A digressão asiática, o Australian Open e a forma de Frederico Silva vistos por Pedro Felner

Nota da redação: Depois de duas passagens pelo continente asiático a acompanhar Frederico Silva, Pedro Felner reflete sobre o momento de forma do tenista caldense — que entretanto se tornou no 13.º português a quebrar a barreira do top 200 —, fala dos desafios que enfrentaram e do que aí vem. Um exclusivo Raquetc, a partir daqui na primeira pessoa:

Olá a todos! Esta foi a nossa segunda digressão pela Ásia em 2019, depois de no mês de setembro termos jogado aqui durante 3 semanas. Pelo meio, o Frederico ainda deu “um salto” a Minsk para integrar a equipa da Taça Davis.

Penso que a opção de jogar na Ásia tem sido uma aposta ganha. O Frederico somou muitos pontos e teve muitas vitórias sobre jogadores melhor rankeados, alguns deles top 100 ou perto disso. Mais importante, tem demonstrado um nível de ténis que lhe pode permitir aspirar a voos ainda mais altos. Está mais completo, mais agressivo e mais eficiente a jogar com as suas armas. Há também muitos aspectos que ainda podem ser potenciados — e ainda bem! Atualmente, um dos grandes desafios que temos pela frente é conseguir manter o seu nível de jogo ao longo dos encontros e de jogo para jogo. Ter boas vitórias é uma coisa, ganhar torneios é outra. É preciso ser consistente a jogar a este nível, quebrar algumas barreiras psicológicas, ganhar a confiança necessária e, às vezes, também ter alguma dose de sorte. Lá chegaremos!

Agora, o mais importante é poder competir. Para ganhar ranking é preciso ter nível. Para ter nível é preciso treinar e competir muito. É preciso jogar muitas semanas. É preciso ganhar, perder, jogar bem, jogar mal… Mas jogar.

Apesar de não ser fácil a integração na cultura chinesa, principalmente devido à barreira da língua (poucos chineses falam inglês) e à alimentação (a comida na China pouco tem a ver com a comida chinesa em Portugal…), alguns factores pesaram na nossa decisão. O primeiro tem a ver com a nossa opção de jogar em piso rápido até ao final da temporada, com a vantagem de que o piso dos courts rápidos na China se adequa bem às características de jogo do Frederico. Tem ainda a vantagem de que as condições de jogo (o clima, o piso e as bolas) mudam pouco de torneio para torneio. A acrescentar a isto, o facto dos torneios na China darem, normalmente, excelentes condições aos atletas: bem organizados, bons hotéis e excelentes clubes/complexos de ténis.

O Challenger de Kobe, que Frederico Silva não jogou mas que ilustra bem as condições existentes no continente asiático.

A maior dificuldade prende-se com o elevado nível dos torneios. A maioria dos jogadores vem da Austrália e dos países asiáticos (Japão, China, Coreia, Taiwan…) e os jogadores australianos são, normalmente, exímios servidores e especialistas nas superfícies mais rápidas e os asiáticos são os mais experientes nestas condições de jogo e muito competitivos neste piso — são muito rápidos e jogam de forma muito “plana” e agressiva.

Entretanto terminámos esta última digressão do ano por terras asiáticas. Saímos de Shenzhen com mais uma meia-final jogada e mais uns quantos bons jogos. O Frederico jogou limitado com uma inflamação num dedo que, apesar de não ser grave, acabou por o limitar e impedir de lutar pelo jogo. Apesar de tudo, o balanço destas semanas foi muito positivo. Regressamos da China com um ranking próximo da posição 175 ATP e tendo em conta que o Frederico pouco competiu no primeiro semestre do ano acaba por ser um excelente final de temporada.

Garantimos também a presença no Open da Austrália e ficámos em boa posição para jogar os restantes torneios do Grand Slam em 2020. O facto do Frederico ter muito poucos pontos a defender até junho do próximo ano permite-nos também “sonhar” com voos ainda mais altos em termos de classificação.

Por agora, e apesar de ainda termos programados mais 2 torneios até final do ano (os Challengers de Helsínquia, na Finlândia, e da Maia, em Portugal), a prioridade é começarmos a preparar os próximos desafios. Na pré-temporada faremos as duas primeiras semanas na Felner Academy, depois uma ou duas semanas em Espanha e no final regressaremos aos treinos na academia antes de viajarmos para os torneios de início do ano em Doha ou na Austrália.

Até breve,
Pedro Felner