Frederico Gil é o primeiro protagonista das Grandes Entrevistas 10 Anos Raquetc. Exatamente 10 anos depois de se ter tornado no primeiro tenista português a disputar a final de singulares de um torneio ATP, no antigo Estoril Open, o lisboeta residente em Sintra aceitou os desafios que o Raquetc lhe lançou: recordar alguns dos momentos mais marcantes da carreira, histórias curiosas e abordar a atualidade e os novos desafios que começa a abraçar.

– Fez agora 10 anos que jogaste talvez o encontro mais importante da tua carreira. É um momento em que pensas muito?

Foi um momento que me marcou muito, obviamente. Quando penso no Estoril Open lembro-me sempre da final que fiz, mas não do encontro em si. O que está mais presente é que cheguei à final. O Estoril Open é o máximo da minha carreira e uma semana que me marcou. Era um sonho ganhar o torneio, era um sonho chegar aos quartos de final e bater o recorde dos portugueses que tinham chegado aos quartos de final, o Nuno [Marques] e o [João] Cunha e Silva. Lembro-me que na altura o meu objetivo era esse e no ano em que o superei e fiz meia-final passei logo para a final, portanto foi ouro sobre azul. Foi perfeito.

– Foi a semana mais feliz da tua carreira?

Mais feliz talvez não. Mas foi uma das semanas mais felizes, com certeza. Foi uma semana difícil, ao mesmo tempo, porque nos quartos de final, não sei se te apercebeste ou se te lembras, mas tivemos todos uma intoxicação alimentar. Foi muito duro, até me lembro daquele francês, o [Arnaud] Clement, deitado no sofá do players lounge porque não se conseguia mexer e eu também passei muito mal.

No dia em que vou jogar com o Rui Machado nos quartos de final tinha duas horas de sono, mal dormidas, e estava muito nervoso, porque senti que tinha a oportunidade de chegar às meias-finais, mas passei muito mal a noite, com vómitos. A minha mãe ajudou-me imenso, eu estava muito nervoso e a sentir ‘fogo, agora que tinha uma grande oportunidade de chegar à meia-final porque é que isto me foi acontecer?’. Não sabia que tinha acontecido a todos, só me apercebi no dia a seguir e quando me apercebi que estávamos todos na mesma situação fiquei com uma esperança do caraças. Acho que ganhei o jogo ainda antes de entrar em campo, porque sentia que ao Rui podia ganhar. Sabia que se eu estivesse mal e ele estivesse bem eu ia perder, agora estando nas mesmas condições pensei ‘vou ganhar quase de certeza’. Isso também me marcou muito, mas foi uma semana de muito cansaço. Entre isto tudo acontecer, mais o desgaste emocional, foi duro.

Frederico Gil (à direita) com Albert Montañés, espanhol que o derrotou na final de singulares do Estoril Open (6-2, 6-7[4] e 7-5) no dia 9 de maio de 2010.

– Depois da vitória com o Rui tiveste aquele jogo épico, com o Garcia-Lopez, no Centralito. É dos melhores e mais emocionantes que tiveste?

Sim… Aí estava muito contente, super super confiante e o jogo ficou ao rubro no terceiro set, porque foi quando acabou o jogo do Federer. Tinha sido um dia de muita chuva, os jogos tinham sido todos adiados e nem estava assim tanta gente no meu, porque as pessoas tiveram de se dividir entre o Central e o Centralito [as meias-finais foram jogadas em simultâneo para evitar o adiamento para o dia da final] e se calhar nem meia casa estava no meu court. Mas de repente, como o Montanes com o Federer acabou em dois sets e o nosso estava muito longo, a malta veio toda apoiar-me no terceiro set. Aí é que foi brutal, em termos de adrenalina. Era um sonho que tinha desde miúdo, quando ia para lá treinar, e depois quando estive aqueles três anos com a Federação com base de treino ali, o objetivo era sempre jogar um dia com o Centralito cheio. Ainda para mais jogar a meia-final do Estoril Open com o Centralito e ganhar, foi incrível.

