A eliminatória do ‘mata, mata’

[texto de opinião originalmente publicado no website da Federação Portuguesa de Ténis]

Parafraseando uma linguagem muito popular no futebol, a eliminatória entre Portugal e África do Sul, nos dias 19 e 20 deste mês, não pode ser encarada de outra maneira: é um jogo ao estilo do ‘mata, mata’ para a Seleção Nacional que volta a pisar os campos do centenário CIF, em Lisboa.

“Ganhar ou ganhar” é a palavra-chave para um duelo que se antevê difícil, embora Portugal tenha a vantagem teórica de jogar em casa e no seu piso favorito, em terra batida. Mas este é dos tais confrontos carregados de tradição e onde está em jogo algo muito importante: o caminho para a Davis Cup Finals em 2019.

Se Portugal ganhar terá acesso em fevereiro do próximo ano ao qualifying do novo modelo da competição. Se tal vier a acontecer, Portugal pode deslocar-se ao Cazaquistão ou receber o Canadá.

É este o cenário que transporta muita motivação aos pupilos de Nuno Marques, que convocou João Sousa, Pedro Sousa, Gastão Elias e João Domingues. Os sul-africanos têm em Lloyd Harris o seu melhor elemento e o único com uma boa cotação (112º ATP), sendo Nicolaas Scholtz o segundo, já mais longe em termos de ranking (501).

Quando Portugal bateu a África do Sul…

Este será o quarto confronto entre Portugal e a África do Sul na história da competição com os nossos adversários a terem uma vantagem de 2-1.

O primeiro duelo foi disputado em Londres em campos de terra batida (saibro) e a África do Sul ganhou por 4-1; depois em 2000, no complexo da Maia, Portugal empatou ganhando por 3-2, num conjunto que integrou Nuno Marques e Emanuel Couto (ambos fazendo agora parte da equipa técnica). Em 2003, Portugal viajou até à África do Sul e perdeu por 5-0. Foi uma deslocação difícil, agravada pela falta de apoio à equipa, levando à demissão do carismático José Vilela do cargo de capitão.

A terminar convém também recordar que Portugal averbou pela primeira vez na sua história uma vitória por falta de comparência e foi precisamente frente à África do Sul. Aconteceu em 1972 e isso deveu-se à exclusão daquele país devido ao apartheid.

A decisão pertenceu ao próprio Comité da Taça Davis a 14 de abril de 1972, numa reunião que decorreu em Copenhaga, na Dinamarca. Nove países do bloco socialista ameaçaram boicotar a competição se a Federação Internacional permitisse a entrada da África do Sul. Por maioria, foi aceite a desqualificação da África do Sul e da Rodésia nesse ano. Mas a Federação Internacional conseguiu posteriormente uma solução que salvaguardou o interesse da Taça Davis. Quem boicotasse a presença da África do Sul também ficaria suspenso por um ano…

E progressivamente, a África do Sul foi retomando a competição internacional que culminou com a reentrada nos Jogos Olímpicos, de onde esteve ausente entre 1964 e 1992.

Por ironia do destino, em 1974, a África do Sul conquistaria a Taça Davis. Mas, todavia, sem haver disputa da final frente à Índia. O governo indiano proibiu os seus jogadores de competir por discordar da política de apartheid da África do Sul.

Norberto Santos
Ex-redator principal do Record e historiador do ténis português.