenário irreal, era impossível prever que depois ia deixar de treinar com o Nuno, que me ia lesionar… Tenho pena, mas não é por aí.

Maria João Koehler em ação no No. 1 Court do All England Club, frente a Victoria Azarenka na primeira ronda de Wimbledon

– Em Wimbledon também tiveste um encontro daqueles que não se esquecem, no Court 1 frente à Azarenka. Um duelo obviamente muito difícil, ela era número 2 e uma das grandes favoritas. O que é que se sente quando se joga pela primeira vez o quadro principal ‘do’ torneio de ténis e se tem logo pela frente uma das maiores favoritas? É um grande azar ou “uma sorte”?

É um bocadinho dos dois (risos), mas acho que um privilégio seria mais se as apanhasse na terceira ronda. Foi incrível, tive a sorte de jogar em três grandes estádios de torneios do Grand Slam: na Rod Laver Arena com a Clijsters, no Suzanne-Lenglen com a Cornet e no Court 1 com a Azarenka. São experiências que qualquer miúdo que começa a jogar ténis tem como sonho, mas acho que tive azar por ter jogado com elas nas primeiras rondas.

Wimbledon foi uma experiência única. O Nuno estava lá e tê-lo comigo, ele também já tinha jogado e eu gostava muito que ele fosse comigo… Tenho muita pena de não ter jogado mais vezes, porque eu jogava muito bem em relva. Com a Azarenka perdi 6-2 e 6-1, mas tive nove jogos em que tive pontos para ganhar o jogo, depois ela caiu, eu caí… Há muita gente que diz ‘ah, nem a fazias correr’, mas experimentem fazer um amortie a uma bola que vem a 200km/h em relva (risos). Estava um bocadinho nervosa, o braço tremia um bocadinho no lançamento do serviço, mas foi espetacular.

– Pediste conselhos ao van Grichen?

O Nuno falou com ele no Aorangi Park, mas não me lembro exatamente do que ele disse.

– Foi diferente o facto de já estares acompanhada e estares a viver tudo aquilo ao lado do Nuno?

Sim, sim. Também já tinha tido a experiência de estar nesses torneios, mas foi diferente. O Nuno acrescenta-me muito, sentia muita diferença na preparação e dava-me tranquilidade tê-lo lá. Gostei muito de ter essa oportunidade de estar lá com ele. Também esteve em Roland-Garros e por duas vezes no US Open. Tenho pena de não ter ganho nenhuma ronda, mas foi muito bom.

– No final desse ano separaste-te do teu treinador de sempre, o Nuno, e da tua cidade, o Porto… Foi a decisão mais difícil da tua carreira? 

Foi… Não foi propriamente uma decisão muito pensada, foi uma coisa que acabou por acontecer sem eu estar muito à espera, mas foi assim que as coisas se desenvolveram na altura e eu não sentia que havia muitas soluções no Porto. Acabei por fazer uma mudança de 180 graus e não estava muito preparada para essa mudança, nem tinha a maturidade. Apesar de viajar o ano todo sozinha e ter algumas características bastante maduras, que me permitiam ser melhor jogadora, acho que não estava muito preparada. Mudar de treinador, de preparadores físicos, de cidade, deixar a minha família e amigos, pagar contas e lidar com toda uma panóplia de soluções diferentes… Acabou por me abalar bastante. Obviamente eu já ganhava o meu dinheiro, mas vivia em casa dos meus pais, não tinha preocupações, por assim dizer, treinava no clube onde tinha treinado a vida toda, onde conhecia as pessoas desde sempre. Não foi uma mudança, foram cinco ou seis ao mesmo tempo.

Depois as coisas não correram bem a vários níveis, de resultados, de lesões, de treinadores e foi mais difícil lidar com tudo isso estando longe do meu porto de abrigo, da minha segurança. Esse ano foi bastante duro. Tive poucos momentos mais difíceis do que esses na minha vida, Acho que nunca mais voltei a ser a jogadora que fui quando treinava com o Nuno e depois criei muitas dúvidas, tive muitas lesões e foi difícil, foi difícil.

– Era o que ia dizer, também coincidiu com esse período de lesões…

Sim, foi muito complicado. Estive quatro ou cinco meses sem jogar por causa do joelho, tive várias paragens, acho que foi nessa altura que falámos. Foram tempos muito duros, em que cheguei a ver um psicólogo porque aquilo criava-me muita ansiedade, muita tristeza e eu não sabia lidar muito bem com essa realidade. Sinto que nunca voltei a ser a mesma jogadora.

– Estando sozinha noutra cidade, como é que lidas com o facto de não poderes jogar? No ténis não há a estrutura que há noutros desportos, como no futebol, em que mesmo não pudendo ir para o campo não estás sozinha. Isso faz-te crescer?

