História sobre história: Naomi Osaka conquista o Australian Open e é a nova número um do mundo

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Fotografia: Tennis Australia

Emoção, drama e história. A final feminina do Australian Open teve de tudo e no final consagrou Naomi Osaka como a nova campeã.

Aos 21 anos, a tenista japonesa derrotou Petra Kvitova numa final inesquecível, por 7-6(2), 5-7 e 6-4, para se tornar na primeira jogadora dos últimos dezoito anos a dar seguimento ao primeiro título em torneios do Grand Slam com o segundo logo no evento seguinte. Um troféu que não vem só: quando o ranking for atualizado na próxima semana, Naomi Osaka será a número um do mundo — um feito inédito no ténis asiático, em ambos os circuitos.

Não faltavam motivos de interesse à final deste sábado. E se era certo que os quase 15.000 espetadores que a Rod Laver Arena tem capacidade para receber se iriam dividir entre duas das jogadoras que são mais acarinhadas pelo público, também o era que das duas quem mais jogava em casa era Naomi Osaka — afinal, e como a organização fez questão de salientar em plena cerimónia de introdução da final, em que a campeã de 2014 Li Na posicionou o troféu no centro do court, trata-se do “Grand Slam da Ásia e do Pacífico”.

Mas com a pressão, já se sabe, dá-se ela bem — ou não tivesse derrotado uma Serena Williams a caminho dos 24 títulos do Grand Slam em plena final do US Open, quando todo o estádio gritava em uníssono pela jogadora da casa.

E a final deste sábado não foi exceção, mesmo se a dada altura o pareceu: depois de um primeiro set em que salvou os cinco break points que enfrentou e aproveitou o avançar dos ponteiros do relógio para começar a criar sérias dificuldades no serviço da adversária, Naomi Osaka ganhou um outro conforto ao reagir muito bem à quebra de serviço sofrida logo no início do parcial seguinte.

A recuperação pareceu surtir um efeito mortal no ténis (e na cabeça) da checa, de tal forma que a tenista japonesa conquistou três championship points ao 5-3. As câmaras apontadas para o seu lado do court, centenas ou talvez milhares de textos prontos a serem publicados. Ninguém exceto Petra Kvitova esperava o que aconteceria a seguir: com cinco pontos consecutivos, a campeão de Wimbledon em 2011 e 2014 deu a volta ao seu jogo de serviço.

E de repente tudo mudou: a Naomi Osaka confiante transformou-se numa jogadora cheia de dúvidas, em desespero evidente perante um resultado que tão depressa lhe fugia das mãos: um, dois, três, quatro jogos consecutivos para Petra Kvitova e de repente um terceiro set.

Perdida no court mas, mais do que isso, perdida mentalmente, a número 4 mundial recolheu aos balneários para recuperar a concentração e de lá voltou outra jogadora: reencontrou a confiança e eficácia no serviço e a qualidade da resposta, pancada com a qual conseguiu voltar a ler o jogo da adversária para regressar ao comando com um break logo ao terceiro jogo. Esse sim, seria decisivo, porque à segunda oportunidade que teve de fechar o encontro Naomi Osaka voltou a ser a mesma tenista confiante que na final do US Open não tinha vacilado frente a Serena Williams.

E então sim, os flashes foram disparados, os primeiros gritos de celebração dados e os milhares de textos publicados. Ao fim de 2h25 de uma final dramática, Naomi Osaka voltou a fazer história: não só igualou não só igualou Li Na (Roland Garros 2011 e Australian Open 2014) como a maior campeã do continente em torneios do Grand Slam como alcançou um feito inédito — é a primeira jogadora asiática (homem ou mulher) a chegar ao primeiro lugar do ranking mundial.

A idade com que o fez também impressiona e não só reforça o estatuto de verdadeiro fenómeno do ténis japonês, asiático e mundial como lhe vale alguns registos dignos de serem assinalados: aos 21 anos, Naomi Osaka tornou-se na primeira jogadora desde Maria Sharapova (US Open 2006) a conquistar dois títulos do Grand Slam antes de celebrar o 22.º aniversário e a mais nova desde Caroline Wozniacki em 2011 (a dinamarquesa tinha 20 anos) a subir ao topo do ranking.

Gaspar Ribeiro Lança
gasparlanca@raquetc.com | Dar palavras a um encontro de dois, três, quatro ou cinco sets, com ou sem tie-break. Dar palavras a recordes, a histórias. Dar ténis a todos aqueles que o queiram. E mais, sempre mais. Por isso depois chegaram o padel e o squash. E assim cá estamos, no RAQUETC ("raquetecétera"). Como escreveu Fernando Pessoa nos anos 20, "primeiro estranha-se, depois entranha-se."