Ex-preparador físico de Federer recorda: “Ser cavalheiro não é da personalidade do Federer, foi tudo fabricado”

Ex-preparador físico de grandes tenistas do circuito masculino e feminino como Dinara Safina, Carlos Moya, Sergi Bruguera ou Roger Federer, Paul Dorochenko deu uma grande e muito interessante entrevista ao jornal boliviano La Razon sobre o tempo em que trabalhou com o suíço.

Entre muitos outros temas, numa entrevista que acabou por girar à volta do número um mundial, Dorochenko falou de como tudo começou com Federer, da sua personalidade, do porquê de ser um dos melhores e por fim das razões de nunca o vermos lesionado.

“Tudo começou quando o Bruguera me disse que não queria trabalhar mais comigo”, recorda. “O ténis é um mundo pequeno e na semana seguinte ligaram-me da Suíça: “Temos aqui um puto de 17 anos que se chama Federer e que não joga mal. Gostaria que viesses trabalhar o físico com ele”.

Já com vários anos de experiência antes do início dos trabalhos com o helvético, Dorochenko aceitou e sabia bem o que pretendia ao trabalhar com o tal jovem de 17 anos.

“Quando estive com o Federer comecei a trabalhar naquilo que se chama lateralidades e olho dominante. Percebi que o ténis não é uma técnica que vem dos pensamentos únicos e que tem de ser feito de uma certa forma. O ténis vem do teu corpo e cada corpo é diferente“, declarou, aprofundando de seguida o tema em questão.

O Federer, por exemplo, é destro e o olho dominante é o esquerdo. Por isso é que para o Federer a zona de contacto com a bola com a direita é muito mais adiantado e a sua pancada natural é a direita. Dá-se o nome de homogéneo quando és destro e o olho dominante é o direito e vice-versa. É o caso do Verdasco ou do Burguera. Na população geral costuma ser 70% homogéneo, mas no ténis são apenas 60%, pois ser ‘cruzado’ beneficia a direita. É também o caso do Nadal”, constatou.

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Paul Dorochenko trabalhou com Roger Federer dos 17 aos 20 anos.

No entanto, a convivência com Federer não era fácil, pois como se sabe, o Federer de 2018 nada tinha a ver com o de início de carreira. Esta mudança fez crer que o suíço, agora com 36 anos, é um atleta extremamente fabricado e que a razão para essa mudança se deveu a três fatores.

“Era um jovem muito complicado, com carácter, hiperativo e meio louco. Continua a ser em privado. Era uma boa pessoa, mas realmente muito complicado: partia raquetes, portava-se mal”, afirma.

“O cavalheirismo do Federer foi fabricado, não é a sua personalidade. O Federer mudou por três razões: por ter tido um psicólogo dos 18 aos 22 anos, por ter arranjado uma mulher que era uma pessoa ambiciosa e por causa da Nike que queria dele uma imagem de marca. O dinheiro da Nike ajudou-o a portar-se melhor”, admite, considerando no entanto que nunca foi uma má pessoa.

“Na vida privada é uma boa pessoa, mas não é a figura que tu vês dentro do court. Quando, por exemplo, perde com o Nadal e se despede do court com a mão no ar a sorrir, eu sei como é que ele está por dentro”, reitera.

Parceria terminou aos 20 anos por Dorochenko estar cansado do suíço e por ter recebido uma melhor proposta por parte de Bruguera.

Mas o que é que fez de Federer diferente dos outros? Dorochenko não tem dúvidas que foi a capacidade de trabalhar e aprender, aspetos que fizeram dele um dos melhores atletas de todos os tempos.

“A este nível todos têm algo especial, mas para mim o Federer foi um produto muito fabricado. Tinha muito boa técnica desde jovem. Com 17 anos já se via que este miúdo, sobretudo no serviço e na direita, tinha algo mais, mas aprendeu a esperar, a volear, a jogar mais de esquerda, a falhar menos, a comportar-se melhor. Isto ao cabo de uns anos faz de ti um Ronaldo, um Messi, um Federer“, considerou.

Falando do porquê de quase nunca vermos o suíço lesionado, Dorochenko não tem dúvidas que a excelente técnica e preparação física são cruciais, comparando-a com a de Nadal.

“É um jogador que tem uma técnica muito boa e é por isso que não se lesiona. Não dá para comparar a técnica do Nadal com a do Federer. O Federer é muito mais jogador, mas o Nadal tem mais mental, um físico brutal, é um atleta de alto nível. O Federer é bom, rápido, tem bom tempo de reação, mas não tem as qualidades físicas do Nadal”, comparou, finalizando com a principal razão que levou Federer a ser superior ao espanhol nos seus mais recentes encontros.

A única coisa que lhe faltava melhorar e que melhorou era a esquerda paralela. Tecnicamente o Federer tinha uma esquerda paralela que empurrava a bola, não pegava nela. Essa foi a pancada que acabou por ‘matar’ o Nadal. Se jogas cruzado, a bola vai ter à direita do Nadal, não fazes dano. Para fazer dano tens de cruzar e de seguida jogar a esquerda paralela”, declarou.

Francisco Semedo
Licenciado em Turismo e a tirar Mestrado em Ciências da Comunicação, desde cedo se interessou pelo ténis. Começou aos 9 e desde então tem um olhar atento e constante de tudo o que se passa naquela que considera ser a melhor modalidade a todos os níveis.