Larri Passos e a parceria com João Domingues: “Chamo a ele de menino de ouro”

Fotografia: Margarida Moura/Federação Portuguesa de Ténis

BRAGA — Quando aterrou em Lisboa, João Domingues ainda ia jogar a segunda ronda do Millennium Estoril Open. Dez dias mais tarde, aplaudiu-o enquanto levantava o troféu de campeão de singulares do Braga Open. Larri Passos viajou para Portugal para acompanhar o jogador português e falou com o Raquetc sobre o trabalho, o progresso e as conquistas dos primeiros dias.

Apesar de não ser a primeira vez que o tenista português e o conceituado treinador brasileiro cruzam caminhos — já tinham trabalhado juntos durante a gíria sul-americana de torneios ATP, no início de 2018 —, a notícia de que o voltariam a fazer apanhou todos de surpresa em pleno Millennium Estoril Open.

O reencontro com o tenista português acontece depois de um período complicado — Larri Passos teve de se ausentar por completo do ténis para combater e vencer um cancro na próstata — e é o resultado da excelente empatia que os dois tiveram na primeira experiência. “Ele esteve comigo no Brasil e surgiu uma energia muito boa entre nós dois. Ele esteve na minha academia, começámos a fazer algumas coisas da parte técnica, coisas que eu achava que tinha de melhorar e que nunca tinha feito, e esse convívio entre nós dois foi muito bacano.”

“No final do ano passado, depois de tudo passar, o João começou a dizer que queria trabalhar comigo, que queria voltar, e eu prometi-lhe mas pedi um tempo. Então quando terminei os outros projetos que tinha eu disse ‘João, agora a gente pode começar’. E foi o que aconteceu, cheguei na terça-feira, vim para Lisboa e está a ser muito bom”, explicou Larri Passos.

A ligação que tem a André Podalka, um dos treinadores — a par de João Antunes, Daniel Sualehe e também do fisioterapeuta João Peralta — que trabalha diariamente com João Domingues, ajudou. “Ele esteve cinco anos na minha academia a trabalhar, é um cara que tem praticamente todo um modelo baseado no meu trabalho e que está a fazer um excelente trabalho. E então começámos logo a mexer em alguns aspetos e eu estou muito feliz, muito feliz porque o João já mostrou que confia em mim e que sente segurança.”

O treinador destacou a importância do jogador português conseguir completar com sucesso uma semana que considera “muito importante”. “Foi dura, muito dura. O João teve que se superar, jogar num ambiente em que não gostava, indoor, e eu tive que entrar na cabeça dele e falar ‘você vai ter que aprender, vai entrar, jogar e vai superar’. E quando terminou o jogo em indoor eu falei para ele ‘agora tu vais ganhar o torneio’. Agora no final a gente estava fazendo o trabalho de recuperação e ele falou para mim ‘lembra-se do que disse? Que depois de eu ganhar indoor eu podia ganhar o torneio…'”

Apesar de João Domingues ter vivido uma semana desgastante no Clube de Ténis do Estoril, a chegada a Braga não foi soft e aí esteve parte do segredo do sucesso. “Viemos para Braga no domingo à tarde, ele chegou e foi muito importante irmos logo para a quadra central. Porque no Estoril eu vi algumas coisas que ele tinha de melhorar, coisas que o Tsitsipas explorou muito, e então treinámos aqui duas horas à tarde. Depois fizemos um trabalho de recuperação física na segunda-feira, houve um fortalecimento muito forte da parte muscular, e quando viemos à tarde treinámos de novo. Noutro caso talvez o treinador dissesse ‘deixa descansar’, mas não. São alguns segredos que eu tenho com a minha experiência e foi importante o João saber que estava um cara experiente do lado dele fazendo tudo isso para ele tentar jogar o torneio.”

Larri Passos reconhece que “ele tem algumas coisas para evoluir, logicamente, mas está no caminho certo” e vai mais longe. “O Tsitsipas chegou à final em Madrid e o Cuevas ganhou agora um Challenger, então o João está jogando de igual para igual contra jogadores de alto nível. Para ser um vencedor não pode ter medo de perder e ele ganhou o torneio aqui em Braga contra um grande jogador, que luta até ao final. Não foi o cara que perdeu o jogo, foi ele que ganhou.”

Por isso, o objetivo passa por “continuar o trabalho de fortalecimento técnico e tático” e apontar a “voos maiores” na segunda parte da temporada: “queremos tentar beliscar alguns quadros de ATPs, que é importantíssimo, mas neste momento estamos a colocar o foco em Roland Garros.”

Larri Passos mostra-se disponível e, acima de tudo, interessado em voltar a trabalhar com João Domingues depois do Grand Slam francês. “Estou apostando porque gosto muito dele, eu chamo a ele menino de ouro. É desde o princípio um cara educado, que me respeita, não preciso de ficar gritando e discutindo com ele. Eu entro na cabeça dele e ele me aceita. Sou duro porque tenho de ser duro para evoluir mas não preciso de levantar a voz, e essa energia do técnico com o jogador e do jogador com o técnico é muito importante. Respeito muito ele por tudo o que fez”, afirmou, antes de ser recordado do que há dois anos, numa primeira conversa com o Raquetc, já tinha dito ser necessário para jogadores como… João Domingues.

“Acreditar e outras cinco coisas: trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar e trabalhar”, dissera-nos então numa primeira passagem pelo Lisboa Belém Open, onde agora regressa com o português como pupilo.

E o treinador brasileiro deixou, ainda, uma mensagem: “É importante o João ter apoios maiores, mais patrocínios, para poder fazer investimentos na sua carreira e melhorar a estrutura. Espero que se eu, que sou um técnico que estou realizado na minha vida, estou apostando porque gosto muito dele, outros apostem também porque é importante para ele.”

Gaspar Ribeiro Lança
gasparlanca@raquetc.com | Dar palavras a um encontro de dois, três, quatro ou cinco sets, com ou sem tie-break. Dar palavras a recordes, a histórias. Dar ténis a todos aqueles que o queiram. E mais, sempre mais. Por isso depois chegaram o padel e o squash. E assim cá estamos, no RAQUETC ("raquetecétera"). Como escreveu Fernando Pessoa nos anos 20, "primeiro estranha-se, depois entranha-se."