– Quando ganhaste e soubeste que ias jogar a final contra o Montanes, foi alegria ou ao mesmo tempo tristeza por não ser contra o Federer?

Lembro-me do Miguel Seabra me dizer isso logo ali no campo. Eu acabei o jogo, festejei, pediram-me umas palavras e ele deu-me logo ali a notícia. Até acho que soltei um ‘yeah’, saiu-me um ‘yeah’ ou um ‘come on’ no sentido em que para mim jogar contra o Montanes é muito mais fácil do que jogar contra o Federer. Mas por outro lado eu queria jogar contra o Federer, queria estar na final do Estoril Open e jogar contra o Federer, isso é que era, mesmo que perdesse já podia dizer que é incrível. Fiquei contente por ser um adversário mais fácil, à partida, mas por mim a final era com o Federer, preferia.

– Foi uma semana marcante. No meu caso, impulsionou-me a transformar um pequeno projeto que tinha no site, que agora cumpre 10 anos. Na altura sentiste que teve um grande impacto no ténis português? E na tua vida, o que é que mudou com aquela semana?

Fui sentindo, fui sentindo. Senti muito com os meus resultados que estava a desbloquear claramente um caminho e isso trazia-me prazer. Ser pioneiro, estar a estabelecer recordes dava-me satisfação, dava-me gozo, era tipo uma recompensa de todo o trabalho que tinha feito até ali, sentia muito isso.

– E ainda por cima logo em casa…

Sim, em casa, mas agora estava a referir-me de uma forma geral à minha carreira. Mas em casa também, eu sempre tive este drive de querer mostrar que somos tão fortes ou mais fortes do que lá fora, porque havia sempre aquela cultura de que lá fora é que é, é que se consegue, e eu queria demonstrar que cá dentro é tão ou mais possível do que estando lá fora. Sempre quis marcar isso. E o Estoril Open foi mais uma vez esse marco, porque sempre acreditei.

O momento em que se celebra a passagem à final do Estoril Open, ao derrotar Guillermo García-López no então denominado Centralito, no Jamor.

– Tens algum arrependimento dessa semana?

Opa, tenho só um bocadinho de pena de depois do 3-0 no terceiro set não ter feito o duplo break. Se faço o 4-0 o jogo tinha acabado, acho que teria sido um 6-2 ou 6-3. Quando aquilo vira para 3-1, depois 3-2, já fica muito taco-a-taco. Eu ainda faço o 4-2, mas tenho alguma pena de não ter feito o 4-0 porque aí acabava. Mas lá está, e já disse isto antes, olhando para trás vejo claramente que não estava preparado para ganhar o torneio.

Não estava mentalmente preparado para ganhar o Estoril Open. Naquele momento eu não estava com uma grande forma e só tinha voltado a treinar com o João Cunha e Silva há poucos meses, mas entretanto o quadro abriu porque o Ljubicic e o Monfils, que eram os cabeças de série da minha secção, lesionaram-se e desistiram. É preciso ter o mérito de lá chegar, foi como agora com o Pedro Sousa em Buenos Aires, é preciso conseguir agarrar a oportunidade e ter o mérito de lá chegar.

– Tens alguma história curiosa para contar, algum momento fora do court que viveste nessa semana no Jamor?

Tenho esta, clássica, do dia em que estamos mal e eu vou enfrentar o Rui [Machado, nos quartos de final]. Eu estava-me a sentir tão mal que optei por não aquecer. O jogo era à tarde, supostamente íamos bater umas bolas de manhã e depois almoçar, mas optei por ‘de manhã, esquece, nem vou bater bolas, não consigo fazer nada, não vou gastar energia nenhuma e ali meia-horinha antes do jogo é que vou aquecer e jogar’. E lembro-me de perguntar ao Abílio Costa, o massagista, se podia usar a marquesa dele para descansar e tentar mesmo dormir, porque não tinha dormido nada. Deitei-me lá, pus assim um ‘sonzinho’ de meditação e descansei. E de repente ouço um barulho, alguém a entrar nos gabinetes dos médicos, e era o Rui Machado a falar de tudo aquilo que eu estava a sentir. E eu quando ouvi aquilo pensei logo ‘já foste’ (risos). Deixei-os falar, não disse nada e saí dali direto para a bicicleta aquecer, porque a partir do momento em que o ouvi dizer como tinha passado a noite fiquei cheio de energia porque percebi que estávamos nas mesmas circunstâncias e então estava tranquilo. Aí é que se vê o poder da nossa cabeça, porque eu estava super em baixo, pensei que ia perder, que não tinha hipóteses, e de repente tudo muda.

