Café da manhã: A despedida incerta de Sharapova, a reviravolta e o sangue de Fognini e uma jornada sem fim

À entrada para o segundo dia de Australian Open já se suspeitava que a jornada de terça-feira seria uma das mais longas — senão mesmo a mais longa — de todo o torneio devido à grande carga de encontros que transitou do dia anterior e as suspeitas não demoraram a confirmar-se. De tal forma que entre várias batalhas e episódios caricatos nas primeiras horas do dia a organização decidiu-se a “cancelar” alguns encontros para evitar um final demasiado tardio.

“Café da manhã” é o nosso resumo de tudo o que acontece durante a madrugada em Melbourne Park. Para os que se esqueceram de tomar café, para os que o beberam mas não ficaram noite dentro e até para quem viu tudo:

Dois dos encontros mais aguardados das primeiras horas estavam marcados para o palco principal — a Rod Laver Arena — do torneio mas acabaram por não resultar no espetáculo que alguns anteviam.

Primeiro, Karolina Pliskova confirmou o estatuto de segunda cabeça de série ao afastar a sempre perigosa Kristina Mladenovic (que se superou em novembro para levar a França a mais um título na Fed Cup) por 6-1 e 7-5; depois, Donna Vekic — a 19.ª favorita — impôs-se de forma clara sobre Maria Sharapova, com 6-3 e 6-4.

Convidada pela organização para o quadro principal, a campeã de 2008 precisava urgentemente de uma boa campanha para “lançar a época” e começar a recuperar o terreno perdido nos últimos meses, mas caiu e com esta “queda” virá mais uma: ao perder os 180 pontos relativos aos oitavos de final alcançados em 2018, Sharapova cairá do atual 145.º posto em que figura para um lugar fora do top 350…

O cenário é de tal forma agreste que a icónica jogadora russa não se comprometeu a regressar. “Não sei se voltarei. Este ano tive a felicidade de receber um wild card mas em relação a 2021 ainda falta muito tempo e para mim é difícil fazer uma previsão, porque não sei como será a minha vida.”

Quem também chegou a estar muito perto da porta de saída foi Fabio Fognini. O carismático italiano não entrou nada bem no primeiro torneio do Grand Slam da temporada e teve de jogar no limite, mas lá conseguiu recuperar e bateu o “gigante” Reilly Opelka — que nas 3h38 de encontro somou 35 ases — por 3-6, 6-7(3), 6-4, 6-3 e 7-6(5).

Com este resultado, o 12.º cabeça de série completou o “Grand Slam de recuperações”, ou seja, já inverteu desvantagens de dois sets nos quatro maiores torneios do calendário.

Mas se a recuperação de Fognini deu que falar, o que está a fazer correr tinta um pouco por todo o mundo — que é como quem diz, nas redes sociais — é a mão ensanguentada que surgiu nas imagens de celebração e, pouco depois, na conferência de imprensa.

Como é que aconteceu? Fabio Fognini contou aos jornalistas que se lesionou no dia anterior a dar um murro na raquete em pleno encontro, momento que foi apanhado pelas câmaras do torneio:

Tal como ele, também Garbiñe Muguruza se viu em sérios apuros (teve de recuperar de um “pneu” para derrotar Shelby Rogers por caricatos 0-6, 6-1 e 6-0) e houve um outro espanhol a ser forçado a trabalhos extra.

Alejandro Davidovich Fokina, a grande surpresa do Millennium Estoril Open 2019, onde alcançou as primeiras meias-finais da carreira ao mais alto nível, viu-se envolvido numa autêntica batalha até superar o qualifier eslovaco Norbert Gombos por 4-6, 6-4, 2-6, 6-3 e 6-2.

Gaspar Ribeiro Lança
gasparlanca@raquetc.com | Dar palavras a um encontro de dois, três, quatro ou cinco sets, com ou sem tie-break. Dar palavras a histórias, a recordes. Dar ténis a todos aqueles que o queiram. E mais, sempre mais — por isso depois chegaram o padel, o ténis de mesa e o squash. E assim cá estamos, no Raquetc ("raquetecétera"). Como escreveu Pessoa, "primeiro estranha-se, depois entranha-se."