Opinião: De mal amado a idolatrado, Andy Murray vai fazer muita falta

O ténis ficou mais pobre com o anúncio de Andy Murray, que entre lágrimas e desespero colocou um travão ao sofrimento. O corpo não aguenta mais e há vida para além do ténis — mesmo se por agora lhe possa ser difícil pensar nesse cenário.

Andy Murray sempre foi o “patinho feio”. Teve de lutar muito para ser britânico mesmo nas derrotas e jogar grande parte da carreira contra dois adversários, porque para além de quem lhe aparecia do outro lado da rede a história de uma grande potência adormecida sempre o perseguiu.

Começou por ser maltratado pela nação que agora o idolatra. Não o queriam nas primeiras grandes derrotas (aí era apenas escocês) mas quando se tratava de pisar o court na vez seguinte lá estava ela outra vez, a conversa sobre o longo jejum da Grã-Bretanha.

“Há mais de 70 anos que um jogador britânico não conquista um Grand Slam“, ouviu, ouviu e ouviu, até que em 2012 conquistou o US Open.

“Há mais de 70 anos que um jogador britânico não conquista Wimbledon“, ouviu, ouviu e ouviu, até que em 2013 se sagrou campeão.

“Há mais de 70 anos que a Grã-Bretanha não conquista a Taça Davis”, ouviu, ouviu e ouviu, até que em 2015 venceu os 11 encontros que disputou (incluindo o encontro de pares, ao lado do irmão Jamie Murray, nas últimas três eliminatórias) para se tornar no grande herói dessa conquista.

“Nunca houve um britânico a chegar ao topo do ranking desde que o novo sistema foi introduzido em 1973″, ouviu, ouviu e ouviu, até que com uma temporada de 2016 que vai ficar para sempre na história saltou para a primeira posição da tabela e lá terminou a época.

Andy Murray vai fazer falta ao ténis e ao desporto britânico.

A geração em que conseguiu construiu uma carreira de ouro só magnifica o seu talento. Numa era dominada por Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic (quando os “perdermos” vamos olhar para ela como a melhor de sempre…), Andy Murray conseguiu impôr-se. Disputou 11 finais de torneios do Grand Slam (distribuídas pelos quatro eventos), das quais ganhou três, conquistou duas medalhas de ouro consecutivas em Jogos Olímpicos (em Londres 2012 e Rio de Janeiro 2016), o ATP Finals e chegou ao primeiro lugar do ranking. Venceu 14 Masters 1000 e um total de 45 títulos ao mais alto nível. Foi um verdadeiro Big Four e tornou-se num dos melhores jogadores da história.

Andy Murray vai fazer falta ao circuito mundial.

Mas há muito mais do que isso. Porque os feitos no court interessam para os livros de história mas os que se vêem fora dele são os que definem o verdadeiro estatuto de ídolo que hoje lhe pertence.

Andy Murray, o mesmo que com apenas nove anos estava na escola primária de Dunblane quando um homem armado matou 16 crianças e uma professora, o mesmo a quem apontaram falta de carisma, sempre foi uma das vozes mais ativas na luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres: é a favor de prémios monetários iguais em todos os torneios combinados, relembra constantemente os jornalistas de que certos feitos alcançados já tinham acontecido no ténis feminino, diz que a programação do Centre Court de Wimbledon se deve dividir de igual forma entre homens e mulheres e tem como um dos objetivos envolver mais mulheres no desporto. Uma faceta que começou a ser mais notória quando começou a trabalhar com Amélie Mauresmo, porque acompanhou de perto as críticas injustas que a treinadora recebia e a forma diferente como era tratada.

E, como muito poucos, é um verdadeiro entusiasta do circuito. De acordo com a imprensa britânico é frequente assistir através da internet e enviar mensagens aos compatriotas que competem em torneios inferiores (como ITFs e Challengers) e um pouco a todo o circuito — com um olhar atento para os mais jovens que em 2011 o levou a escrever que “a rapariga com que a Maria Sharapova está a jogar vai ser número 1 do mundo um dia. Caroline Garcia, que grande jogadora — ouviram-no aqui primeiro.” Esse dia ainda não chegou, mas Caroline Garcia (que entretanto tem 25 anos) já tem seis títulos e subiu ao quarto lugar do ranking em setembro de 2018.

Andy Murray vai fazer falta ao ténis.

E agora, depois de tanto fazer, chegou a hora de receber. Esteja ou não em condições de cumprir o seu desejo e lá terminar a carreira, merece uma cerimónia inesquecível no All England Club durante o torneio de Wimbledon.

Gaspar Ribeiro Lança
gasparlanca@raquetc.com | Dar palavras a um encontro de dois, três, quatro ou cinco sets, com ou sem tie-break. Dar palavras a recordes, a histórias. Dar ténis a todos aqueles que o queiram. E mais, sempre mais. Por isso depois chegaram o padel e o squash. E assim cá estamos, no RAQUETC ("raquetecétera"). Como escreveu Fernando Pessoa nos anos 20, "primeiro estranha-se, depois entranha-se."