Millennium Estoril Open — O que é que se pode esperar desta edição?

Millennium Estoril Open
Fotografia: Fernando Correia/Millennium Estoril Open

Faz daqui a pouco um ano que João Sousa ganhou o Millennium Estoril Open. Sim, ganhou. Para os muitos que acompanham o ténis, a vitória de um tenista nacional na nossa prova maior foi sempre um grande desejo que tardava em se concretizar.

Houve momentos, quando ainda se jogava em Oeiras, que esse desejo parecia tão longínquo que mais parecia um sonho. Já no Estoril, houve edições que pareciam “de feição” para João Sousa ganhar. Aqui ou ali apareceram imprevistos, adversários, contratempos, nervos, etc. e o desejo teimava em não se concretizar. Em continuar um sonho.

Até que na edição passada, depois de uma entrada muito tremida e suada onde outro Sousa, de nome Pedro, esteve quase a surpreender o João, a esperança e a realidade foram ganhando ao sonho e o desejo concretizou-se.

E agora, o que esperar desta edição? Nova vitória do João ou o regresso ao mundo dos desejos e sonhos? Quando voltará um português a erguer o troféu da nossa prova rainha?

Pois… Com um quadro muito forte e homogéneo a tarefa parece muito difícil. Com a lista a “fechar”, no 64.º Yoshihito Nishioka, e encabeçada pelo número 7 Kevin Anderson, fica complicado ganhar rondas e bastante difícil vencer a prova. Não somos arautos da desgraça nem velhos do Restelo. Simplesmente com esta lista de inscritos a tarefa não vai ser nada fácil. Mas muita coisa pode ainda acontecer.

Esta ano já não tem nada a provar. Já não há a pressão e a exigência do passado. O João Sousa não é o favorito e há outros jogadores com a “obrigação” de vencer. E este cenário pode ser capitalizado pelo português. Com um público que sempre puxou pelos nossos, num quadro onde não é favorito e com estrelas como o já referido Anderson mas também Stefanos Tsitsipas, Fabio Fognini, Gael Monfils, Pablo Carreño Busta e Jaume Munar, entre outros, pode ser e desejo que o João se galvanize e mostre porque é apelidado de “O Conquistador”.

Se levar de vencida esta edição será uma enorme conquista. E se não for o nosso número 1 será que outro português pode surpreender? Se para ele é muito complicado, para Pedro Sousa, wild card já confirmado, Gastão Elias, João Domingues ou Frederico Silva será missão impossível. Não esquecer que na lista de alternates — os jogadores que substituem quem se venha a retirar do quadro por algum motivo de força maior — estão nomes como os de Ernests Gulbis e Bernard Tomic. E os restantes tenistas lusos ainda terão de ultrapassar a dura prova de qualificação.

Volto a colocar a pergunta: o que é que se pode esperar desta edição? Destaco alguns aspetos que me parecem motivo de interesse: uma prova equilibrada, com jogos renhidos e de difícil prognóstico. Isso está garantido. Não só pela classificação mas também pelos estilos e características dos jogadores. Espetáculo, por Monfils, Jeremy Chardy e Fognini. O virtuosismo dos três e a irreverência especial do italiano garantem sempre animação.

Uma “piscadela de olho” ao futuro para ver alguns dos jogadores que são apontados como os campeões do futuro. A presença de Stefanos Tsistsipas, este já uma certeza, mas podendo ver novamente Alex de Minaur, Frances Tiafoe e agora Jaume Munar. Neste aspecto, a curiosidade de ver ao vivo e em terra batida uma armada de quatro americanos, apontados como os jogadores que podem fazer renascer o ténis norte americano. Como precisam os norte-americanos de uma referência no top da hierarquia mundial…

Por último, os nossos jogadores. Estou sempre curioso em ver os nossos jogadores a competir. Infelizmente o acesso à prova maior está vedada a quase todos e o acesso via prova de qualificação também muito “apertado”. O nível de desempenho dos nossos jogadores está alguns furos abaixo do nível médio deste evento. Apesar de terem muitas provas em território nacional que lhes permitem aceder à competição internacional sem grandes viagens, o salto para competir num torneio como o Millenium Estoril Open é enorme. Não é um salto — neste momento é um fosso. Mas sobre este tema reservo a vossa atenção para um próximo artigo.

Pelo que escrevi, desejo que a bola comece a saltar no pó ocre do Clube de Ténis do Estoril e que notícias de desistências de última hora não aconteçam.

Fernando Tocha
Treinador de ténis e padel no Rackets Pro - EUL. Comentador convidado no Eurosport.