Apenas três portugueses têm garantias de jogar em Vale do Lobo. Em 2018 eram 25

De que serve ter o circuito profissional à porta de casa quando as novas regras que regem os escalões mais baixos do ténis mundial limitam a participação daqueles que dão os primeiros passos a este nível? É este o dilema que se tem vivido um pouco por todo o mundo nos novos torneios do ITF World Tour.

A pouco mais de uma semana dos torneios internacionais regressarem a Portugal, com a habitual série de eventos realizados no Sul do país que marca o arranque da época para muitos dos tenistas nacionais, são muito poucos aqueles que têm garantias de poder vir a trocar bolas com vista a lutarem pelos seus objetivos no circuito profissional.

É preocupante o que se está a passar depois do novo modelo de competição ter sido imposto pela Federação Internacional de Ténis.

Olhemos para o caso de Portugal: a lista do ITF masculino de Vale do Lobo (M15, o novo nome dado aos torneios Future de categoria mais baixa) foi divulgada há poucos dias e nela apenas três portugueses têm a garantia de poderem jogar o torneio — todos no quadro principal de singulares. Serão mais, fruto de wild cards, mas nada que se vá comparar ao que aconteceu no ano passado.

Em 2018, o torneio algarvio recebeu 25 tenistas portugueses nos seus dois quadros de singulares, 18 na qualificação e 7 no quadro principal. Nenhum tenista foi impossibilitado de jogar o torneio por não ter acesso a ele, ou seja, mesmo os que não tinham classificação conseguiram marcar presença na fase de qualificação. Este ano só João Monteiro, Fred Gil e Tiago Cação estão garantidos.

Em 2018 deslocaram-se e jogaram em Vale do Lobo 135 tenistas e só não jogaram mais porque simplesmente não se inscreveram, visto que o torneio tinha a particularidade de ter um quadro de qualificação que podia chegar aos 128 jogadores. Este ano apenas 50 jogadores poderão lutar pelo título de singulares.

Em 2018 todos os tenistas que estiveram em Vale do Lobo jogaram o torneio. Este ano, à data a que este artigo está a ser escrito, são quase 400 os jogadores que estão em lista de espera para entrarem na fase de qualificação, mas muitos mais já desistiram ou vão desistir simplesmente porque não vale a pena fazerem a deslocação.

Perdem os jogadores, perde a organização. Perdem todos.

Falemos primeiramente do lado da organização. É que este circuito parece ter mais problemas do que soluções. Como é que os torneios vão conseguir apoios se não têm a afluência de há um ano? Como é que vão conseguir, por exemplo, convencer uma Câmara Municipal a dar o mesmo dinheiro se apenas têm 50 jogadores e não os 135 que “apresentaram” há 12 meses?

É praticamente impossível 50 jogadores deixarem mais dinheiro no local do que deixariam 135. Falamos de deslocações, de refeições, de dormidas, falamos de tudo. A nível financeiro perde-se muito a este nível e é possível que os torneios, ao verem a sua margem de lucro seriamente afetada, deixem de os querer organizar. É um ciclo vicioso que vai continuar até simplesmente se deixarem de realizar provas porque as regras do jogo não foram feitas para este jogo.

Agora o jogador português. Os torneios organizados em Portugal têm como um dos objetivos capitais apoiar o jogador português. Isto vai deixar de acontecer. Ter um torneio aqui ou do outro lado do Mundo passa a ser a mesma coisa para a grande maioria dos portugueses. Não os podem jogar porque não têm classificação suficiente para terem acesso aos quadros. Não podem ter classificação suficiente porque não os podem jogar.

Lembro-me de não existir nem metade dos torneios internacionais em Portugal. Mas também me lembro de termos torneios praticamente o ano inteiro. As diferenças foram brutais. Mais jogadores com ranking, mais jogadores a jogarem a um nível médio mais elevado, menos despesas. Todos ganhavam. Sempre se disse que era impossível fazer carreira sem ir lá para fora mas esse problema foi “resolvido” com os torneios organizados no nosso país. Em 2019 voltamos ao mesmo problema. Temos os torneios mas há uma barreira que não nos permite usufruir deles. Resta saber quais são as consequências. Umas são fáceis de enumerar, outras apenas o tempo dará a conhecer.

No seu website oficial, a ITF diz que a missão do ITF World Tennis Tour é “a entrada no nível de profissionalização. A ITF e os seus países membros estão a trabalhar em conjunto para o crescimento do jogo”. Como é que se pode ser profissional e crescer quando ao primeiro obstáculo ‘cortam as pernas’ à maior parte dos seus intervenientes?

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Francisco Semedo
Licenciado em Turismo e a tirar Mestrado em Ciências da Comunicação, desde cedo se interessou pelo ténis. Começou aos 9 e desde então tem um olhar atento e constante de tudo o que se passa naquela que considera ser a melhor modalidade a todos os níveis.