– 3 anos depois de chegares à final tiveste de jogar o qualifying… Como é que se lida com isso?

Não é fácil… Aí também tive uma fase mais complicada da minha vida pessoal e profissional e os resultados também foram piores. E como não eram tão bons se calhar não merecia estar no quadro principal, então tive de arregaçar as mangas e recomeçar tudo. Acho que foi das fases mais difíceis da minha carreira.

– Mas pelo estatuto que já tinhas ganho… Porque independentemente da fase em que estavas eras o português com o melhor desempenho de sempre no torneio.

Sim, eu vou ao qualifying porque também quero muito. Por um lado eu entendo que não tenham querido apostar em mim, por outro não. Porque eu era o melhor de sempre àquela data e este tipo de provas são provas que puxam muito pela motivação e que podem ser trampolins para outras fases boas. E às vezes um momento bom com um wild card pode dar-te uma motivação extra, passas uma, duas rondas e desbloqueias uma série de pontos e de confiança que nos qualifyings não consegues, porque mesmo que jogues bem às vezes tens jogadores super duros. E aí é que acho que a organização podia ter tido um bocadinho mais de entreajuda e entendimento da própria situação e catapultar-me, ou ajudar-me, outra vez para cima. Mas são as decisões deles e há que respeitar.

– Não muito depois, outro brilharete, desta vez em Monte Carlo com destaque para aquele encontro com o Monfils. Lembras-te muito desse jogo? É um dos teus melhores?

Sim, sim, lembro-me muito porque foi a minha melhor vitória em termos de ranking, ele era número 9 do mundo e isso marcou-me. Não por ser o Monfils, mas por ser o número 9 e por isso um jogador do top 10. Essa semana no Mónaco foi espetacular, marcou-me imenso. Estava lá com o Miguel Medina e o Gonçalo Nicau, que fazia parte da equipa técnica do Cunha e Silva, e foi ronda atrás de ronda.

Lembro-me que antes do meu primeiro jogo no qualifying, contra o Federico del Bonis, estava a chorar. Faltava para aí meia-hora para o jogo, ou 45 minutos, nós tínhamos aquecido e eu comecei a chorar e desabafei imenso com o Nicau, porque não me estava a sentir bem. Estava com alguns problemas e não me estava a sentir muito bem, mas ao mesmo tempo estava com muito treino, muito trabalhado, portanto era uma questão de mais semana ou menos semana para dar um clique.

E o Nicau nesse dia foi incrível! O facto de eu ter chorado e ter tirado tudo cá para fora foi o suficiente para depois tudo de bom vir ao de cima e conseguirmos fazer uma semana inacreditável quando eu podia perfeitamente ter ficado pela primeira ronda do qualifying. O ténis também é isto. Lembro-me que no balneário descarreguei, descarreguei, descarreguei tudo para cima do Nicau e foi um bocado, mas foi bom porque depois fiquei completamente solto e estava cheio de vontade e ‘pica’ de jogar. Tinha ali algumas dificuldades com coisas internas e o Nicau aí teve um trabalho espetacular, ajudou-me a que eu fosse eu próprio e correu super bem. Essa parte é muito importante, se naquele momento ele não me deixasse desabafar, se tivesse o tipo de pensamento ‘vamos ter jogo, agora não é o momento’ eu se calhar tinha perdido na primeira ronda do qualifying e nada disto tinha acontecido. Isso marcou-me imenso porque ele teve, se calhar até sem pensar, uma capacidade de me deixar pôr tudo cá fora e isso foi suficiente para eu depois conseguir reequilibrar-me e fazer a semana que fiz. Se não fosse assim eu provavelmente tinha perdido logo naquele dia.

