A Black Friday que a França não vai querer recordar

Jo-Wilfried Tsonga
Fotografia: Corinne Dubreuil

Foi uma jornada para esquecer aquela que a França viveu no primeiro dia da última final da Taça Davis como a conhecemos. Uma Black Friday literal, aliás, em que duas derrotas em parciais diretos forçam a equipa da casa a lutar pelo quase impossível nos próximos dois dias. A Croácia, por sua vez, está no verdadeiro paraíso.

Por Gaspar Ribeiro Lança, em Lille

Desfalcada das três figuras da frente no ranking ATP, a França precisava de entrar a todo o gás — em ténis e em confiança — para almejar o que quer que fosse contra uma Croácia na máxima força. Mas a falta de confiança, de ritmo e de soluções rapidamente traíram o conjunto gaulês, que num só dia viu diminuírem de forma significativa as hipóteses de revalidar o título.

O quadro do primeiro dia no Stade Pierre-Mauroy pintou-se sem grandes segredos — ou, sejamos sinceros, surpresas. Um Jeremy Chardy que não estava pronto para a ocasião confirmou os pensamentos da maioria ao aparecer tarde e de forma tímida perante um Borna Coric em super-forma, revelando-se uma péssima e muito questionável escolha por parte do lendário capitão Yannick Noah. Depois, a história e experiência revelaram-se insuficientes para Jo-Wilfried Tsonga vestir a capa de herói e Marin Cilic também acabou a festejar ao fim de apenas três sets — em dois encontros que em nada jogaram a favor daqueles que (eu incluído) defendem a continuação dos duelos à melhor de cinco.

Foi uma primeira jornada de ténis relativamente fraco — afirmar que foi de sentido único talvez faça mais justiça ao sucedido… — aquela que se viveu em Lille, o que não significa que não devam ser enaltecidas as prestações de Borna Coric e Marin Cilic, em grande parte responsáveis por tamanha desigualdade.

Uma Black Friday no sentido mais literal que a expressão possa ter, portanto. Uma em que os 19.444 espetadores que aderiram à ocasião no palco emprestado pela equipa de futebol do Lille quererão deixar para trás a não ser que a França faça aquilo que por esta altura parece impossível: recuperar da desvantagem de 2-0 para revalidar o título, algo que aconteceu apenas por uma vez em toda a história da Taça Davis: foi em 1939, quando a Austrália completou a “cambalhota” perante os EUA.

Mudança de chip precisa-se

Vencer para esquecer é o único remédio que pode salvar uma seleção ferida no orgulho. Apesar de jogar em casa, a França sabe que não é favorita e depois do primeiro dia ainda menos — a não ser no par. Ora, este é precisamente o próximo duelo da eliminatória e quem melhor do que os recém vice-campeões do “Masters”, Pierre-Hugues HerbertNicolas Mahut, para darem a tão desejada alegria aos certamente mais de 20.000 espetadores que vão aderir à ocasião?

Eles sabem o que é vencer em casa e em terra batida — ainda este ano se sagraram campeões de Roland Garros — e mesmo tendo do outro lado da rede dois excelentes jogadores como Mate PavicIvan Dodic (ainda que Marin Cilic não tenha descartado a hipótese de ir a jogo…) têm nas raquetes a possibilidade de manterem viva uma final que anseia por entusiasmo.

O que disseram os protagonistas

  • Jeremy Chardy: “Estou extremamente dececionado. Estava pronto para jogar e tenho treinado muito bem, gostava de ter conseguido jogar da mesma forma. O break no primeiro jogo foi muito duro e nunca consegui recuperar. Ele nunca me deixou encontrar o ritmo. Serviu muito bem, conseguiu bloquear a minha esquerda e também me retirou tempo quando ia bater a direita por isso nunca consegui recuperar a confiança. Tentei usar o slice para colocar a bola mais curta e conseguir variações de ritmo mas nada funcionou.”
  • Borna Coric: “Joguei um ótimo encontro frente a um adversário difícil. Estive a um excelente nível taticamente e fico muito feliz com esta vitória. Sobre a lesão, que o levou a pedir um medical time-out já no terceiro set: “É um problema que tenho desde o Masters 1000 de Xangai e que me tem afetado quase todas as semanas. Consigo jogar com a dor a não ser que se prolongue a cinco horas. Vou estar pronto para domingo.”
  • Jo-Wilfried Tsonga: “Quando saí do court os médicos disseram-me que era melhor parar mas para mim isso não era concebível. O encontro estava a decorrer e com 25.000 pessoas no estádio e muitas mais a ver pela televisão. Tendo de perder o mínimo era fazê-lo de cabeça erguida, ir ao chão e lutar até ao fim com tudo o que tinha. Parece ser um problema no adutor mas para já não há nada em concreto. Amanhã de manhã [sábado] vou fazer exames e ficar a saber mais. Jogar bem é vencer e por isso não posso dizer que o tenha feito.”
  • Marin Cilic: “Nos dois primeiros sets e meio tive de jogar o meu melhor ténis. Só assim é que consegui ganhar e quando ele sentiu a lesão tive de me manter concentrado. Ainda nos falta um ponto mas agora temos três oportunidades para o conseguir.”
  • Yannick Noah [capitão francês]: “Para ser o pior dia da minha carreira como capitão é preciso haver uma enorme frustração e isso acontece quando estiveste muito próximo de ganhar mas hoje estivemos sempre muito longe dessa linha. Agora a ideia passa por nos mantermos vivos até domingo mas estamos realmente numa situação muito complicada.”
  • Zeljko Krajan [capitão croata]: “Só nos meus maiores sonhos podia imaginar que o primeiro dia ia terminar com 6-0 em sets para o nosso lado. Isso só mostra o quão bem o Borna e o Marin estão a jogar e a dar tudo pelo país. Não se deixaram intimidar pelo grande estádio e pela ocasião.”
Gaspar Ribeiro Lança
gasparlanca@raquetc.com | Dar palavras a um encontro de dois, três, quatro ou cinco sets, com ou sem tie-break. Dar palavras a recordes, a histórias. Dar ténis a todos aqueles que o queiram. E mais, sempre mais. Por isso depois chegaram o padel, o squash e o ténis de mesa. E assim cá estamos, no RAQUETC ("raquetecétera"). Como escreveu Fernando Pessoa nos anos 20, "primeiro estranha-se, depois entranha-se."