Federer foge ao passado, bate Wawrinka e regressa às meias-finais de Roland Garros sete anos depois

A dada altura chegou a considerar-se provável que Roger Federer nunca mais disputasse um encontro na terra batida de Roland Garros.

Mas este ano o tenista suíço surpreendeu e, já com 37 anos, decidiu-se pelo regresso a Paris. Sem expetativas (ou pelo menos assim o parecia abordar…), logicamente sem favoritismo e, por isso, sem pressão, começou a desenhar uma caminhada interessante no pó de tijolo da capital francesa, adicionando-lhe um novo capítulo esta terça-feira.

Quatro anos depois de ter perdido para Stan Wawrinka no último duelo que tinha realizado no evento, no mesmo Court Suzanne-Lenglen, Roger Federer venceu o “Suisse Open” — a manchete escolhida pelo L’Équipe para a capa desta terça-feira — por 7-6(4), 4-6, 7-6(5) e 6-4 para chegar às meias-finais, uma fase que não atingia desde o longínquo ano de 2012.

Depois de quatro vitórias muito convincentes sobre Lorenzo Sonego, Oscar Otte, Casper Ruud e Leonardo Mayer, duelos em que não cedeu um único set, o número três do mundo (campeão do torneio há 10 anos, em 2009) tinha no compatriota (vencedor em 2015) o primeiro grande desafio e esteve à altura da ocasião.

À imagem das rondas anteriores, Federer entrou extremamente consistente na pancada de serviço — cedeu apenas cinco pontos no primeiro parcial — e mentalmente muito forte, não se deixando abalar pelos quatro pontos de break desperdiçados para se adiantar com um tie-break irrepreensível.

Forçado a passar mais de cinco horas em campo na eliminatória anterior — em que venceu o encontro do torneio frente a Stefanos Tsitsipas —, Wawrinka geriu o cansaço e conseguiu manter-se no encontro. O mais novo dos dois suíços voltou a ser o primeiro a enfrentar pontos de break no segundo set, mas conseguiu salvá-los e no jogo seguinte, de 40-15 abaixo, aproveitou uma quebra de concentração do adversário, que deixou de ser tão eficaz com a pancada de esquerda e procurou encurtar os pontos, acabando por conseguir, com essa quebra de serviço, a vantagem necessária para igualar o marcador.

O terceiro parcial viu Stanislas Wawrinka entrar melhor. O campeão de 2016 adiantou-se ao sétimo jogo e pareceu colocar-se numa posição confortável para construir a reviravolta, mas Federer reagiu a tempo, recuperou o terreno perdido e, uma vez mais no tie-break, passou novamente para a frente.

Cada vez mais perto do objetivo final, o jogador de 37 anos forçou uma interrupção ao 3-3 do quarto parcial, quando o supervisor foi chamado ao campo, e no retomar do encontro voltou mais forte: depois de dois jogos de serviço para os respetivos servidores, aproveitou uma janela de oportunidade no saque de Wawrinka para fazer a “ferida” que lhe daria a vitória, mesmo se antes ainda teve, também ele, de anular um break point.

Da prestação de Roger Federer destacam-se as 51 investidas à rede, sendo bem sucedido em 34, e os 46 winners apontados (Wawrinka apontou mais, 52, mas também mais erros não forçados: 57-42). Pela negativa, a fraquíssima conversão de pontos de break que tanto lhe complicou a tarefa: 2/18.

Oito anos depois, o tão desejado reencontro

Maior do que o jejum de meias-finais para Roger Federer em Paris, só o de encontros com Rafael Nadal, que no outro duelo masculino do dia destruiu o pouco que restava de um Kei Nishikori exausto. Pois bem, esse jejum vai conhecer um fim na sext-feira, quando o suíço e o espanhol voltarem a estar frente a frente na terra prometida oito anos depois.

Será o sexto duelo da história entre Federer e Nadal em Roland Garros e tal como o primeiro, disputado em 2005, também acontecerá nas meias-finais. Os restantes (2006, 2007, 2008 e 2011) foram no encontro de atribuição do título e o resultado final, bem se sabe, sempre o mesmo: a vitória do maiorquino, que conquistou contra o suíço quatro dos seus 11 títulos na prova.

No que à terra batida diz respeito, será a primeira vez em seis anos que os dois jogadores cruzarão caminhos. Esse último duelo aconteceu na final do Masters 1000 de Roma (um dos dois que o suíço nunca venceu) e foi Nadal quem ficou com a vitória.

Desde aí seguiram-se oito encontros em piso rápido e Roger Federer venceu os últimos cinco — algo que nunca tinha acontecido no frente a frente entre ambos. Para a estatística não entra, naturalmente, a desistência de Rafael Nadal antes das meias-finais do Masters 1000 de Indian Wells, este ano — um duelo que, a acontecer, teria sido o primeiro entre ambos desde outubro de 2017.

Última atualização às 18h06.

Gaspar Ribeiro Lança
gasparlanca@raquetc.com | Dar palavras a um encontro de dois, três, quatro ou cinco sets, com ou sem tie-break. Dar palavras a recordes, a histórias. Dar ténis a todos aqueles que o queiram. E mais, sempre mais. Por isso depois chegaram o padel e o squash. E assim cá estamos, no RAQUETC ("raquetecétera"). Como escreveu Fernando Pessoa nos anos 20, "primeiro estranha-se, depois entranha-se."