Opinião: Primeiro dia expôs as esperadas fragilidades da ATP Cup

Uma jornada bastou para se identificarem as principais (e esperadas) fragilidades da ATP Cup, a competição novinha em folha que surgiu como resposta da ATP às reformas feitas pela ITF à fase final da Taça Davis e que começou a ser jogada esta sexta-feira em três cidades — Brisbane, Perth e Sydney. A simples solução está rodeada de complexidades.

E é difícil resistir à mais óbvia das premissas como lançamento do texto: se num outro desporto qualquer já pouco ou nenhum sentido faria existirem duas espécies de “Campeonatos do Mundo”, o que dizer do ténis, que tem uma época tão extensa quanto a complexidade das suas regras e ainda por cima os coloca nas extremidades do calendário, separados apenas por seis míseras (e cada vez menos realistas) semanas de off-season?

Logo aí foi assinada a sentença de morte. Uma sentença de morte, no entanto, sem alvo apurado e que tem a particularidade de ser discutida quase em praça pública pela entidade que controla o circuito profissional masculino e a que mais dinheiro promete às Federações.

Ou Davis Cup Finals ou ATP Cup, uma delas acabará inevitavelmente por cair num calendário que anseia por descanso e entre tantos palpites e desejos faz ecoar, quase em uníssono, uma observação quase impossível de refutar: jogar um Campeonato do Mundo ao fim de mais de 10 meses de competição é descabido e ainda menos sentido faz começar a época seguinte numa condição semelhante.

A solução de que mais se fala e que parece mais simples? Unir as duas provas numa só e marcar a “festa” para o final do mês de setembro, depois do US Open e antes da partida para o continente asiático. Mas tem muito que se lhe diga: porque para isso seria preciso que ATP e ITF — tão distantes nos dias de hoje — chegassem a um consenso e ainda que Laver Cup cedesse o seu espaço no calendário. Este último ponto não passaria de uma mera formalidade (resolvida com um empurrãozinho nas costas) se entretanto o torneio de exibição — que quer ser mais do que isso — de Roger Federer & companhia não tivesse assinado um acordo com o circuito masculino, que o passou a promover (e até incluir no calendário) em 2019.

Datas à parte quais são, então, as maiores fragilidades da ATP Cup?

  • O significado

Por razões óbvias, a ATP Cup ainda procura o seu significado. E por muitos pontos (750 possíveis) ou dólares (total de 15 milhões) que se ofereçam o significado no desporto conta muito.

É, no fundo, uma situação muito semelhante àquela que se viveu na Liga das Nações da UEFA, no futebol, e que por acaso Portugal ganhou: todos a vimos e todos a celebrámos mas sem sabermos bem ao certo o que significou.

Só o futuro o dirá e essa corrida a Taça Davis ganha de olhos vendados, mesmo perdendo a mística envolvida nas eliminatórias em casa ou em terreno neutro. Porque tem como base 119 anos de uma história dourada que fazem daquela competição uma que todos querem ter no currículo.

Tudo isto se reflete nas bancadas com muitos assentos vazios (também foi assim nas Davis Cup Finals) e na falta de “ambiente de campeonato do mundo” a que se assistiu num primeiro dia dotado de muitas eliminatórias interessantes — os encontros cativaram e continuarão a cativar os presentes e houve espetáculo, claro que houve, mas não com um efeito consideravelmente diferente daquele que tinham os torneios de Brisbane, Sydney ou Perth (onde até se jogavam históricos encontros de pares mistos…).

  • O formato

Dos critérios de qualificação às regras e distribuição dos pontos, há muito poucas coisas claras numa modalidade que já tem dificuldades em cativar novos seguidores.

As equipas apuram-se tendo exclusivamente como base a classificação do melhor jogador de cada país, o que leva a que o que leva a que conjuntos como o da Moldávia — de Radu Albot, 46.º — vão a jogo mesmo se o segundo melhor jogador (Alexander Cozbinov) é o 818.º da tabela. Não é caso único, porque a Grécia de Stefanos Tsitsipas (6.º) chega ao torneio com Michail Pervolarakis (487.º) como segundo melhor jogador.

O resultado são vários alinhamentos pouco atrativos (os segundos melhores jogadores medem forças entre si no primeiro encontro, que em vários casos colocará frente a frente tenistas de realidades bem diferentes, seguidos do duelo entre a maior estrela de cada país) também possíveis na Taça Davis, claro, mas com menor frequência e sobretudo uma exclusão de muitos dos melhores jogadores da atualidade.

