Esplendor na Relva | “Federer vs. Nadal e Borg vs. McEnroe”, por Miguel Seabra (em Wimbledon)

A quarta reunião de Roger Federer e Rafael Nadal no Centre Court foi ‘apenas’ uma meia-final… mas, tendo em conta os 20 títulos do Grand Slam de Federer e os 18 de Nadal, houve algo mais em jogo no subconsciente de ambos: o recorde absoluto em ‘Majors’. O suíço soube transcender-se na primeira vez que se defrontaram desde a mítica final de 2008 – a tal que se juntou à de 1980 entre Bjorn Borg e John McEnroe como as duas melhores finais de todos os tempos. Espera-se que a final de domingo com Novak Djokovic também seja memorável.

Por Miguel Seabra, em Wimbledon

Foram duas meias-finais resolvidas em quatro sets, mas de peso completamente diferente. Novak Djokovic depressa assumiu o controlo após a cedência da segunda partida diante de Roberto Bautista-Agut (6-2, 4-6, 6-3, 6-2) e a sua qualificação nunca pareceu em causa. Já no 40º duelo entre Roger Federer e Rafael Nadal houve muitas mais nuances que vale a pena recordar – porque foi um embate em quatro partidas (7-6, 1-6, 6-3, 6-4) que deixou o sabor de um bom duelo em cinco sets, apesar de apenas o primeiro parcial ter sido resolvido no tie-break.

Fotografia: AELTC/Thomas Lovelock

E esse primeiro set foi fundamental para o helvético de 37 anos e 338 dias. Recuperou da desvantagem de um mini-break para alinhar cinco pontos consecutivos graças à melhoria da sua esquerda e às suas combinações atacantes. Depois, na segunda partida, aconteceu o que tantas vezes lhe tem acontecido na terceira (ou quarta?) fase da sua carreira e sobretudo quase sempre face ao rival espanhol: não aproveitou breakpoints e sofreu o break de seguida, deixando depois correr desfavoravelmente o marcador. Conseguiu fazer o reset no início do terceiro set e, sobretudo, melhorar tremendamente a sua pancada de esquerda – e isso pareceu afetar Nadal, fazendo recordar aquela cavalgada decisiva na final do Open da Austrália que jogaram em 2017. Os últimos vinte minutos foram dramáticos, com Roger a desperdiçar a possibilidade de chegar ao match point pedindo extemporaneamente um challenge num serviço que foi bom quando a sua resposta na linha lhe daria a conquista do ponto (!!!); depois Rafa bateu-se que nem uma fera acossada e salvou quatro match-points (alguns de maneira espetacular) até sucumbir.

Com tantos campeões e tanta gente conhecida a emitir pareceres sobre mais um tremendo embate entre ambos, vou deixar aqui a opinião de alguém que raramente aparece e que se tornou um amigo ao longo dos últimos tempos, depois de há uma dúzia de anos me ter contactado para usar um artigo que na altura fiz sobre o troféu de Wimbledon para o site tennis.com; esse alguém é o neozelandês Chris Lewis, finalista derrotado por um super John McEnroe na final de 1983 e que este ano veio ao All England Club para uma reunião do Last 8 Club.

“Toda a gente tinha elevadas expectativas e a qualidade do encontro foi soberba. Começou com um set em que ambos dominaram no serviço e as jogadas foram muito curtas. O Roger jogou um grande tie-break e ainda teve hipóteses no início do segundo set. Ele é sempre cheio de surpresas e o modo como conseguiu alterar a estratégia e, a partir do terceiro set, dar a volta a um encontro diante de um competidor implacável como o Nadal, contra quem jogar um ponto é como ir para a guerra, foi genial. O seu quociente de inteligência tenístico é fora de série e não só é um génio do ténis como ainda tem a capacidade física e técnica para concretizar essa genialidade. É um jogador completo. Nada do que ele faz me surpreende”,  disse-me o Chris Lewis. “Já na primeira final, o Djokovic teve alguns momentos de crise mas no fundo acho que ele tinha a consciência de que ia ganhar e controlou o encontro sabendo que ainda tem uma final para jogar. Fez o que tinha a fazer sem atingir o nível que pode atingir – e acho que vamos ter um Novak completamente na final. Vai ser fascinante”.

