Enquanto dormia #2: a garra portuguesa, o adeus de uma campeã e as cãibras que ajudaram Nishikori

Kei Nishikori
Fotografia: Ben Solomon/Tennis Australia

Não faltou emoção à segunda madrugada do Australian Open, que viu nascer a primeira vitória portuguesa na 107.ª edição do Happy Slam mas também a derrota de uma ex-campeã. Entre os campos principais e os show courts, são várias as histórias das primeiras oito horas de ténis desta terça-feira em Melbourne Park. Para quem acabou de acordar, para quem não pôde assistir à jornada. Se não pôde assistir à jornada, não tinha café suficiente para ficar acordado ou está a caminho do trabalho ou da escola, este resumo é para si.

Não há como começar este texto de outra forma: a grande vitória deste início de jornada pertenceu a João Sousa. O número um português batalhou durante 4h03 para sair vencedor do duelo com o seu bem conhecido (e ainda na semana passada colega de pares) Guido Pella e avançar para a segunda ronda pela quinta vez em sete participações.

Entretanto, o jogador vimaranense ficou a saber que terá como próximo adversário Philipp Kohlschreiber. O duelo com o tenista alemão de 35 anos (que é o número 32 do ranking) será o quinto da história entre ambos. Em piso rápido é João Sousa quem leva a melhor (vitórias no ATP 250 de Montpellier e no Masters 1000 e Cincinnati, ambas em 2015), mas entretanto o germânico igualou o confronto direto ao vencer na relva de Halle e na terra batida de Kitzbühel (na final).

No quadro masculino não houve nenhuma eliminação particularmente surpreendente mas isso não quer dizer que o perigo tenha andado longe — muito pelo contrário. Que o diga Kei Nishikori, o japonês que no lançamento do torneio disse ter como objetivo “chegar pela primeira vez às meias-finais” mas depressa se viu a perder por dois sets… Contra um qualifier.

Ex-top 10 mundial de juniores, Kamil Majchrzak (170.º ATP) teve o começo de encontro de sonho ao vencer os dois primeiros sets Depois, valeram ao mais cotado dos dois jogadores as cãibras contraídas pelo polaco, que ainda pouco habituado ao ritmo que um duelo destes exige deixou de se conseguir movimentar. Mesmo em vantagem no marcador, deixou de ter palavra a dizer e foi uma questão de tempo até se retirar. Quando o fez, já Kei Nishikori vencia por 3-6, 6-7(6), 6-0, 6-2 e 3-0.

A desistência de Majchrzak foi apenas uma das cinco (!) que se verificaram no quadro masculino em apenas oito horas: tal como ele, também Jaume Munar (perdia por 7-6[3], 7-6[7] e 3-1 para Fabio Fognini), Thanasi Kokkinakis (venceu o primeiro set por 7-5 e estava a perder o segundo por 4-2 frente a Taro Daniel), Ernests Gulbis (que tinha o marcador a seu favor: 6-3, 1-3 contra Stan Wawrinka) e Malek Jaziri (que perdia por 4-6, 7-6[6], 6-1 e 4-0 para Ilya Ivashka) não conseguiram chegar ao fim das respetivas prestações.

O vice-campeão do US Open 2014 não foi o único a estar em apuros. Um dia depois do semifinalista de 2018 Kyle Edmund ter ficado pelo caminho, também Hyeon Chung esteve perto de dizer adeus a Melbourne. O sul-coreano (que é o 24.º cabeça de série e tem os pontos das meias-finais a defender) precisou de 3h37 para dar a volta ao norte-americano Blaz Klahn, acabando por vencer pelos parciais de 6-7(5), 5-7(5), 6-3, 6-2 e 6-4.

Mais tranquilos estiveram os outros jovens: Alexander Zverev parece estar decidido a poupar-se a trabalhos extra em Grand Slams e derrotou Aljaz Bedene por 6-4, 6-1 e 6-4 no encontro de estreia, enquanto Denis Shapovalov passou por Pablo Andujar (6-2, 6-3 e 7-6[3]) e Borna Coric somou a primeira vitória da carreira no Australian Open ao passar pelo já veterano Steve Darcis com 6-1, 6-4 e 6-4. Isso mesmo, leu bem: a primeira vitória da carreira no Australian Open.

Nas senhoras caiu a primeira jogadora do top 10 mundial. Daria Kasatkina entrou em court mas não apareceu verdadeiramente e 55 minutos bastaram para que Timea Bacsinszky lhe aplicasse um corretivo — 6-3 e 6-0. Vitórias mais fáceis tiveram Garbiñe Muguruza (6-2 e 6-3 a Saisai Zheng), Karolina Pliskova (6-3 e 6-2 à compatriota Karolina Muchova) e a campeã do WTA Finals, Elina Svitolina, que passou por Victoria Golubic (6-1 e 6-2).

O grande duelo da segunda ronda já está marcado — Serena Williams e Genie Bouchard venceram os respetivos encontros sem pestanejar e vão voltar a encontrar-se cinco (!) anos depois — e quem não estará em ação nessa fase é Victoria Azarenka. Campeã em 2012 e 2013, a bielorrussa de 29 anos deixou-se surpreender pela alemã Laura Siegemund depois de vencer o primeiro set: 6-7(5), 6-4 e 6-2 foram os parciais da vitória da atual número 110 do mundo.

Para esta terça-feira estão ainda marcadas as estreias dos líderes dos rankings: Novak Djokovic abre a sessão noturna na Rod Laver e Simona Halep inaugura a da Margaret Court Arena. Depois, os dois são seguidos de Naomi Osaka e Dominic Thiem, respetivamente, naqueles que serão os últimos duelos do dia. A ordem de jogos completa pode ser consultada aqui.

Gaspar Ribeiro Lança
gasparlanca@raquetc.com | Dar palavras a um encontro de dois, três, quatro ou cinco sets, com ou sem tie-break. Dar palavras a recordes, a histórias. Dar ténis a todos aqueles que o queiram. E mais, sempre mais. Por isso depois chegaram o padel e o squash. E assim cá estamos, no RAQUETC ("raquetecétera"). Como escreveu Fernando Pessoa nos anos 20, "primeiro estranha-se, depois entranha-se."