Em ação no Masters 1000 de Monte Carlo, onde em 2011 se tornou no primeiro português a chegar aos quartos de final de singulares de um torneio da categoria.

– Esse jogo com o Monfils cansou-te muito para os quartos de final com o Murray?

Cansou-me a semana, oh Gaspar (risos). Foi de loucos! Foram seis dias a bombar sem parar. Era o meu quinto jogo. Eu levei Delbonis no qualy, Cipola de qualy e depois levo Stakhovsky, Mayer, Monfils e Murray, tudo em dias seguidos. Não é fácil, eu lembro-me que estava todo roto quando cheguei aos quartos de final. Já estava ligado, nos tendões de Aquiles estava super dorido, tinha dores nos gémeos, estava no meu limite. Estava super motivado, mas a motivação ali já não era suficiente.

Era completamente um peixe fora de água. Lembro-me de estar no balneário e os outros jogadores dos quartos de final eram quase todos top 10, o torneio estava muito forte e eu senti na pele, senti ‘estou completamente fora da minha zona de conforto’. Era Nadal, Federer, Murray, Ferrer, tudo de topo, topo. É diferente… Eles têm sempre tudo novo e às tantas eu já estava a precisar de lavar roupa, com as meias sujas de terra… São pequenas coisas, mas quando chegas àquele patamar todas juntas fazem a diferença.

– Também nesse ano jogaste aquela eliminatória marcante contra a Suíça, do Federer e do Wawrinka. Foram momentos únicos?

Essa foi muito gira! O estádio era brutal, lindo, lindo, e estavam mais de 10 mil pessoas em Berna. Aquilo marcou-me muito, porque o Rui logo no primeiro jogo contra o Federer ganha-lhe o primeiro set por 7-5. Foi incrível, estávamos a vibrar imenso, a gritar ‘o Rui está a ganhar ao Federer!’, em êxtase. Depois eu entrei contra o Wawrinka e também foi equilibrado, foi um bom jogo e estávamos a jogar bem. No par, eu e o leo contra o Federer e o Wawrinka foi engraçado, tivemos logo um break acima. Foram experiências giras, estar com a seleção, estarmos fora.

– Jogaste contra 3 dos 4 Big Four. Quais é que foram as maiores diferenças, as maiores dificuldades e onde é que sentiste que tinhas mais possibilidades?

De todos esses momentos com os melhores, aquele em que me senti mais confortável foi claramente em Miami, contra o Nadal. Não só porque eu estava numa forma muito boa, como ele nesse dia e nesse torneio não estava no pico de forma. Curiosamente, um mês a seguir, contra o mesmo adversário, mas em Barcelona, foi o momento em que senti mais dificuldades. Foi completamente diferente: o Nadal contra quem joguei em Miami não é o Nadal contra quem joguei em Barcelona, joguei com adversários completamente diferentes. O piso, o tipo de confiança que ele tinha em Barcelona… Não sei explicar, era uma aura de energia totalmente diferente. [Em Barcelona] era uma bola muito mais pesada, parecia outro jogador, ali senti mesmo que era impossível, enquanto em Miami senti que pelo menos um set ia ganhar, que era possível ganhar o primeiro e depois logo se vê. Em Barcelona senti mesmo que era impossível, que não tinha a mínima hipótese, que não tinha soluções técnicas, físicas, táticas, não dá. Senti que não lhe conseguia fazer moça. E lutei, e lutei, joguei bem, foi 6-2 6-2 e foi um dos melhores resultados dessa semana. Ele ganhava tudo, tudo fácil.

