Esplendor na Relva | “Come o ‘bife’!”. E João Sousa ouviu, por Miguel Seabra (em Wimbledon)

Num dos seus mais famosos êxitos, Elton John cantava “Saturday Night Is Alright for Fighting” — e foi já com luz artificial que João Sousa assinou o mais famoso momento na história do ténis português…

 Miguel Seabra, em Wimbledon

Não foi a primeira vez que um português se qualificou para os oitavos-de-final de um torneio do Grand Slam. O próprio João Sousa já tinha conseguido essa distinção (mais um recorde estabelecido por ele…) no último Open dos Estados Unidos. Mais foi a primeira vez que tal aconteceu no mais famoso evento tenístico do planeta e com contornos épicos: num longo duelo em cinco partidas, numa espetacular ponta final do set decisivo, já sob o tecto fechado de um Court 1 completamente cheio e em prime-time na BBC 1. Foi um momento inolvidável – para mim, para um punhado de portugueses presentes, para toda a gente no estádio e sobretudo para João Sousa e a sua equipa.

Da minha parte, tinha um casamento marcado na Escócia ao qual pensei poder ir por achar que as probabilidades de qualquer tenista português jogar no primeiro sábado do torneio seriam reduzidas. Ainda bem que fiquei. Para o punhado de portugueses que viu comigo o encontro, tinham bilhete comprado para um concerto dos The Who que começava às 20h em Hyde Park. Ainda bem que ficaram. Tanto para mim, como para eles e, no fundo, para todos os que encheram o Court 1 e mesmo aqueles que viram pela televisão, valeu a pena ter ficado até ao fim. Foi mesmo um momento “inesquecível”, como o definiu João Sousa à BBC logo à saída do Court 1, já bem depois das 21h.

Apesar de os meus vizinhos de bancada estarem justificadamente a lastimar o impedimento de ver os lendários The Who enquanto vibravam com o duelo luso-britânico, a banda sonora era outra. Elton John costumava cantar “Saturday Night Is Alright for Fighting” e foi esse tema de 1973 que ecoou persistentemente na minha cabeça ao longo da animada refrega – sobretudo a partir do momento em que passou da tarde para a noite, requerendo o fecho do novo tecto amovível do Court 1 e a abertura da iluminação artificial. Foi um encontro duro tanto física como psicologicamente, muito tático, com múltiplas alterações de ascendente, breaks e contra-breaks, oportunidades desperdiçadas e sobretudo eletrizante. E nem teve propriamente um ambiente de Taça Davis porque a maior parte dos espetadores, naturalmente britânicos, estavam a apoiar Danny Evans sem desrespeitar João Sousa (com uma ou outra excepção) e sobretudo a apreciar um grande encontro de ténis.

PACIÊNCIA E OPORTUNIDADE

Dan Evans começou muito bem. O antigo ‘Enfant Terrible’ do ténis britânico posteriormente excomungado e reabilitado até acusar consumo de cocaína num controlo anti-doping que o atirou para fora do circuito durante um ano entre 2017 e 2018 arrancou da melhor maneira, respondendo com agressividade e a conseguir um break logo no jogo inaugural. Entrando no court, acelerando com a direita, desacelerando com a esquerda, puxando João Sousa para a rede sem ser nos seus termos com bolas cruzadas curtas e baixas para depois meter o passing-shot, o inglês chegou mesmo a ter a oportunidade de cimentar a sua liderança com outro break na primeira partida. Mas o vimaranense foi assentando o seu jogo, mostrando mais paciência perante o slice baixo/lento do adversário e começando a afinar as suas combinações de direita inside-out e inside-in.

Mesmo assim, a clássica ciência de jogo de Dan Evans, assente numa grande variação de ritmo com exploração de diferente profundidade e altura de bola, voltou a dar-lhe primazia no arranque da segunda partida através de um novo break de avanço. Exibia-se de modo convincente e estava a ser o melhor jogador em campo. No entanto, nunca se pode descurar a competitividade nata de João Sousa e o número um português voltou a demonstrar a sua garra ao conseguir o primeiro break do encontro quando perdia por 6-4 e 4-2. O britânico estava a ser tão dominante que acusou essa quebra de serviço e subitamente viu o opositor puxar o ascendente para o lado luso e virar completamente o perfil psicológico do confronto, graças a uma cavalgada de quatro jogos consecutivos que lhe deu a conquista do segundo set.

