Esplendor na Relva | “13 ilações pós-Wimbledon”, por Miguel Seabra

Depois de Wimbledon e antes do arranque da temporada norte-americana que conduz ao US Open, aqui ficam algumas ilações retiradas de um bloco de notas carregado durante duas semanas no All England Club. 

Por Miguel Seabra

Sexta-feira, 13

Quando me perguntaram o que desejava como presente no meu dia de aniversário, respondi que queria duas meias-finais em cinco sets – para tirar da boca o amargo de uma fase final de Roland Garros pouco emocionante. Tive o que queria. Naquela sexta-feira 13 jogaram-se as duas mais longas meias-finais na história de Wimbledon – sendo que uma delas só ficaria concluída no dia seguinte. Ao longo das minhas quase três décadas de jornalismo no ténis, e sobretudo nas últimas duas, Wimbledon tem-me proporcionado os momentos mais significativos, mais históricos, mais emocionantes. E pensei isso mesmo em várias ocasiões ao longo dessa jornada que se prolongou pela noite dentro até à interrupção obrigatória das 23 horas – mais precisamente 23h01, quando Novak Djokovic arrecadou o terceiro set do seu compromisso com Rafael Nadal.

Troika no poder

Com Andy Murray fora de cena há praticamente um ano devido a um tipo de lesão (na anca) que já determinou o fim de muitas carreiras, o chamado Big 4 deixou de ser uma realidade – mas o Big 3 tem reforçado seu estatuto entre os melhores de todos os tempos. Depois de, em Janeiro, Roger Federer ter conquistado no Open da Austrália o seu 20º título do Grand Slam, de Rafael Nadal ter somado em Roland Garros o seu 17º troféu do Grand Slam e de Novak Djokovic ter arrecadado em Wimbledon o seu 13º título do Grand Slam, o triunvirato impôs-se em 46 dos últimos 54 eventos do Grand Slam. Uma enormidade, apenas contrariada por Andy Murray (3), Stan Wawrinka (3), Juan Martin del Potro (1) e Marin Cilic (1).

Ultra-campeões com uniformidade

Aquando da minha juventude e após o fenómeno Bjorn Borg, retirado precocemente com 11 títulos do Grand Slam, qualquer jogador com 6 ou 7 títulos do Grand Slam era encarado como um supercampeão – como Stefan Edberg, Boris Becker, Mats Wilander, John McEnroe, Jimmy Connors ou Ivan Lendl. Quando se pensava que o elevar do nível médio do circuito tornaria tudo mais equilibrado, surge Pete Sampras no início da década de 90 e perfaz 14 títulos do Grand Slam em 2002, um recorde que se julgava inultrapassável. Mas logo na geração seguinte aparece Roger Federer, e depois Rafael Nadal, e depois Novak Djokovic… que logo saltaram para o lote dos melhores de todos os tempos e continuam a somar títulos maiores. Embora em circunstâncias diferentes. Para além da sua qualidade, acredito que a uniformização das superfícies de jogo (com relva e bolas mais lentas em Wimbledon e condições mais rápidas em Roland Garros) a partir do início do milénio contribuíram para que fosse mais fácil a Federer, Nadal e Djokovic multiplicarem os troféus nos quatro maiores eventos da modalidade, mesmo que o suíço tenha oito títulos na relva de Wimbledon, o espanhol some dez na terra batida de Roland Garros e o sérvio acumule oito entre os hardcourts do Open da Austrália e do US Open. Antes havia os especialistas puros e duros da relva ou da terra batida. Atualmente estamos na era dos todo-o-terreno.

Peso certo

No início da presente década, um elemento que então integrava a equipa de Novak Djokovic confidenciou-me que ele tinha alguns complexos físicos relativamente aos rivais Roger Federer e Rafael Nadal, e que se achava demasiado magro. Pelos vistos, o sérvio aceitou e até fomentou essa magreza que ele antes lamentava – banindo o glúten da sua alimentação e tornando-se ainda mais vegetariano nos últimos dois anos. Para quem só o conhece pela televisão, devo dizer que ao vivo Novak Djokovic é ainda mais delgado e em várias ocasiões a sua extrema magreza me surpreendeu, mesmo que o físico longilíneo seja o ideal para a modalidade (tanto que no final da década passada houve a moda de jogadores perderem entre 5 a 10 quilos para se tornarem mais rápidos); com o regresso de Marian Vajda (que saudei vivamente na crónica que escrevi a seguir à final), o sérvio recomeçou a comer peixe e ganhou dois quilos que se notaram e que tanto o ajudaram a recuperar o equilíbrio ideal.

