Naomi Osaka também é feita de carne e osso

PARIS, França — Depois de ganhar em Nova Iorque e Melbourne, Naomi Osaka esteve perto, muito perto, de cair na primeira ronda em Paris.

O encontro de estreia em Roland Garros relembrou-nos que a japonesa é feita de carne e osso — e também os motivos que fazem dela a número um do mundo.

20 minutos bastaram para o pânico se instaurar no Court Philippe-Chatrier, onde a nova sensação do circuito feminino — que arrasta multidões por onde quer que passe — jogou pela primeira vez. Anna Karolina Schmiedlova, a número 90 do ranking que não ganhava um encontro em torneios do Grand Slam desde o US Open de 2015, tinha agarrado uma surpreendente liderança de 6-0.

Um bagel, como tanto se diz na gíria, numa alusão à forma do produto de pastelaria.

“Foi o mais nervosa que fiquei durante um encontro em toda a minha vida”, revelou horas depois numa conferência de imprensa em que não escondeu o alívio. “Foi estranho porque normalmente os nervos desaparecem, mas hoje mantiveram-se durante todo o encontro. Foi a minha primeira vez a jogar um torneio do Grand Slam como número um, ganhei os últimos dois e por isso quero muito ganhar este e nunca tinha jogado no Court Philippe-Chatrier”, enumerou de seguida,

Com o segundo set, Osaka tentou recomeçar e a camisola que colocou sobre o vestido pareceu surtir o efeito de capa de super heroína, uma vez que num piscar de olhos conquistou três jogos que, não lhe dando conforto, lhe permitiram respirar com mais calma. Mas aí chegou a chuva, que já andava a ameaçar durante todo o encontro, e depois dos espetadores também as jogadoras tiveram de abandonar o campo.

O regresso não tardou, mas tudo mudou. Osaka perdeu (novamente) o ritmo, Schmiedlova recuperou o ânimo e não só igualou o parcial como se colocou em condições de o discutir e chegou a estar a dois pontos da vitória. Mas a tenista nipónica superou-se quando foi mesmo necessário e fechou o jogo de serviço para ganhar direito a disputar o tie-break, onde esteve sempre por cima e ditou a tendência do terceiro parcial — o único onde conseguiu ser ela própria.

Se o primeiro parcial nos mostrou que Naomi Osaka não é imune a pressão a que está sujeita, os seguintes deixaram evidentes as razões que fazem dela a primeira pré-designada: mesmo num dia mau, desfalcada de soluções e confiança, tem a mentalidade que a faz manter-se em jogo até à última e agarrar a oportunidade quando a vê para dar uma cambalhota no marcador.

Certo é que a nova superestrela do Japão terá de se apresentar a um nível muito superior para ter uma palavra a dizer no encontro mais aguardado da segunda ronda: vai medir forças com Victoria Azarenka, que sabe igualmente o que é passar pela primeira posição do ranking e tem dois títulos do Grand Slam no currículo. A bielorrussa superou a vencedora de 2017, Jelena Ostapenko, por 6-4 e 7-6(4), num duelo em que a letã fez 17 duplas faltas (!) e cometeu… 60 erros não forçados.

Tal como Naomi Osaka — e Serena Williams na jornada anterior… —, também Simona Halep se viu forçada a três sets no encontro de estreia. Mas a romena, campeã em título, até entrou bem, perdendo terreno na segunda partida para depois voltar ao comando e afastar a australiana Ajla Tomljanovic, por 6-2, 3-6 e 6-1. Segue-se Magda Linette, que partiu os corações da casa ao recuperar da desvantagem de um set para vencer Chloé Paquet, por 3-6, 6-1 e 6-2.

Gaspar Ribeiro Lança
gasparlanca@raquetc.com | Dar palavras a um encontro de dois, três, quatro ou cinco sets, com ou sem tie-break. Dar palavras a histórias, a recordes. Dar ténis a todos aqueles que o queiram. E mais, sempre mais — por isso depois chegaram o padel, o ténis de mesa e o squash. E assim cá estamos, no Raquetc ("raquetecétera"). Como escreveu Pessoa, "primeiro estranha-se, depois entranha-se."