Contra o Federer, no Estoril, até aos 4-4 com vento e em terra, em asa, senti-me super tranquilo. Não senti que não conseguia, mas sim que estava taco-a-taco e alguns nervos da parte dele. Estava a deixar jogar muito. Mas a partir do 4-4 para o 6-4 e 6-1 também senti que ele pôs uma mudança acima e desapareceu: os serviços começaram a entrar mais, as respostas muito mais precisas, subiu uma mudança e desapareceu. Parece que esteve ali a ler-me e de repente percebeu como é que tinha de me ganhar e está feito, arrumou o jogo e foi-se embora. No Nadal não senti esse tipo de personalidade, esse tipo de jogo. Mesmo em terra ganha porque o que ele consegue fazer em termos físicos é inumano, mas não é aquela superação tenística mais fina, de técnica. É mais físico, sentes uma impotência de soluções em termos físicos.

Nadal (à esquerda) e Gil (à direita) no Court Central do Real Club de Tenis Barcelona (agora apelidado de Pista Rafa Nadal), um mês depois de se terem defrontado no Masters 1000 de Miami, EUA.

– Identificas-te mais com quem?

Um misto era perfeito, claro (risos), embora se tivesse que escolher um era o Federer, porque ténis é mais a parte técnica do que a física, mas obviamente que a física também é fundamental. Se tivesse de escolher optaria sempre em primeiro lugar pela parte técnica.

– 10 anos depois, aqui estamos. Como é que está o Fred Gil dos dias de hoje?

Em primeiro lugar estou a recuperar da lesão que tive depois de Oliveira de Azeméis. Ainda tenho o pé com algumas dores e então, nesta fase em que não posso treinar a sério nem competir, decidi investir na minha carreira como treinador para ganhar alguma experiência, mais numa de não estar parado e de ter uma rotina, mas estando do outro lado. É uma coisa que eu sempre quis e como percebi que não podia competir decidi que não vou parar e então aproveitei para investir temporariamente, não sei quanto tempo é que isto vai ser, mas temporariamente vou estar no ativo como treinador. E até é uma forma de estar ocupado e de não deixar o ténis no sentido de continuar com a raquete, de haver alguma regularidade e fazer disto vida até estar bom do pé e perceber se posso ou não voltar a competir e de que forma. Tenho dado alguns treinos, feito alguns trabalhos e treinos privados e já estou a conseguir minimamente deslocar-me, correr, conseguir minimamente mover, mas ainda não está bom.

– Então continuas a querer jogar?

Não ponho de parte voltar a competir, não decidi que agora sou treinador e parei totalmente de jogar. Não, neste momento sou treinador e investi na minha carreira de treinador, mas não ponho de parte… Imagina que daqui a uns meses eu tenho o pé bom e tenho de voltar ao circuito, aí voltarei. Agora, se o pé não ficar bom continuarei naturalmente a minha carreira como treinador. Mas nesta fase o meu foco está na carreira de coach, porque não consigo mesmo. Já tentei várias vezes [mexer-se], mas não posso, nem tenho autorização médica para o fazer.

– Que lesão é em concreto?

Neste momento dizem que é uma artrite. Mas ainda estão a avaliar, é uma doença autoimune que eu tenho aqui, nem eu próprio sei. A médica diz que é artrite psoriática, mas já vi médicos que me dizem que eu não tenho psoriase, portanto eu próprio não sei bem o que é… Sei que isto está inchado, há mais de seis meses que tenho o pé inchado, sempre que forço fico com dores, não posso forçar muito e se não tomar anti-inflamatórios tenho dores, dores de não poder estar a andar, ou seja, são dores graves. Se tomo a medicação tenho dores, mas são dores controladas em que consigo fazer o meu dia naturalmente, mas não posso forçar. Dar uns treinos, correr um bocadinho com os clientes ou fazer um aquecimento consigo, mas já experimentei jogar alguns pontos e dói-me um bocado. Mas sim, o diagnóstico é uma artrite. Esteve indefinido, porque este tipo de lesões… Por exemplo, o meu pai teve dois a três anos e depois passou-lhe, há pessoas que ficam com isto a vida inteira, pode ser uma questão temporária… Também estou a ser visto por outro médico e já se sabe que há uma série de vitaminas e produtos naturais que ajudam imenso e neste momento existe uma medicação biológica que é muito forte e que tem tido muito bons resultados e eu vou começar, mas com a questão da covid não pude começar porque essa medicação manda um bocadinho abaixo o sistema imunitário e neste momento não posso estar a correr esse risco. Se calhar já podia ter isto tratado, mas entretanto com a covid a médica disse para não avançar já para os biológicos.

