Opinião: A ITF deixou de representar o ténis. A ATP ajudou à festa

Por Francisco Franco Dias, 1057.º do ranking ITF em singulares, 250.º em pares e 620.º ATP em pares

O dia 1 de janeiro representa o começo uma nova temporada desportiva para a nossa modalidade. Por esta altura, já muita gente iniciou os seus trabalhos pré-temporada, enquanto outros ainda estão a descansar por motivos pessoais ou por terem terminado 2018 mais tarde.

Este ano, o dia 1 de janeiro representou também a entrada em vigor das novas regras da ITF (Federação Internacional de Ténis) e ATP/WTA que estão a ser arduamente protestadas tanto por jogadores dos circuitos feminino e masculino, como por pais, treinadores e amantes do ténis.

Na sua grande maioria, estes protestos são provenientes da incapacidade de mais de 60% dos jogadores, que no ano passado faziam parte dos quadros de qualificação, não poderem sequer fazer parte destes mesmos em 2019. A ITF iniciou uma drástica mudança na política de inscrições que viu reduzir o numero de posições disponíveis em quadros de qualificação de 64/128 para 24.

Pessoalmente, a número 1050 ITF, ranking que o ano passado me daria estatuto de cabeça de serie em vários torneios 15k, este ano vejo-me fora de todos os torneios em que me inscrevo.

Adicionando a este problema, nas camadas inferiores do circuito profissional a ATP reduziu também o número de vagas disponíveis na qualificação dos torneios do circuito Challenger de 16/24 para 4, sendo que 3 estão reservadas para ranking ITF e 1 wild card. Em termos reais, esta diminuição faz com que jogadores classificados nas posições 300, ou por vezes melhor, não consigam jogar Challengers e consequentemente jogadores nas posições 700 ou melhor nem sequer consigam entrar na qualificação de Futures.

Quando a ITF mencionou que existiriam certas mudanças nos circuitos, foi-nos projectado que estas haviam sido estudadas para que houvesse mais possibilidades de chegar ao desejado ponto “break-even”, mesmo sendo 1000 do mundo. Mas na realidade a história foi exactamente a oposta e está a ser vista como uma forte tentativa de aliciar jogadores de baixo ranking simplesmente a desistirem.

Num outro aparte, a ITF instituiu uma inscrição de 40 dólares mesmo para jogadores do quadro principal de torneios de 15.000 e 25.000 dólares. Se um jogador faz 25 torneios num ano, este aumento na inscrição representa menos 1000 dólares para cada jogador. Se já era difícil, tornou-se ainda mais.

No circuito de pares a situação é tão má ou pior. Pelas palavras da ITF, não querem que os jogadores comecem ou continuem carreiras de pares a nível Future. Para reforçar esta retórica, um jogador que seja 250 ITF de pares não pode inscrever-se somente nos pares porque o torneio tem agora de dar prioridade a jogadores do quadro principal de singulares.

Em menos de uma semana, mais de 1400 jogadores ativos envolveram-se fortemente num grupo do Facebook que criou uma petição para angariar assinaturas do público em geral, mas também um abaixo assinado, este somente de jogadores activos, para que a ITF retifique as regras que estão a deixar muitos jogadores completamente de fora das competições.

Felizmente, este movimento está a ganhar tração a nível mundial e há vozes importantes do ténis que estão vigorosamente do lado dos jogadores, como são exemplos os presidentes das federações alemã e austríaca de ténis, bem como Dave Miley [candidato à presidência da ITF nas próximas eleições]. O ponto comum é a falta de consideração pelos jogadores em troca de elementos menos tangíveis e que não têm que ver diretamente com o ténis.

Sugestões imediatas:

  • Aumentar o número de jogadores nos quadros de qualificação para 64 em torneios de 15.000 dólares e para 32 nos de 25.000 dólares.
  • Aumentar o número de jogadores nos quadros de qualificação para 16 em Challengers.
  • Dar ao ranking de pares a devida prioridade para os quadros de pares tanto em 15.000, 25.000 como em Challengers.
  • Retirar os encontros de eventos de 15.000 e 25.000 dólares das casas de apostas.

Sugestões a médio prazo:

  • Criar um comité que tenha representação dos jogadores, como o concelho da ATP.
  • Procurar testar os transition tours regionalmente com ajuda das federações. Algo que reduza o custo e que melhore a oportunidade de transitar para o circuito profissional.

Espero que a ITF consiga retificar a situação, ou muitos jogadores terão de forçadamente acabar as suas carreiras.

[Clique aqui para aceder ao abaixo-assinado criado pelo grupo de jogadores]