Faz-te crescer, sim, mas levas algumas ‘cacetadas’. A nível de fisioterapia tive a sorte de ser acompanhada pelo Paulo Félix, uma pessoa que para além de ser um excelente profissional é uma ótima pessoa, de quem eu gosto muito e com quem acabei por passar muito tempo na fisioterapia. Criei com ele uma relação de amizade, de carinho, porque ele ajudava-me na recuperação, mas também na parte mental. Houve outras pessoas que numa altura muito difícil também estiveram presentes. O Paulo Figueiredo, que era o meu preparador físico, também foi um apoio muito importante e que valorizei muito.

Acho que nem sempre fiz as melhores opções e nem sempre soube lidar com a situação da forma mais… Não quero dizer adulta, mas da forma que me poderia ajudar mais. Mas são situações novas e sinceramente não sei como é que hoje faria, mas que faria diferente, faria. O ténis preparou-me para enfrentar muitos desafios e para me diferenciar das pessoas que têm uma vida normal, por assim dizer, mas o fato de ter viajado tanto tempo e desde tão nova, e de ter abdicado de tantas coisas, ter a escola à noite, tudo tão fora do normal fez com que não ficasse tão preparada para outras áreas da vida, como lidar com este tipo de situações. A minha vida era sempre ténis, ténis, ténis e o que fosse fora dessa esfera já me custava mais e ainda hoje é um desafio. Acho que é normal, cada um tem as suas experiências e os seus desafios, mas também tive fases muito boas e portanto não quero olhar só para as menos boas.

É o que estava a dizer há pouco, hoje em dia valorizo muito mais a minha carreira, o que consegui fazer e o que alcancei, por ver o percurso e o quão difícil é. Acabei um bocadinho magoada com o ténis, a não desfrutar, mas agora consigo olhar outra vez de uma forma diferente.

Maria João Koehler com Nuno Marques, a sua grande referência.

– As lesões foram o teu maior adversário?

É possível… As lesões e eu (risos), mas sim, diria que sim. Fizeram com que eu acabasse por duvidar muito mais de mim e perdesse a confiança frequentemente. É muito difícil recomeçar do zero várias vezes, e não tendo uma base e um suporte, uma boa estrutura, ainda mais difícil é. Não foram a única, de longe, mas a principal sim.

– Apesar disso não desististe e continuaste a tentar, a tentar, a tentar. Passaram-se quatro anos em que tentaste sempre até que te decidiste pelo fim. Quando é que percebeste que já não dava mais?

O Porto Open [em julho de 2018] foi o meu último torneio sem saber que ia ser o meu último torneio. Entre 2017 e 2018 fiz as minhas piores exibições e senti-me a jogar o pior ténis que alguma vez joguei, francamente mau. Houve momentos em que pensei ‘não, eu não comecei a jogar ténis para isto’. Sentia-me francamente mal no campo, com bloqueios de coordenação, não conseguia bater uma direita fluída, que sempre foi o meu melhor golpe, e tinha dores no joelho em quase todos os jogos. Para além das dores nos joelhos, qualquer coisinha me aparecia porque o corpo compensava, e eu sentia-me tão mal em campo que muitas vezes tinha vergonha e não queria passar por aquilo, não queria sofrer. Já treinava menos, porque por causa do joelho não podia meter muita carga, e sentia que não estava preparada. E aí comecei a pensar em deixar…

Em 2018 isto continuou, em Óbidos perdi à primeira da primeira semana, tinha estado a chover, nem treinámos em relva e então eu na segunda semana, mesmo estando no quadro, escolhi jogar o torneio wild card para poder treinar. E estava tão mal que cheguei ao ponto de ir ao corredor do meu lado esquerdo bater esquerdas, que é algo absolutamente inconcebível. Não conseguia meter uma direita dentro, eu tinha uma bola a um metro e meio da rede e não ganhava o ponto. Não sei explicar, porque desde que deixei de jogar nunca mais me atrapalhei de direita, mas era francamente mau.

Sentia que estava em agonia por estar dentro do campo e lembro-me de ter uma conversa com o Nuno, porque ele veio cá com as miúdas da Academia para uma série de torneios. Fui jantar com ele e disse-lhe ‘Nuno, não me vejo a fazer outra coisa, mas não aguento mais. Estou saturadíssima. Acho que vou estudar em setembro, estou a sofrer’. E ele disse-me ‘sinceramente, acho que o melhor que podes fazer é deixar de jogar e ir estudar’. E eu lembro-me que comecei a chorar, porque uma coisa era eu pensar isso, outra era ter a pessoa que melhor me conhece num campo de ténis a dizê-lo.