De facto, aquela fase terminal do quarto set foi de alta voltagem e deixou a esmagadora maioria dos espetadores do Centre Court à beira de um ataque de nervos. Houve momentos de tensão extrema que fizeram recordar outros embates entre os dois extra-terrestres (o que não daria Sir Alex Ferguson, no camarote real, para ter o Leo Messi e o Cristiano Ronaldo do ténis na sua equipa?!?), nomeadamente o anterior compromisso entre ambos de há 11 anos no Centre Court.

AS FINAIS MAIS ÉPICAS

Há duas cimeiras em torneios do Grand Slam que são apontadas como as mais relevantes finais na história do ténis – e ambas aconteceram em Wimbledon. Na segunda, em 2008 e sentado na bancada de imprensa do vetusto Centre Court, senti algo que nunca antes sentira nem voltei a sentir em qualquer outra circunstância (embora ontem, por exemplo, tivesse havido momentos muito apertados): o meu coração ‘parou’ no momento mais dramático do tie-break do quarto set, quando Rafael Nadal dispôs do segundo match-point e Roger Federer o salvou para remeter a decisão da final para a quinta partida; a rivalidade entre ambos estava no apogeu e a tensão era brutal…

Nesse momento de sufoco literal pensei na outra final, naquela que foi considerada a mãe de todas as finais de torneios do Grand Slam e que constitui o paradigma da mais perfeita rivalidade na história do ténis: a de Bjorn Borg e John McEnroe, em 1980. E achei que, contra a maré do confronto, Nadal iria mesmo ganhar no quinto set, porque também Borg não havia concretizado match points num titânico tie-break do quarto set para depois esconjurar a inerente frustração e impor-se numa longa partida decisiva. Foi o que acabou por acontecer. Tanto em 1980 como em 2008 prevaleceu a consistência sobre o repentismo, com algumas grandes diferenças: em 1980, Borg era o mais calmo dos dois e ganhou o seu quinto título consecutivo face ao outsider; em 2008, Nadal era o mais temperamental dos dois e impediu um sexto título consecutivo do seu rival, que era o favorito à partida para o embate.

E ao visionar pela primeira vez o filme Borg vs McEnroe de 2017 não pude deixar de pensar a certa altura: daqui a 20 anos estaremos a ver uma película semelhante sobre a rivalidade entre Roger Federer e Rafael Nadal – centrada nessa respetiva final de 2008 que jogaram em Wimbledon, que passa por ser a mais emblemática contenda de todos os duelos protagonizados por ambos (e já tinham jogado nas decisões de Wimbledon em 2006 e 2007). Essas duas finais de 1980 e 2008 estão no topo dos melhores embates de ténis de sempre devido à ocasião, ao local, ao pedigree, às personalidades distintas, ao contraste de estilos e ao impacto global gerado pela rivalidade entre os intervenientes.

Nesta sexta-feira, Roger Federer e Rafael Nadal voltaram a defrontar-se pela primeira vez em Wimbledon desde a cimeira de 2008, a última das três finais consecutivas que jogaram no Centre Court (o suíço ganhou a primeira em três sets e a segunda em cinco partidas). A quarta reunião de ambos no Centre Court foi ‘apenas’ uma meia-final… mas, tendo em conta os 20 títulos do Grand Slam de Federer e os 18 de Nadal, houve algo mais em jogo no subconsciente de ambos: o recorde absoluto de títulos do Grand Slam. Para já, a vitória do suíço permitiu-lhe manter os dois títulos de distância e dar-lhe a oportunidade de recuperar o fosso de três. O 40º episódio da rivalidade acabou por corresponder às enormes expectativas, embora – e por mais incrível que seja – não pairasse por aqui no centro de imprensa o mesmo sentido de antecipação que se havia verificado antes do duelo da segunda ronda entre Rafael Nadal e Nick Kyrgios. Mas sobre isso falarei em breve…

Miguel Seabra
Miguel Seabra é jornalista de ténis desde 1990 e comentador de ténis no Eurosport desde 2003. Foi editor das publicações Ténis Europeu, Jornal do Ténis e ProTénis. Foi campeão nacional universitário de ténis, treinador e árbitro internacional. É igualmente jornalista especializado em relojoaria mecânica, sendo editor da revista Espiral do Tempo. Assegura que não há nada melhor do que ter as suas paixões por profissão.