O inesperado guerreiro Paire e os heróis improváveis Moutet e Mahut, ou como a França teve razões para festejar

PARIS, FrançaJo-Wilfried Tsonga, Richard Gasquet, Kristina Mladenovic (confirmar se escapa alguém). Os três maiores nomes do ténis francês a entrarem em ação na jornada desta quarta-feira caíram, mas num dia de enormes surpresas e, sobretudo, emoções, os franceses acabaram por ter várias razões para festejarem.

E o dia começou logo em altas — onde talvez menos se esperasse que isso acontecesse. No Court 7, o pequenino Court 7, longe da maioria dos olhares, o número 110 do mundo Corentin Moutet atreveu-se a navegar por mares nunca antes navegados e não só conseguiu fazer frente ao recordista de vitórias em terra batida este ano (21), Guido Pella, como vencer.

6-3, 6-1, 2-6 e 7-5 foram os parciais do triunfo sobre o número 23 do mundo, que só não foi mais expressivo porque ao 5-0 do quarto set o jovem de 20 anos acusou — e de que maneira — a pressão, acabando por ceder cinco jogos consecutivos (e, pelo meio, desperdiçar match points) antes de recuperar a concentração e a garra.

Nascido em Paris, Corentin Moutet está a viver a semana de sonho e tem agora, em Roland Garros, o equivalente a metade das vitórias que tinha somado até então em encontros ao mais alto nível, o que faz desta uma campanha para recordar para todo o sempre.

Mas enquanto no Court 7 algumas dezenas de franceses celebravam a surpreendente vitória do compatriota, no velhinho Court 1 — que vai ser demolido no final da edição deste ano — havia outro, mais experiente e credenciado, em apuros. Richard Gasquet, que no início de 2019 se submeteu a uma cirurgia na virilha, não conseguiu ter argumentos suficientes para fazer frente ao cada vez mais atrevido Juan Ignacio Londero. O argentino, que aos 25 anos é o número 78 do ranking e conquistou este ano o primeiro título ATP, na terra batida de Córdoba, aproveitou e atreveu-se a agarrar a oportunidade, vencendo pelos parciais de 6-2, 3-6, 6-3 e 6-4 para marcar encontro… Com Corentin Moutet.

Mas o grande herói do dia foi Mahut, Nicolas Mahut. Aos 37 anos, numa fase de muitas dificuldades e dúvidas que o levaram a ponderar abdicar do wild card, aquele que rejeita ser comparado a Brad Pitt no papel de Benjamin Button está a viver o sonho que sempre teve e já não acreditava ser possível realizar. “Quando era mais novo ligava a televisão e via sempre um tenista francês a jogar de uma forma impressionante e esse nunca foi o meu caso. Pensava sempre ‘Oh Meu Deus, em 20 anos nunca o consegui fazer’. E este ano está a acontecer. Estou muito feliz.”

Se na jornada anterior se tornou no primeiro vencedor de um encontro com contornos épicos no recém inaugurado Court Simonne-Mathieu, esta quarta-feira não precisou de tanto trabalho: esteve irrepreensível no duelo com Philipp Kohlschreiber e venceu em três sets, por 6-3, 6-3 e 6-3.

Para além da vitória, Nicolas Mahut — que voltou a festejar em court com o filho — também teve a sorte do seu lado: é que a falta de luz natural acabou por ditar a interrupção do encontro entre Leonardo Mayer e Diego Schwartzman, do qual sairá o seu próximo adversário. A partida será reatada na quinta-feira com o resultado de 4-6, 6-3, 6-4 e 3-3 favorável ao primeiro.

Os franceses voltaram a ter razões de lamento quando, no Court Philippe-Chatrier, Jo-Wilfried Tsonga perdeu uma antecipada batalha com Kei Nishikori em quatro sets (4-6, 6-4, 6-4 e 6-4) e logo depois, porque Kristina Mladenovic foi cilindrada (6-2 e 6-1) pela 31.ª cabeça de série, Petra Martic.

Até que os ponteiros do relógio avançaram, avançaram, avançaram e o momento da jornada chegou. Nada o fazia antever, porque Benoit Paire — que tem feito o melhor arranque da carreira (vem da conquista do segundo título ATP do ano, este em Lyon) — entrou com tudo e venceu os dois primeiros sets com relativa tranquilidade, mas Pierre-Hughes Herbert, que em janeiro completou o Grand Slam de pares ao lado de… Nicolas Mahut, reinventou-se e assim os dois viram-se envolvidos numa batalha recheada de drama, jogadas extraordinárias e completas de fazer levantar o estádio e que só terminou ao fim de, imagine-se, 4h33: 6-, 6-2, 5-7, 6-7(6) e 11-9, naquele que agora é o único torneio do Grand Slam a manter o “prolongamento” habitual, com diferença de dois jogos, na quinta e decisiva partida.

Revelou-se assim o inesperado guerreiro, que tantas vezes foi notícia pela demasiada apatia (e, por vezes, até rebeldia) e aparente desinteresse que foi revelando.

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