Iam haver vários torneios em Portugal e eu disse-lhe que se calhar ia jogá-los para ver como é que corriam e ele disse-me que eu tinha duas opções: ‘Ou vais sem expetativas, assumes que vais fazer o teu tipo de jogo independentemente de com quem jogas, ou vais a pensar que podem ser os teus últimos torneios e com a pressão pode correr mal.’ E este discurso fez-me sentido, em Oeiras perdi nos quartos mas já estava a jogar melhor, sem preocupações. O Nuno sempre tentou desconstruir as minhas sensações e depois joguei muito bem em Guimarães e Palmela, mas no dia a seguir a ganhar em Guimarães soube que tinha uma rotura total do menisco. Ainda tinha planeado ir jogar uns 25 mil à Alemanha, mas tive uns problemas e achei que não fazia sentido ir se não estava a 100% de cabeça e por isso combinei com o médico que ia ser operada, porque já tinha de o ser no final da época. A operação correu bem, até me deram um bom prognóstico, mas depois fiz um outro treino em que senti uma coisa semelhante ao que já tinha sentido antes e já não me senti disponível para recomeçar outra vez sem segurança, sem garantias, com falta de acreditar. Sempre quis tentar porque queria ser melhor do que já tinha sido, nunca para estar no mesmo sítio. Porque fazer todo o percurso vale a pena, é incrivelmente recompensador, mas eu só queria se fosse para fazer melhor e já não me via capaz.

– Imagino que não tenha sido uma decisão fácil… 

Não, não… Não foi nada fácil, aliás, mais duro do que esse momento não há nenhum. Passei mal, estive uns bons meses em casa a questionar-me sobre o que é que ia fazer, que paixão é que tinha pelo que ia fazer, se me fazia sentido. Não havia nada que eu achasse que me fascinava muito…

– E o convite para seres treinadora na Academia do Rafael Nadal surge quando?

Enquanto estava a recuperar da cirurgia fiz o curso de treinadores nível 1 da Federação, não por pensar que ia ser treinadora, mas porque estava parada. E como não me afetava a fisioterapia podia ficar já feito. Quando estava a acabar o curso, o Nuno ligou-me a dizer que ia haver uma semana em que havia muitos treinadores fora, em torneio, e que eles precisavam de ajuda. O Joel, que é um dos chefes, já lhe tinha falado de mim e como eu tinha acabado de fazer o curso era bom para ter uma nova visão, não tinha nada a perder e podia abrir-me portas para o futuro. Fui, não com uma mentalidade de lá ficar, mas para ajudar e estar com o Nuno. Já lá tinha estado no final de agosto, fui lá ter com ele antes de ser operada, e lembro-me que o Marc Gorriz, um dos chefes, me disse que iam fazer-me uma proposta, mas achava que eu devia continuar a jogar. Eu respondi que de momento não estava interessada porque ainda ia tentar jogar mais uns tempos e perguntei se a proposta se mantinha de pé. Eles disseram-me que eu tinha uma porta aberta e depois de fazer dois treinos… No primeiro fiquei excitadíssima, não estava à espera que o médico dissesse que eu podia treinar, mas depois dei por mim a sentir receio outra vez, uma picada no segundo treino que faço, a acordar e a não ter a mesma motivação para recomeçar tudo do zero outra vez e pensei ‘se isto não é a 300% não faz sentido’. E foi quando lhes liguei.

Sessão de treinos com a filipina Alexandra Eala, número 4 do ranking mundial de juniores

– Já se passou mais de um ano. Como é que tem sido a experiência?

Desafiante. Aprendi muitas coisas, cresci bastante e acho que se hoje em dia voltasse a jogar ténis seria uma jogadora mais completa e com mais conhecimentos, acho que isso me ajudaria. Estar com o Nuno é incrível, porque eu passei muitos anos com ele e continuo a aprender com ele todos os dias e fico muito contente por ter uma ideologia e mentalidade parecidas com a dele. Tenho muito orgulho de tudo aquilo que ele conquistou e também foi muito bom ver de perto o quanto as pessoas o valorizam e admiram por lá. E ao mesmo tempo foi um privilégio trabalhar com ele [n.d.r.: no início deste ano mudou-se para o Kuwait, para assumir a liderança da nova academia do tenista maiorquino], ele é muito inteligente e puxava muito por mim, ajudou-me a ser melhor e a superar-me. O Toni Nadal há pouco tempo até me disse que tinha dito ao Nuno que queria que eu fosse a Lead Coach, que é quem tem um pouco mais de responsabilidade a seguir ao Head Coach, e o Nuno disse que não porque queria que eu passasse por todas as etapas, que aprendesse e passasse pelas coisas difíceis. Isso é um lado que eu valorizo muito, porque é para o meu crescimento. E é muito bom trabalhar com o Toni, gosto bastante.

– Trabalhas de perto com ele?

