Opinião: Carlos Ramos foi Carlos Ramos (e é isso que faz dele um dos melhores do mundo)

Carlos Ramos e Serena Williams
Fotografia: USTA/Darren Carroll

Insultos, acusações, polémica. A final feminina do US Open transformou-se em tudo aquilo que não devia ser e no seio dos acontecimentos esteve uma discussão acesa de Serena Williams com o árbitro Carlos Ramos, que viria a influenciar o desenrolar dos acontecimentos e a manchar a festa de Naomi Osaka.

As finais de torneios do Grand Slam são momentos inesquecíveis e de extrema importância, pelo que a circunstância exigia um dos melhores árbitros do mundo. E foi isso que aconteceu, com a aposta no português a revelar-se mais do que acertada.

Carlos Ramos não errou – muito pelo contrário: teve os mesmos nervos de aço que fazem dele um dos melhores árbitros do circuito, não olhou a currículos quando chegou a altura de fazer o seu trabalho e seguiu os regulamentos. As suas decisões foram corretas e se deram origem a contestação não é por terem sido tomadas, mas sim porque Carlos Ramos é um dos poucos árbitros que se mantém fiel aos regulamentos e não hesita em cumprir o seu papel, mesmo que de um dos lados da rede esteja um dos grandes nomes do ténis.

Carlos Ramos esteve bem ao assinalar uma violação de código e dar o primeiro warning a Serena Williams. Patrick Mouratoglou foi visto a dar indicações para dentro do campo (mais tarte o próprio admitiu-o em direto na ESPN), uma habitual mas clara violação das regras e que, independentemente de ser compreendida e/ou pretendida pelo(a) jogador(a), deve dar origem a um warning por coaching.

O momento em que Patrick Mouratoglou é captado pelas câmaras a dar instruções a Serena Williams.

Carlos Ramos esteve bem ao assinalar a segunda violação de código e consequente point penalty a Serena Williams. Depois de falhar uma esquerda (que, contextualizando, permitiu a Osaka recuperar o break de desvantagem no segundo set), Serena Williams destruiu a raquete. Tratando-se de um primeiro episódio, a norte-americana teria recebido “apenas” um warning, mas sendo o segundo – e as regras são bastante claras, a destruição de material vai contra os regulamentos – tem de ser penalizada com um ponto, motivo pelo qual a adversária começou a servir com 15-0 no jogo seguinte.

2 - Point Penalty por destruição da raquete
Frustrada, Serena Williams atirou a raquete ao chão, acabando por quebrá-la de forma clara.

Carlos Ramos esteve bem ao assinalar a terceira violação de código e consequente game penalty a Serena Williams. Na troca de lados depois de Naomi Osaka fazer o 4-3, a norte-americana chamou “mentiroso” e “ladrão” ao árbitro português. Dizem as regras que “o abuso verbal define-se como uma afirmação que implique desonestidade, expressão depreciativa, insultos ou outra forma de abuso sobre um árbitro/oficial, adversário, patrocinador, espetador ou outra pessoa”, não restando dúvidas de que chamar “mentiroso” e “ladrão” ao árbitro de cadeira corresponde a uma violação do código.

3 - Game Penalty por ofensa verbal
O momento em que Carlos Ramos explica a Serena Williams as razões que o levaram a dar um game penalty. Nesta conversa, a norte-americana, incrédula, volta a chamar “ladrão” ao árbitro português.

Serena Williams errou ao levar os episódios para o lado pessoal. Ao transformar o cumprimento, por parte de Carlos Ramos, das regras que ela diz seguir num ataque sexista – que não foi. Carlos Ramos é conhecido pela sua lealdade aos regulamentos e, se assim o quisermos dizer, pela “coragem” que tem de os aplicar mesmo em momentos apertados ou quando do outro lado da rede estão lendas vivas do desporto. Já o fez com Rafael Nadal, já o fez com Novak Djokovic, ontem fê-lo com Serena Williams. E bem.

O árbitro português cumpriu as regras, penalizando Serena Williams por não as cumprir.

O comportamento da norte-americana em Flushing Meadows tem precedentes: em 2009, Serena Williams recebeu um point penalty quando enfrentava um match point frente a Kim Clijsters devido a comportamento impróprio para com uma das juízes de linha. Em 2011, durante a final frente a Samantha Stosur, a norte-americana envolveu-se numa discussão com a árbitra de cadeira Eva Asderaski, que devido à violação das regras a penalizou com a perda de um ponto. Na sequência, Serena chamou-lhe “perdedora” e acabaria por ser multada em 2.000 dólares.

A fechar, dois últimos comentários relacionados com a polémica que transformou o momento de festa de Naomi Osaka num autêntico pesadelo – a japonesa foi recebida com assobios no início da cerimónia de entrega dos prémios, onde chegou a chorar.

  • Patrick Mouratoglou é um dos treinadores mais experientes e conceituados do circuito. Ao dar indicações para dentro do campo – mesmo que, como o próprio indicou depois, seja “algo que todos os treinadores fazem a toda a hora” – está automaticamente a colocar em risco a sua jogadora, não só pelo warning mas (e sobretudo, como se viu) pela reação emocional a que pode dar origem. Também esteve mal, muito mal, ao apressar-se a tweetar, logo após a final, que “a estrela do espetáculo foi uma vez mais o árbitro de cadeira”, questionando ainda até quando terão os árbitros de cadeira influência no resultado do encontro. É na forma como lida com as derrotas que um campeão constrói a sua personalidade, e é importante recordar que o experiente e conceituadíssimo treinador francês tem uma das maiores academias do mundo, onde estão o número 1 e a número 1 mundiais de juniores. Mouratoglou tem de ser um bom exemplo.
  • O pseudo-comunicado de Katrina Adams, Presidente da United States Tennis Association, que organiza o US Open, deixa muito a desejar. Nele, elogia-se a atitude de Serena Williams durante a cerimónia de entrega dos troféus… E nada mais. Sem fazer referência ao comportamento errado da norte-americana, que despoletou toda a situação, Katrina Adams elogia “a grande classe e desportivismo” de Serena, que no momento de Naomi Osaka conseguiu acalmar as reações negativas que vinham das bancadas. Seguem-se mais elogios à tenista norte-americana quando, e sendo inegável a grandeza de Serena Williams, o seu legado no ténis e até o papel ativo que tem tido na defesa de direitos, as circunstâncias exigiam um olhar mais atento ao que aconteceu em campo.

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Gaspar Ribeiro Lança
gasparlanca@raquetc.com | Dar palavras a um encontro de dois, três, quatro ou cinco sets, com ou sem tie-break. Dar palavras a recordes, a histórias. Dar ténis a todos aqueles que o queiram. E mais, sempre mais. Por isso depois chegaram o padel, o squash e o ténis de mesa. E assim cá estamos, no RAQUETC ("raquetecétera"). Como escreveu Fernando Pessoa nos anos 20, "primeiro estranha-se, depois entranha-se."