Na terceira partida, e pela terceira vez, Dan Evans voltou a adiantar-se com um break precoce – mas já o jogo estava diferente e se sentia que João Sousa podia recuperar no marcador de um momento para o outro. Foi o que fez. A certa altura, um dos meus vizinhos portugueses grita “João, come o bife!”. Os ‘bifes’ não perceberam. Mas o João ouviu, olhou na nossa direção e riu-se. Voltou a fazer um break na ponta final do set para passar a liderar o encontro. E chegou-se perto de uma vitória em quatro partidas, mas perdeu mal um jogo de serviço que atirou a contenda para o set decisivo.

EMOÇÃO EM PRIME-TIME

Aí já o Court 1 estava completamente a abarrotar, com espetadores oriundos de outros courts e a conclusão do mediático encontro de pares mistos no Centre Court (protagonizado por Andy Murray e Serena Williams) a dar primazia televisiva mundial ao duelo luso-britânico. Devido ao adiantado da hora e à escassez de luz natural, os jogadores foram avisados de que o tecto seria fechado para se abrirem os holofotes. O ambiente ficou ainda mais eletrizante, com o Court 1 transformado numa autêntica caixa de ressonância e os espetadores a apreciarem vivamente a oposição de estilos dos dois contendores – na esmagadora maioria dos casos com muito fair-play e sempre aplaudindo as boas jogadas do português.

Dan Evans voltou a conseguir um break madrugador, mas João Sousa recuperou prontamente. Sentia-se que fisicamente o português poderia ter vantagem na fase terminal de uma intensa maratona que se aproximava das quatro horas de jogo. E o set decisivo foi avançando até ao momento em que o inglês serviu a 4-5 para não perder o encontro. Começou bem e ganhou um ponto espetacular depois de executar pela primeira vez no encontro (pelo menos pareceu!) duas esquerdas batidas. Mas esbanjou a vantagem de 30/0 e, a 30/30, o vimaranense conseguiu um monstruoso passing-shot paralelo de esquerda a duas mãos na passada, bem atrás da linha de fundo.

Foi a maneira perfeita de chegar ao match-point. Do outro lado do court, na box de João Sousa, o seu treinador Frederico Marques exultava. Depois de ver o seu pupilo ser puxado tantas vezes para a rede para levar passing-shots paralelos do inglês, tinha vaticinado que um passing-shot paralelo do vimaranense seria decisivo. E foi. Um dos melhores passing-shots de esquerda da carreira do melhor português de todos os tempos, senão mesmo o melhor atendendo ao momento e à circunstância. Com a pressão do marcador em cima e na sequência de mais uma animada troca de bolas, Danny Evans lidou mal com uma bola alta, curta, aparentemente fácil. Tentou um amortie de esquerda que ficou na rede. Game, set and match; 4-6, 6-4, 7-5, 4-6, 6-4 em 3h56m (descontando a interrupção do fecho do tecto). O estádio exultou com tão dramática e espetacular conclusão. Fez-se história para o ténis nacional, devidamente assinalada nos comentários televisivos por esse mundo fora.

O português confessou-se “orgulhoso”. O inglês disse que “foi uma experiência extraordinária; derrota à parte, adorei todos os minutos. O João jogou muito bem, foi uma grande batalha e um privilégio jogar sob o tecto do Court 1. Não estou triste, apenas desapontado; quando precisei mesmo do meu serviço ele não estava lá”.

Amanhã, diante de Rafael Nadal, João Sousa vai precisar do seu serviço, da sua direita, da sua esquerda, de tudo. E sobretudo vai precisar de se transcender se quiser lutar de igual para igual ou mesmo vencer um dos melhores tenistas de todos os tempos. Mas, qualquer que seja o resultado, já se fez história.

Miguel Seabra
Miguel Seabra é jornalista de ténis desde 1990 e comentador de ténis no Eurosport desde 2003. Foi editor das publicações Ténis Europeu, Jornal do Ténis e ProTénis. Foi campeão nacional universitário de ténis, treinador e árbitro internacional. É igualmente jornalista especializado em relojoaria mecânica, sendo editor da revista Espiral do Tempo. Assegura que não há nada melhor do que ter as suas paixões por profissão.