Marketa Vondrousova, a adolescente de 19 anos que está na final de Roland Garros

Foi uma manhã louca aquela que se viveu em Paris. Se no Court Suzanne-Lenglen a especialista em pares, Ashleigh Barty, venceu uma meia-final imprópria para cardíacos para alcançar o melhor resultado da carreira na variante e singulares (onde se começa a afirmar entre as melhores do mundo), longe do palco que merecia, no recém inaugurado Court Simonne-Mathieu — a 10 minutos de distância dos campos principais —, Marketa Vondrousova também fez história.

Aos 19 anos, a jovem tenista checa — que é a jogadora com melhor registo de vitórias-derrotas (27-5) desde o Australian Open — exibiu-se “como gente crescida” para derrotar Johanna Konta por 7-5 e 7-6(2) num encontro em que a tenista britânica até serviu para fechar ambos os sets.

Devido ao mau tempo, a organização de Roland Garros optou por realizar as duas meias-finais femininas em simultâneo e, sobretudo, longe do court principal, uma decisão que levou a WTA a emitir um comunicado em forma de protesto — e muitos fãs a lamentarem o sucedido nas redes sociais.

Mas a mudança de planos não pareceu ter afetado Vondrousova, que longe dos olhares do grande público — o court esteve longe de ver preenchidas as 5.000 cadeiras disponíveis… — se exibiu como se de apenas mais um encontro se tratasse. É verdade que foi Konta quem entrou melhor, menos afetada pela importância da ocasião e a fazer jus ao favoritismo com que partia para o duelo, mas foi uma questão de (pouco) tempo até à jovem checa soltar o jogo e começar a oferecer-lhe resistência — sobretudo quando se viu em momentos de maior aperto.

No primeiro set, Marketa Vondrousova recuperou de uma desvantagem de 5-3 para dar a volta ao parcial e ganhar vantagem no encontro mais importante da carreira; no segundo, com contornos muito semelhantes, a jogadora natural de Sokolov voltou a mostrar nervos de aço e conseguiu, uma vez mais, anular o serviço da número um britânica para se manter em jogo, acabando por confirmar a vitória num tie-break de sentido único.

105 minutos foi o tempo necessário para que esta teenager (que no currículo conta um título WTA, em Biel 2017, e duas outras finais, ambas este ano) continuar a surpreender e inscrever o nome na final de um torneio do Grand Slam pela primeira vez, ela que até aqui só por uma vez (US Open 2018) tinha alcançado a quarta ronda.

A estatística mais impressionante da campanha de Marketa Vondrousova? Em seis encontros ainda não cedeu um único set: 6-4 e 6-3 frente a Yafan Wang, 6-4 e 6-0 sobre Anastasia Potapova, 6-4 e 6-4 contra Carla Suarez Navarro, 6-2 e 6-0 no duelo com Anastasija Sevastova, 7-6(1) e 7-5 perante Petra Martic e, agora, o triunfo por 7-5 e 7-6(2) nas meias-finais diante Johanna Konta.

A final de sábado entre Ashleigh Barty e Marketa Vondrousova será tudo menos uma decisão que todos apontaram como provável no início do torneio e por isso mesmo será tão entusiasmante quanto possível. Em jogo está um dos troféus mais importantes do calendário tenístico e a certeza de que conheceremos uma nova campeã de torneios do Grand Slam. Ora, assim sendo o encontro não poderia ser mais imperdível.

Gaspar Ribeiro Lança
gasparlanca@raquetc.com | Dar palavras a um encontro de dois, três, quatro ou cinco sets, com ou sem tie-break. Dar palavras a histórias, a recordes. Dar ténis a todos aqueles que o queiram. E mais, sempre mais — por isso depois chegaram o padel, o ténis de mesa e o squash. E assim cá estamos, no Raquetc ("raquetecétera"). Como escreveu Pessoa, "primeiro estranha-se, depois entranha-se."