Opinião: Ficar de fora

Assistimos, no início de 2019, ao surgimento de um novo paradigma competitivo nos circuitos ITF (Transition Tour) e ATP Challenger que introduz mudanças drásticas na dimensão profissional da modalidade: são criados rankings separados para ITF e ATP, reduzidas significativamente as vagas nas provas de qualificação do circuito ITF e Challenger (de 128/64 jogadores para 24 no ITF e de 32/16 para 4 nos Challengers) e, ao que tudo indica, a partir de 2020 o circuito ITF deixa de ser pontuável para o ranking ATP.

Em contrapartida, há lugares reservados para jogadores do top-100 ITF júnior nos quadros principais dos torneios Transition Tour; os melhores jogadores do ranking ITF têm acesso directo a torneios ATP Challengers (4 lugares para quadros principais e 3 para a prova de qualificação); e os quadros destes torneios passam de 32 para 48 jogadores.

Em termos práticos, o que parece acontecer é que o aumento de lugares nos quadros principais dos Challengers não compensa a redução nos qualifyings e atira para o ITF jogadores que habitualmente jogavam neste circuito com ranking ATP, onde são mais valorizados do que os atletas que vingaram em 2018 nestas provas. Estes últimos, por seu lado, deixam de ser os principais cabeças de série da sua própria liga, têm de aproveitar as vagas para entrar nos quadros de categoria superior e pontuar no ranking ATP.

Com estas reduções, os tenistas que eram presença assídua nos quadros principais e nas fases de qualificação das provas de 15 e 25 mil dólares deixam de ter oportunidades nas provas internacionais. Quanto aos juniores, apesar dos lugares que lhes estão reservados, têm de conseguir amealhar, em curto prazo temporal, os pontos suficientes para subsistir num circuito que – ao que tudo indica – estará ainda mais exigente e fechado. Caso não o consigam, passam a fazer parte do lote de jogadores (milhares) que veem os seus sonhos e investimentos reduzidos a wild cards de organizações e respectivas federações.

Se este novo modelo resultar num sistema competitivo ainda mais exigente e fechado – como parece -, a Federação Portuguesa de Ténis e os torneios nacionais passam a ter um papel preponderante no futuro dos nossos tenistas. Esse papel poderá passar pela criação de sistemas de meritocracia que determinem os jogadores que terão acesso a convites (de valor inestimável) para as provas internacionais aqui disputadas; ou pela criação de uma estrutura base de torneios nacionais, onde os jogadores excluídos do perímetro internacional possam continuar a disputar torneios competitivos e rentáveis (mais do que o actual prize money), que simultaneamente abra oportunidades, através de wild cards, para o circuito internacional e facilite a prossecução de uma carreira profissional em Portugal.

Existem manifestações de grande preocupação, entre jogadores e intervenientes na modalidade, que defendem a reversão destas regras: o impacto é demasiado radical e abrupto e a ITF deveria ter isso em consideração. Ainda assim, se as consequências que se adivinham neste momento se vierem a confirmar, são as federações que devem defender os jogadores que investiram tempo, talento e dinheiro em prol do seu futuro e de uma modalidade que, de um momento para o outro, os quer deixar de fora.