Rodrigo Carvalho, o piloto que quase “voou” para o quadro principal do Campeonato Nacional

Fotografia: André Ferreira/Federação Portuguesa de Ténis

Dedicou muitos anos ao ténis com o objetivo de se tornar profissional. Mas depois chegou a hora de ingressar na faculdade e a vida deu uma grande volta — mas sem sair de uma órbita que sempre lhe esteve no sangue. Agora, Rodrigo Carvalho é piloto de voos comerciais de longo curso mas continua a ter uma enorme paixão pelo mundo das raquetes, paixão essa o fez participar no Campeonato Nacional Absoluto 10 anos depois, mesmo vindo do outro lado do mundo.

Por Gaspar Ribeiro Lança, no Funchal

Talvez a melhor forma de enquadrar a participação do lisboeta na prova rainha do calendário nacional seja recuar alguns dias.

Às 13h30 quarta-feira, dia 11, Rodrigo Carvalho aterrou um avião da TAP no Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, depois de um voo de 13 horas vindo de São Francisco, nos EUA, onde a diferença horária em relação a Portugal Continental é de oito horas.

Mas nem isso o fez perder tempo e “às 15 horas já estava no Clube de Ténis do Estoril a treinar para vir aqui. Treinei na quarta, na quinta e na sexta-feira e à última hora decidi que ia mesmo viajar, porque nem me tinha inscrito no torneio e por isso vim cá assinar para jogar o qualifying“, contou ao Raquetc.

A chave para conciliar uma profissão tão exigente com tempo para pisar o court? “Muita paixão pelas raquetes” e força de vontade — as mesmas que aos 17 anos o fizeram recuperar de uma hérnia discal, voltar 18 meses depois e conseguir “os melhores resultados que acabei por ter enquanto miúdo.”

Nos tempos de júnior, Rodrigo Carvalho integrou as seleções nacionais (já o tinha feito no escalão de sub 16) e conseguiu ser vice-campeão nacional de singulares, chegar à final de singulares do torneio internacional de Vila do Conde e ganhar a competição de pares na Foz (ao lado de Francisco Dias), entre outros resultados que o fizeram sonhar com uma carreira de profissional.

Só que ao ténis juntou-se a faculdade e a vida levou-o a mudar de rumo, primeiro com a candidatura ao curso de Engenharia Mecânica no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, e depois com o curso de aviação que se transformou na profissão — sem surpresas, ou não viesse ele de uma família de aviadores.

Ser piloto permite-lhe “ter mais tempo livre e voltar a treinar e a competir um bocadinho, mas não muito porque a maioria dos torneios são ao fim de semana”. A base é o Clube de Ténis do Estoril — com o qual tem “um compromisso” pelo apoio e condições que lhe são dados —, quando está fora procura recorrer aos ginásios dos hotéis ou a corridas na cidade para se manter em forma e o objetivo principal a competição por equipas: “É sempre o meu objetivo anual. Formámos uma boa equipa na terceira divisão, subimos para a segunda e este ano já estamos na primeira, portanto esta é uma espécie de ‘kick-off’, de pré-época para esse grande objetivo que temos.”

E a verdade é que, mesmo com o tempo limitado e outras prioridades definidas, foi por pouco que Rodrigo Carvalho não “voou” até ao quadro principal de singulares do Campeonato Nacional Absoluto: No encontro de estreia não cedeu qualquer jogo frente a André Dias (6-0 e 6-0) e na ronda de acesso ofereceu muita luta ao quarto cabeça de série, João Graça, que só conseguiu vencer em dois tie-breaks (7-6[3] e 7-6[2]) ao fim de 2h20.

“Sabia que dentro das possibilidades do qualifying este seria um dos dois adversários mais difíceis que me podiam calhar, a par do Miguel Gomes“, desabafou. “No ano passado tinha ganho ao João na segunda divisão de interclubes, um encontro completamente diferente, em terra batida e com vento. Eu estava mais treinado na altura e ele era um ano mais novo, enquanto agora tem mais rodagem e os Futures em cima, por isso são encontros completamente diferentes. Também tinha jogado com o Miguel e foi um jogo duro, sabia que eles este ano se tinham defrontado e ganhou o João e portanto era quase rezar para ficarmos os três separados. Ditou a sorte ou o azar que eu e o João jogássemos um contra o outro e foi um encontro duro.”

“Entrei mal depois de um verão com pouco treino, em que quase não peguei na raquete porque já tenho a minha família e outras responsabilidades, o trabalho e as férias. O João está mais rodado do que eu e entrou melhor, ainda consegui ter dois set points no serviço dele mas não os aproveitei e a partir daí o jogo mudou. Ele fez o que lhe competia e foi claramente mais forte quando chegámos ao tie-break. Conseguiu ter mais iniciativa, jogar melhor e no segundo, já com muito calor e algum cansaço, as bolas muito desgastadas e sendo mais difícil de as controlar, o jogo foi muito dominado pelos serviços. Não houve break points e ele voltou a assumir e entrar melhor no tie-break é fundamental, portanto não tremendo acabou por ganhar.”

A variante de pares não é uma opção porque a vida profissional chama — na quinta-feira tem voo para São Paulo, no Brasil — mas Rodrigo Carvalho deixou a sua marca nesta edição do Campeonato Nacional Absoluto.

Gaspar Ribeiro Lança
gasparlanca@raquetc.com | Dar palavras a um encontro de dois, três, quatro ou cinco sets, com ou sem tie-break. Dar palavras a histórias, a recordes. Dar ténis a todos aqueles que o queiram. E mais, sempre mais — por isso depois chegaram o padel, o ténis de mesa e o squash. E assim cá estamos, no Raquetc ("raquetecétera"). Como escreveu Pessoa, "primeiro estranha-se, depois entranha-se."