50+2: o recorde de títulos que Fred Gil quer continuar a aumentar

Fred-Gil

Quando aconteceu não o sabia, mas Fred Gil tinha acabado de conquistar o 50.º título da carreira no circuito internacional. Foi no concelho que o viu nascer e de que tanto gosta que fez uma vez mais história para o ténis nacional. E este domingo, quase 30 dias depois, voltou a vencer — de forma dupla, repetindo um feito que perseguia há mais uma década.

Em tempos número 1 dentro de portas e 62.º entre os melhores do mundo, Fred Gil chegou à redonda marca de 50 títulos no circuito profissional na Beloura Tennis Academy e graças a vitórias em torneios de várias categorias (FutureChallengerATP) e nas duas variantes: singulares e pares.

O registo deixou-o orgulhoso e não precisou de muito tempo para destacar os três mais especiais. “O meu primeiro Future, em Faro, muito importante e especial por ser o primeiro título de todos como profissional, o meu primeiro Challenger, em 2006, e o título ATP que ganhei com o Daniel Gimeno-Traver em Vina del Mar, no Chile.” Mas o foco rapidamente passou para o que aí vinha — e vem. “Fico contente por saber que já ganhei 50 títulos e agora espero ganhar muitos mais, porque como digo a brincar ainda estou aqui para as curvas e quero aumentar esse recorde.”

E tão depressa o disse quanto o fez: este fim de semana, no Palmela Open, Fred Gil venceu os nove encontros que disputou para se sagrar campeão quer em singulares, quer em pares, aumentando o total de títulos para 52 (em 88 finais).

Mas há mais: esta foi a primeira vez desde o ano de 2015 que Frederico Gil saiu do mesmo torneio como campeão de singulares e pares, sendo também a primeira vez desde o ano de 2008 em que conquista dois títulos de singulares numa só temporada (na altura, fê-lo nos Challengers de Sassuolo e Istambul).

Não foi fácil conseguir sair do SPARKS Tennis Park Palmela com os dois títulos, até porque enfrentou um match point em cada um dos dois últimos encontros de singulares e o cansaço foi aumentando, mas com calma nos momentos decisivos tudo se resolveu. “A chave dos dois encontros foi manter-me calmo e ser agressivo. Neste último estava mais cansado, irritado e com alguma dificuldade em lidar com isso mas consegui manter-me calmo e melhorar o meu nível de jogo para dar a volta porque sentia que ainda não estava acabado.”

E o resto é história.

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No SPARKS Tennis Park Palmela, Fred Gil conquistou os dois títulos que estavam em jogo.

Por trás do sucesso recente há novas caras e ideias. Como contou ao Raquetc, tudo começou em Castelo Branco e de forma inesperada. “Nesse Future havia um fisioterapeuta, o Rui Nunes, que estava a fazer o torneio e a acompanhar um jogador brasileiro. Como nos demos bem acabámos por jantar fora todos juntos e eu partilhei com eles que um dos meus sonhos sempre foi ter um fisioterapeuta a full time, porque acho que no ténis faz toda a diferença para recuperar, preparar, alongar — às vezes até é mais importante do que um treinador. Disse-lhe isto no jantar, ele mostrou-se interessado e decidimos experimentar de forma descontraída no Porto Open.”

E foi aí que começou a segunda parte da nova aventura. “Ele perguntou-me se podia levar um amigo de férias e depois do primeiro treino que fizemos, quando estávamos a alongar na marquesa, disse-me o seguinte: ‘Olha que há pessoas que se calhar não conheces e que te podiam ajudar muito mais.’ Eu não percebi e perguntei-lhe o que é que ele queria dizer e ele contou-me que o amigo, Eduardo Rodrigues, é treinador, tirou vários cursos lá fora e que podia ser uma pessoa muito interessante para mim. Depois fomos almoçar, começámos a partilhar mais conversas, percebi que o Eduardo tinha empatia e sensibilidade e perguntei-lhe se queria experimentar, meio na brincadeira, ser meu treinador e eu jogador dele durante o torneio. Foi assim que começou e gostámos muito.”

No espaço de curtas semanas, Fred Gil e Eduardo Rodrigues — que até então trabalhava no Clube de Ténis de Castelo Branco — formaram uma equipa que rapidamente passou de derrotas que deixaram a desejar (primeira ronda do Porto — onde foi finalista em pares — e nas Caldas) para umas meias-finais e um título na Beloura e, mais recentemente, a dobradinha em Palmela.

Os resultados estão à vista e Fred Gil reconhece-o. “Sinto-me a melhorar no geral. Consigo ser mais agressivo, a minha esquerda a uma mão também me veio trazer mais antecipação e dinâmica e também procuro ir mais para a rede porque sinto que voleio muito bem. Pressiono o adversário e a este nível há muita malta que joga no fundo, no fundo, no fundo e que depois fica surpreendida quando o adversário sobe no campo. Mas também porque assim me poupo um bocadinho fisicamente, já que os pontos encurtam. Vê-se que o Federer com os seus 37 anos faz aqueles volleys todos, muito serviço-rede e slices para se poupar fisicamente e mudar o ritmo de jogo e também estou a implementar isso no meu ténis.”

Nos entretantos, o vice-campeão do Estoril Open 2010 também pondera um “regresso” ao Estádio Nacional do Jamor — palco que teve como base de treinos durante parte da adolescência e, mais tarde, nos trabalhos com treinadores como Bernardo Mota e Juan Esparcia e que dispõe de “excelentes condições para os atletas de alta competição”, como o próprio explica. “Temos acesso ao ginásio, aos campos, aos profissionais que lá trabalham e que vão desde equipa médica a nutricionista, fisioterapeutas e às provas físicas e avaliações que são necessárias.”

Os objetivos, esses, continuam a ser os que sempre teve: “Sempre sonhei em ser top 10 de juniores, top 50 de singulares, 100 em pares, fazer os 5 anos da reforma da ATP e chegar ao Grupo Mundial da Taça Davis. Desses, consegui atingir o primeiro, fui 62 em singulares, 105 em pares, fiz quatro anos da reforma e ficámos à porta do Grupo Mundial. A curto prazo quero voltar ao top 400 e depois continuar sempre a subir.”

E até a carreira para além da de jogador já está relativamente pensada: “Quero muito, muito, ser treinador de ténis, ter a minha academia e um dia ser selecionador da Davis Cup. Também quero organizar eventos e ser empresário, porque gosto muito de fazer negócios.”

Mas, para já, os objetivos dentro do campo. E esses passam por aplicar em Oliveira de Azeméis e Idanha-a-Nova — os palcos onde compete nas próximas semanas — a fórmula dos últimos dias.

Gaspar Ribeiro Lança
gasparlanca@raquetc.com | Dar palavras a um encontro de dois, três, quatro ou cinco sets, com ou sem tie-break. Dar palavras a recordes, a histórias. Dar ténis a todos aqueles que o queiram. E mais, sempre mais. Por isso depois chegaram o padel, o squash e o ténis de mesa. E assim cá estamos, no RAQUETC ("raquetecétera"). Como escreveu Fernando Pessoa nos anos 20, "primeiro estranha-se, depois entranha-se."