Longe dos holofotes, João Menezes brilha em Lima e garante um lugar nos Jogos Olímpicos de 2020

Fotografia: José Tejada/Lima 2019

João Menezes nunca foi o tenista brasileiro mais promissor da nova geração. Nem o mais popular. E muito menos o mais apoiado. Mas a temporada de 2019 tem significado um verdadeiro virar de maré para o tenista natural de Uberaba, que chegou a anunciar que ia deixar o ténis e agora tem um lugar praticamente garantido nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 — a não ser que um verdadeiro desastre aconteça.

Atual 212.º classificado no ranking ATP, o número 2 do Brasil está a viver uma semana de sonho em Lima, no Perú, e este sábado derrotou o argentino Facundo Bagnis (156.º) por 4-6, 6-2 e 6-4 para se qualificar para a final de singulares dos Jogos Pan-Americanos.

Este resultado é suficiente para João Menezes assegurar uma vaga na competição olímpica do próximo ano desde que cumpra uma condição: tem de estar dentro do top 300 mundial na atualização do ranking que for publicada a 8 de junho de 2020 (logo a seguir a Roland Garros).

Uma tarefa que parece fácil, bastante tranquila até, tendo em conta os 95 pontos que já somou desde junho (e que se vão manter até essa atualização) e o que ainda pode somar ao longo dos próximos 10 meses.

Os Jogos Pan-Americanos reúnem alguns dos melhores jogadores americanos e têm a particularidade de oferecer duas vagas para os Jogos Olímpicos — os Jogos Asiáticos, por exemplo, apenas garantem a qualificação aos vencedores, razão pela qual Denis Istomin e Qiang Wang eram, até este fim de semana, os únicos tenistas apurados.

E nesta prova a campanha de João Menezes tem impressionado — e muito. Antes de derrotar Facundo Bagnis, um jogador que não só tem melhor classificação como é bem mais experiente (há poucos meses, por exemplo, veio a Portugal e terminou como vice-campeão dos Challenger de Braga e Lisboa), já tinha deixado pelo caminho o grande favorito à vitória no torneio, o chileno Nicolas Jarry — que é o 55.º do ranking ATP e este ano já foi finalista do ATP 250 de Genebra e campeão do torneio de Bastad, na Suécia.

Longe dos holofotes…

Na sombra dos compatriotas e amigos Orlando Luz e Marcelo Zormann, que brilharam nos grandes palcos enquanto juniores, João Menezes nunca conseguiu ser o número um do Brasil.

Nos primeiros anos foi apoiado pela Confederação Brasileira de Tênis (CBT), mas aos 20 anos tomou a difícil decisão de deixar a Academia ADK Tennis, em Itajaí, e atravessar o Atlântico para integrar a equipa de Galo Blanco, conhecido por trabalhar com Dominic Thiem mas também Milos Raonic.

“A partir do momento que eu saí, esse apoio foi cortado, mas também um pouco por minha culpa. Quando eu saí, eu dei a declaração para o treinador que eu iria deixar o tênis”, disse ao Break Point.

O tenista mineiro refere-se ao período que viveu no final de 2017, quando depois de três operações ao joelho esquerdo (uma em 2014, outra em 2015 e uma última em 2016) também sofreu uma lesão na coluna.

Valeu-lhe, na altura, um telefonema que o pai fez para Rafael Kuerten, irmão de Gustavo Kuerten, que o aconselhou a seguir o treinador de Bruno Soares até Espanha. Foi daí que surgiu a decisão — e foi da decisão que surgiram os resultados que o fizeram continuar. Em 2018, depois de três finais consecutivas em torneios ITF (das quais venceu duas), João Menezes confessou ao website Tênis Brasil que estava na altura do “ou vai ou racha” e por isso ia começar a disputar torneios Challenger “porque quem não arrisca não petisca.”

Desde a reviravolta que o fez continuar a jogar que os resultados têm sido cada vez melhores: insistiu, insistiu, insistiu, regressou ao Brasil no final de 2018, como número 398 do ranking, e voltou a trabalhar com Patrício Arnold em Itajaí.

Com muito trabalho, João Menezes voltou a entrar no top 300, conquistou o primeiro título da carreira em Challengers, em Samarcanda, no Uzbequistão (em maio) e depois de ser semifinalista em Gatineau e vice-campeão em Binghamton — campanhas que o ajudaram a garantir um lugar no qualifying do US Open — chegou ao melhor ranking da carreira, o 212.º lugar.

Mas não voltou a haver contacto com a Confederação Brasileira de Tênis. “Nunca mais falei com ninguém. Nunca mais tive informações. Nunca mais procurei e nunca mais eles me procuraram. Eu estou no meu canto e eles estão no deles. E eu não espero que venham a me procurar ou vice-versa. Também não vou procurá-los. Graças a Deus estou com condição de família boa no momento, que segue me sustentando.”

E finalmente o “paitrocínio” que sempre o sustentou começa finalmente a dar frutos. “Agora depende mais de mim do que de apoio, porque caso eu entre no top 200 as coisas começam a virar.”

E estão a virar. Tal como os holofotes, que o iluminam cada vez mais.

Este domingo, às 16 horas de Lima (22h de Portugal Continental), João Menezes defronta o chileno Tomás Barrios (286.º) na final dos Jogos Pan-Americanos. A qualificação para Tóquio 2020 está praticamente garantida, falta lutar pela medalha mais importante, a que todos querem ter no peito.

Gaspar Ribeiro Lança
gasparlanca@raquetc.com | Dar palavras a um encontro de dois, três, quatro ou cinco sets, com ou sem tie-break. Dar palavras a histórias, a recordes. Dar ténis a todos aqueles que o queiram. E mais, sempre mais — por isso depois chegaram o padel, o ténis de mesa e o squash. E assim cá estamos, no Raquetc ("raquetecétera"). Como escreveu Pessoa, "primeiro estranha-se, depois entranha-se."