Porque se com este critério de qualificação a ATP Cup conseguiu reunir 19 dos 20 primeiros do ranking — só Roger Federer ficou de fora e por opção, depois de até se ter comprometido com o torneio —, há muitos outros a ficarem de fora: em novembro, Reilly Opelka alertou que “só os dois melhores jogadores de cada país é que participam, o que significa que eu, que sou o número três, vou falhar o torneio. É injusto e não dá oportunidades iguais a todos”.

E porque a ATP Cup será contabilizada como um torneio extra — resumindo de forma muito simplificada, numa temporada regular os jogadores só pontuam para o ranking em 19 eventos (os quatro Grand Slams, os 8 Masters 1000 obrigatórios, o Nitto ATP Finals e os seis melhores resultados entre os restantes torneios que jogue) — está a dar aos participantes uma grande vantagem.

Por falar em pontos, a recém-nascida ATP Cup traz consigo uma novidade que promete baralhar ainda mais a vida de todos os seguidores do torneio. Porque ao contrário do que acontece nas restantes semanas do circuito não há uma relação simples entre ronda e pontuação obtida. Aqui, os pontos ganhos diferem consoante a ronda em que a vitória é consumada mas também consoante a classificação do jogador e do próprio adversário, de forma a evitar saltos demasiado grandes no ranking.

Confuso? É natural…

Em suma, os 750 pontos anunciados pela ATP só podem ser conquistados por um jogador do top 300 mundial que ganhe todos os seus encontros de singulares (três na fase de grupos, um nos quartos de final, um nas meias-finais e um na final) e o faça quase sempre contra um membro do top 10 mundial.

Se ainda tiver dúvidas não se preocupe, continua a ser natural…

Na fase de grupos, um jogador classificado fora do top 300 mundial ganha 25 pontos por cada triunfo. Por sua vez, um jogador que esteja dentro do top 300 mundial ganha 20 se derrotar um tenista fora dos 100 primeiros, 25 se superar um jogador entre as posições 51-100, 50 pontos se o fizer frente a um tenista entre 26-50, 65 pontos se for contra um entre 11.º-25.º ou 75.º se o conseguir perante um membro do top 10.

E há condicionantes destas para cada uma das etapas do torneio.

Na prática, na fase de grupos Rafael Nadal (o líder do ranking mundial) pode ganhar um total de 125 pontos: 50 se derrotar Nikoloz Basilashvili (26.º), 50 se superar Pablo Cuevas (45.º) e 25 se passar por Yoshihito Nishioka. E daí para a frente o maiorquino só poderá ganhar outros 550 (ainda assim insuficientes para alcançar os referidos 750) caso derrotasse jogadores do top 10 mundial quer nos quartos de final, quer nas meias-finais, quer na final. Caso contrário “perderá” pontos por cada adversário menos cotado que vier a enfrentar.

As contas de Novak Djokovic são ligeiramente diferentes: o número 2 do mundo ganhará 150 pontos se terminar a primeira fase da competição invicto — 75 pontos se derrotar Gael Monfils (10.º), 50 se superar Cristian Garin (33.º) e 25 caso passe por Kevin Anderson (91.º).

Quanto aos jogadores que não ocupam um lugar no top 300 mundial, terão de se contentar com 25 pontos por triunfo — mesmo que aconteça frente a um dos dois primeiros classificados da hierarquia. A medida pode parecer peculiar e mesmo assim ser difícil de compreender, mas foi instaurada com o objetivo de precaver saltos demasiado grandes na tabela (75 pontos entre as posições mais cimeiras causam poucos “danos” no ranking mas entre os jogadores menos experientes dariam aso a oscilações abruptas).

O texto já vai longo e não é caso único — tal como este artigo de opinião, também a primeira jornada se prolongou em demasia. Seis semanas depois de tanto se ter debatido a urgência de evitar finais madrugadores durante as Davis Cup Finals (chegou a jogar-se até às 4h04 da manhã) o primeiro dia da ATP Cup começou às 10h de Sydney e só terminou às 2h47 do dia seguinte…

Na devida altura também me pronunciei sobre os “novos e inevitáveis problemas” que surgiram como as novas Davis Cup Finals e que são redobrados pela ATP Cup. Numa altura em que o ténis precisa de um rumo bem definido, tanto um quanto outro torneio criaram mais desafios do que soluções.

Gaspar Ribeiro Lança
gasparlanca@raquetc.com | Dar palavras a um encontro de dois, três, quatro ou cinco sets, com ou sem tie-break. Dar palavras a histórias, a recordes. Dar ténis a todos aqueles que o queiram. E mais, sempre mais — por isso depois chegaram o padel, o ténis de mesa e o squash. E assim cá estamos, no Raquetc ("raquetecétera"). Como escreveu Pessoa, "primeiro estranha-se, depois entranha-se."