Neste momento estou a encarar a minha vida, tenho clientes privados, tenho um campo de ténis em casa e tenho dado aqui treinos privados e há este projeto da Dahcor que também surgiu, que é bastante grande e se Deus quiser vai avançar em breve. A minha carreira como atleta neste momento está em stand by. Já disse a todos, não pus um fim na minha carreira, mas como não sei quando é que vou poder voltar a treinar a sério para poder competir está em pausa. E também ponho em cima da mesa, daqui a uns tempos, mesmo que seja daqui a um ano ou dois ou três, voltar ainda para uma carreira internacional só de pares. Mesmo que agora eu esteja uns tempos como coach, daqui a uns tempos se estiver bem e tiver vontade ainda penso investir nos pares. Os singulares… Também quero investir muito na minha carreira como veterano, quero muito daqui a uns anos ser campeão do mundo de +35, +40, +45, é uma coisa que também me traz motivação.

Em ação numa das quatro etapas do Cascais NextGen Tour 2018, torneios ITF organizados pela 3Love que premiavam o melhor português com um wild card para o Millennium Estoril Open.

– E esta primeira experiência com os treinos tem corrido bem?

É engraçado, é engraçado, mas dá bastante trabalho e uma coisa é ser atleta, outra é ser treinador. Porque ensinar não é fácil. Claramente sou treinador mais na vertente competição, ou seja, quanto melhor o atleta do lado de lá a jogar, mais eu consigo ajudar. Aquilo em que tenho investido muito e de que gosto imenso é ajudar veteranos, já com um nível bom, que querem melhorar e ter um treino à sua medida. Nesse ramo tem corrido bem e faço com muito gosto.

– Mas imaginas-te como treinador de competição, a andar no circuito?

Sim, sim, sim. Não sei se com um jogador… É assim, este projeto grande que vamos ter com a Dahcor também vai surgir naturalmente, não posso falar muito sobre isso, mas naturalmente vai acontecer. Mas sim, como treinador um dos meus objetivos é estar no topo e ao nível da competição o topo é o ATP Tour, mas este lado social do ténis também está cada vez a ganhar uma maior dimensão na minha pessoa. Obviamente que a competição é o topo, mas o ténis não é só a competição, também é o lazer e isso é algo que me fascina e em que considero que sou bastante bom. Acho que essa parte do ténis é muito gira e tenho tido clientes muito bons, com quem tenho disfrutado muito desta fase. São outros tipos de experiências, pessoas, clientes.

– Tal como disseste, sei que ainda não podes adiantar muito, mas assim do que já está definido o que é que é este projeto da Dahcor e qual é o teu papel?

A Dahcor vai ter vários profissionais e eu serei um deles. É um projeto internacional, grande, em que parte desse projeto vai começar em breve na Beloura. Vai ser uma espécie de parque temático do ténis, com um conceito muito diferente de um clube de ténis, muito virado para a personalização do material e qualidade e detalhes máximos. Será um serviço que não existe e a todos os níveis, tudo o que se possa imaginar a Dahcor vai fazer. Fico contente por me terem escolhido para fazer parte, porque cada vez mais me identifico com o Ricado e quanto mais conheço, mais gosto. O material é muito bom, o serviço vai ser ótimo e acho que vai ser uma coisa muito diferente. Aquilo que se pretende é teres um serviço à tua medida, a todos os níveis. É o futuro, porque a partir do momento em que podes construir a tua raquete com a qualidade do Federer, ou melhor… No fundo é um taylor made service, em que vais ter tudo à tua medida.