Quando está em Maiorca sim. Para além de estar no grupo geral, com raparigas dos 14 aos 19 anos, estou com um projeto que tem um número limitado de bolsas para os melhores e o Toni também trabalha de perto com esse grupo, por isso estou mais tempo com ele nessas alturas.

Tenho tido a oportunidade de privar de perto com ele e aprendo sempre alguma coisa. A mentalidade é incrível, é uma pessoa com muitíssima experiência e tenho aprendido imenso. Agora temos um novo chefe que também foi treinador de três jogadoras que ganharam Grand Slams, o Gabriel Urpi. Treinou a Flavia Pennetta, a Conchita Martinez e a Arantxa Sanchez, foi capitão da Fed Cup… Apesar de estar connosco há pouco tempo também tenho aprendido com ele e tem sido uma experiência espetacular, tenho gostado muito.

Treinar e jogar são coisas completamente diferente, mas também tenho muita paixão por treinar, por ter um impacto na vida das miúdas e ensiná-las a serem melhores jogadoras, mas também a crescer, a serem respeitadoras e a aprenderem as coisas essenciais da vida, como valores, e depois sentir que elas procuram e que isso faz a diferença na vida delas, como o Nuno fez na minha.

O Toni uma vez perguntou-me se eu gostava de ser treinadora profissional e eu achei piada à pergunta, perguntei-lhe o que era isso e ele disse estar no circuito, e obviamente que eu gostava de lá estar, mas gostava muito mais de fazer o percurso, e ajudar algum jogador a que o jogador valoriza muito mais e acaba por ter um impacto nele. Claro que não diria que não a um jogador que já está a jogar WTAs ou ATPs, mas se pudesse escolher entre os dois escolhia começar na formação e fazer todo o percurso.

– A carreira como treinadora é muito curta, mas já estás a construir um currículo invejável… Imaginavas-te a ser treinadora depois de terminares a carreira como jogadora?

Não, não, de todo. Sempre achei que depois de deixar de jogar me ia querer conhecer fora do contexto do ténis. Se calhar quando comecei a ter mais ideias de deixar de jogar começou a surgir essa possibilidade, mas como achava que não tinha tanta paixão nunca lhe dediquei muitos pensamentos. Achava que ia tirar o meu curso, mas depois também pensei ‘não me vejo agora a tirar um curso de quase 10 anos, um curso tão exigente’ — porque eu congelei medicina —, então pedi transferência para psicologia, mas depois pensei ‘vejo-me num escritório?’. Então pensei em psicologia para integrar uma vertente desportiva, quase como um extra para se mais tarde quisesse ser treinadora, mas foi tudo acontecendo sem muitas previsões até surgir a oportunidade de ir para lá. Durante o meu percurso de jogadora nunca me vi como treinadora.

– Olhando para o ténis português, de um momento para o outro deixamos de ter as duas, três melhores jogadoras de sempre… Como é que se combate isso? O que é que é preciso para voltarmos a ter nomes lá em cima?

Agora estou um bocadinho por fora, estou num mercado completamente diferente. Não só porque Espanha tem muito mais cultura e história, como porque mesmo dentro disso estou numa Academia. Mas acho que hoje em dia há estruturas e apoios que não havia antigamente que se forem bem direcionados podem fazer uma diferença muito grande. Têm havido muitos torneios cá, mas tem de haver uma aposta maior na formação, como já disse algumas vezes. A Federação tem evoluído no sentido de proporcionar mais torneios e acompanhamento aos jogadores, mas acho que tem de haver um apoio maior e não só para determinados atletas. É válido que haja atletas que queiram manter os seus treinadores e esses também devem ter apoios.

Passa muito pela parte da formação, pela parte de dar mais visibilidade ao ténis. O nosso desporto nunca será tão acessível como o futebol, e agora também há o padel que acaba por tirar gente e já há até muitos miúdos que nem passam pelo ténis, mas tem de chegar a mais gente e haver mais ações de fomento nas escolas. O país tem condições únicas para a prática da modalidade, acho que tem de haver mais mentalidade. Durante muito tempo sempre se disse que o país não podia porque não havia cultura, mas agora temos um João Sousa que está a fazer o que está a fazer.

Acompanhada por Emma Stauber e Irene Fuster na Rafa Nadal Academy, em Palma de Maiorca
Gaspar Ribeiro Lança
gasparlanca@raquetc.com | Dar palavras a um encontro de dois, três, quatro ou cinco sets, com ou sem tie-break. Dar palavras a histórias, a recordes. Dar ténis a todos aqueles que o queiram. E mais, sempre mais — por isso depois chegaram o padel, o ténis de mesa e o squash. E assim cá estamos, no Raquetc ("raquetecétera"). Como escreveu Pessoa, "primeiro estranha-se, depois entranha-se."