Aravane Rezai recorda trabalho com Mouratoglou: “Era como estar numa prisão”

Dez anos depois de ter alcançado a melhor posição da carreira (15.ª) no ranking mundial feminino, a francesa Aravane Rezai falou de tudo numa grande entrevista ao website espanhol Punto de Break. Da ascensão lenta comparada com as grandes rivais da mesma geração aos gritos de Michelle Larcher de Brito e, até, da péssima relação com Patrick Mouratoglou na altura em que alcançou o melhor resultado da carreira.

A relação profissional entre a tenista e o treinador francês — nos dias de hoje responsável por nomes como Serena Williams, Stefanos Tsitsipas e Coco Gauff — começou no final de 2009, dias depois de ganhar “torneio das campeãs” (o segundo Masters do circuito feminino) em Bali, na Indonésia.

“Convidei o meu amigo Patrick Mouratoglou para viajar connosco e divertimo-nos todos imenso. Íamos à praia, tínhamos cocos e senti que estava tudo no lugar certo. Senti que não havia pressão e que podia jogar o meu melhor ténis frente a grandes jogadoras e quanto melhor me sentia no court mais feliz estava fora dele. Quando ganhei o torneio decidi que queria trabalhar com ele”, contou Rezai.

Mas a relação não tardou a amargar, mesmo se foi ao lado do compatriota que se tornou campeã de Bastad e, sobretudo, Madrid — com uma semana que surpreendeu o mundo do ténis e lhe ofereceu o maior título da carreira.

“O Patrick trouxe à minha equipa foi um verdadeiro plano de trabalho. Eu passava oito horas por dia no court com o meu pai e ele acrescentou um toque de profissionalismo: uma hora de fitness, uma hora de massagens… Para além disso, levou-nos a courts de qualidade e deu-me bons parceiros de treino e facilidades. O meu pai tinha um carácter muito forte, às vezes era algo possessivo e queria proteger-me custasse o que custasse. E dei-me conta de que o Patrick, em certas ocasiões, queria acalmar essa situação”, revelou a francesa, agora com 33 anos.

“O problema é que ele era uma daquelas pessoas que não aceitam as suas responsabilidades e pressionou-me a enfrentar os meus pais. Fez-me estar cara a cara com eles para que ele conseguisse o que queria: controlo total. Queria resultados e não lhe importava a forma como os conseguia, não lhe importavam a minha educação ou o meu passado.”

Nas palavras de Rezai, “ele prometia-me que eu ia chegar ao top 10 e eu confiava plenamente nele, mas como homem não estava certo fazer uma rapariga jovem lutar contra os pais enquanto ele ficava atrás, à espera.”

E foi por isso que, mesmo na semana mais dourada da carreira, a ex-tenista francesa (retirou-se em 2014 e tentou voltar por duas vezes, mas sempre de forma breve) não foi feliz.

Não diria que é um grande treinador, mas sim um grande homem de negócios: sabe como jogar, como analisar as coisas desde o ponto de vista tático. Mas se entro em detalhes… Em Madrid pôs-me sob uma enorme pressão para ganhar aquele torneio. Não podia desanuviar, não podia pegar no telefone, no cartão de crédito, nada. Era como estar numa prisão. Levantava-me às seis da manhã para correr uma hora ou duas, fazia o treino físico antes do meu treino, era demasiado. O meu pai punha muita pressão em mim e ele pensou que se pusesse uma pressão extra me levaria a ser melhor. E a verdade é que funcionou, mas chega a um momento em que não aguentas mais”, explicou.

“Foi por isso que a nossa relação durou pouco mais de um ano. As pessoas que estavam à minha volta disseram-lhe que eu não ia aguentar mais, mas ele respondia-lhes que não se importava. Não se importava com a minha saúde mental.”

Na mesma entrevista, Aravane Rezai também recordou um episódio infeliz relacionado com a vitória frente a Michelle Larcher de Brito.

Aconteceu em 2009, na edição que significou o melhor resultado de ambas as jogadoras no Grand Slam francês.

“Ela estava a jogar um ténis incrível e era a número um do mundo, mas estava a defrontar-me a mim, no meu país, e eu não a ia deixar fazer isso (gritar). Podes gritar alto, mas o grito dela continuava até ao momento em que eu batia a minha pancada e isso não era justo. Não me importei e disse-o. Não podes gritar dessa forma, para mim vai contra a beleza e o respeito do desporto. Depois recebi muitos insultos e ameaças de fãs portugueses, mas não me importei.”

Na altura, a jogadora portuguesa não conseguiu fugir à armadilha da jogadora da casa — apesar de ainda se ter tentado defender com o árbitro de cadeira: “Será que ela diria o mesmo se fosse contra a Sharapova” — e acabou derrotada na terceira ronda, mas não saiu de Paris sem receber elogios das duas adversárias que deixou pelo caminho, Melanie South e Zheng Jie, então número 15 do mundo.

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