– Houve um intervalo entre os 4 mosqueteiros e a tua explosão e os novos recordes. De certeza que há muitos jovens que hoje em dia jogam devido ao sucesso que tiveste, assim como o Rui, o Gastão, o Pedro e o João. O que é que isso te faz sentir? Deixa-te orgulhoso ter servido de impulsão?

Sim, não penso muito nisso, mas obviamente que me sinto feliz. Mas eu olho para trás e acho que podia ter feito bastante mais do que aquilo que fiz. Sinceramente acho que se tivesse tido outro tipo de ajuda e outro tipo de encaminhamento se calhar tinha sido um top 30, um top 20, um jogador de topo. Acredito mesmo nisso e digo-o com a maior naturalidade porque sinto imenso isso. Obviamente que estou muito grato e olho para trás e gosto [do que atingiu], mas há muita coisa que hoje em dia eu teria feito de outra forma, acho que houve um lado meu que não foi vivido e isso custa-me um bocadinho, porque acho que poderia ter feito muito mais do que aquilo que fiz. As pessoas dizem-me que ser 62 do mundo é bom, e é bom, mas para mim não é ‘wow’, não digo que foi aquém mas ser top 30, top 20, eventualmente um top 10 é que tinha sido realmente bom, porque a meu ver o meu valor era esse.

– Por isso é que disseste algumas vezes que continuavas a ter o top 50 como objetivo…

Exato. E já punha o top 50 como objetivo baixo, uma coisa alcançável, porque internamente sempre pensei nos 30, nos 20, nos 10. Acho que nunca disse isto, mas eu cheguei a pensar várias vezes, eu acreditava que iria ser número um do mundo, acreditava. Top 10 tinha a certeza e eventualmente eu poderia ter chegado a número um, pelo menos eu sentia isso.

Quando dizia top 50 era para ter um objetivo alcançável, mas por outro lado sou o primeiro a dizer que 62 foi ótimo, ser número um português cinco anos na Davis foi ótimo, para mim foram coisas boas, mas não foram excelentes. Eu tinha muito aquela mentalidade de que ia mostrar às pessoas que cá em Portugal é que se conseguia e se calhar houve fases em que eu podia ter ido para fora e também podia ter investido de outra forma, mas não o fiz. E eu consegui coisas inacreditáveis com o João [Cunha e Silva], mas podíamos ter feito uma carreira ainda melhor a nível internacional se tivesse uma postura ou uma ajuda diferente aqui e ali, tudo misturado. Mas é o que é e não vale a pena olhar para trás, é seguir em frente.

– Para terminarmos, como é que achas que o nosso ténis vai sair desta paragem de várias semanas, seguida de uma abertura faseada?

Como jogador, aqueles que precisam de trabalhar mais obviamente vão sentir algumas dificuldades em lidar com isto tudo, enquanto os que têm mais talento e facilmente se põem em forma vão ser mais rápidos. Não sei, acho que não tem sido fácil para ninguém e eu do meu lado aproveitei e virei-me mais para o papel de treinador, portanto também comecei a ver as coisas de uma forma diferente, mas para um atleta que estivesse a 100% imagino que esta fase não seja nada fácil de gerir. Gerir a carga de treino sem sabermos quando é que vamos voltar a competir não é fácil e a motivação baixa sempre muito, mas é o que é e temos de viver a vida o melhor que sabemos, não há muito a inventar.

Gaspar Ribeiro Lança
gasparlanca@raquetc.com | Dar palavras a um encontro de dois, três, quatro ou cinco sets, com ou sem tie-break. Dar palavras a histórias, a recordes. Dar ténis a todos aqueles que o queiram. E mais, sempre mais — por isso depois chegaram o padel, o ténis de mesa e o squash. E assim cá estamos, no Raquetc ("raquetecétera"). Como escreveu Pessoa, "primeiro estranha-se, depois entranha-se."