Campeã com raça

Mesmo quando tanta gente catalogava Angelique Kerber como uma jogadora defensiva ou uma mera contra-atacante, sempre vi nela algumas qualidades notáveis que a poderiam tornar numa jogadora de excepção e muitas vezes fiz questão de o sublinhar nos meus comentários no Eurosport. Apesar de não ser dotada da técnica mais elegante (longe disso), ela pode atacar deliberadamente quando está para isso e sobretudo é capaz de ser extremamente agressiva a partir de situações defensivas – e é extraordinário o modo como ela, quando é obrigada a correr para os cantos, consegue sempre jogar de modo a forçar a adversária (supostamente em posição atacante) a grandes deslocações. E isso é mais do que ser apenas contra-atacante. O seu triunfo em Wimbledon prova que é uma todo-o-terreno e só lhe falta Roland Garros para um Grand Slam de carreira – tem os mesmos três títulos do Grand Slam nos mesmos torneios do Grand Slam do que Lindsay Davenport, mas as suas hipóteses de ganhar na terra batida parisiense são incomensuravelmente maiores do que as da americana antiga número um mundial.

Sempre em frente

E ao quarto torneio após o regresso ao circuito na sequência de um processo complicado de maternidade, Serena Williams atingiu a final de um torneio do Grand Slam. É incrível o que continua a fazer e sobretudo é incrível o modo como soube reinventar-se enquanto jogadora e pessoa sob a égide de Patrick Mouratoglou. É verdade que nos últimos tempos tem vindo a perder finais do Grand Slam que anteriormente raramente perdia (com Angelique Kerber e Garbiñe Muguruza em 2016, agora de novo com Angelique Kerber), mas que importa isso? Tem 36 anos, 23 títulos do Grand Slam e é sempre um privilégio vê-la no court, mesmo que não ganhe mais qualquer encontro na sua vida. Só que ainda vai ganhar muitos mais. E está cada vez melhor na pele de embaixadora da modalidade.

Pinceladas de génio

No décimo aniversário da final de 2008, considerada por muitos como o melhor encontro de ténis de todos os tempos (até mesmo pelos protagonistas da inesquecível final de 1980, que considero o mais emblemático embate de ténis de sempre), a BBC e o próprio torneio fizeram questão de recordar o épico duelo de 2008 entre Rafael Nadal e Roger Federer – que o meu colega Jon Wertheim celebrou no seu livro ‘Strokes of Genius’, agora transformado em documentário que pode ser visionado no iTunes. Vale a pena ir lá buscá-lo, essa final atingiu um estratosférico nível de jogo e intensos índices de dramatismo: cheguei mesmo a ficar asfixiado, sem conseguir respirar momentaneamente. Já agora, também vale a pena dar umavista de olhos na lista que elaborei (publicada a meio da quinzena, aqui no Raquetc) sobre as melhores finais de Wimbledon na Era Open.

Mestre mergulhador

Desde o início do ano que venho dizendo que Stefanos Tsitsipas é o jovem mais empolgante da nova geração, reforcei essa opinião após ter jogado consecutivamente a final de Barcelona e a meia-final no nosso Millennium Estoril Open, e redobro o sentimento após tê-lo visto jogar in loco em Wimbledon – aquela esquerda a uma mão é uma maravilha, o rapaz tem pose e postura, tem uma auréola especial e é atualmente o jogador que mais mergulha no circuito (como fiz questão de lhe dizer). Os vóleis em mergulho, como aquele que fez num momento crucial dos quartos-de-final do Millennium Estoril Open (no tie-break do terceiro set), foram frequentes na relva do All England club e os seus encontros tinham sempre lotação esgotada. Mais do que isso, o público estava completamente rendido ao seu carisma. Para além disso, é extremamente educado e gosta muito de Portugal…

Ténis empolgante

Na vertente feminina, o meu foco na nova geração centra-se na russa Daria Kasatkina. É um regalo vê-la jogar com elegância, com fluidez e sobretudo com criatividade. Não sei se ganhará um ou muitos títulos do Grand Slam, mas é uma jogadora de ténis na mais pura aceção do termo 8e excelente jogadora não significa obrigatoriamente grande campeã). Estejam atentos…

A polémica do tie-break

Sou tradicionalista, gosto que a partida decisiva em torneios do Grand Slam não seja decidida num tie-break mas num set longo. Mas, sentado no Centre Court a ver a meia-final entre Kevin Anderson e John Isner, e olhando para o público à minha volta à medida que a quinta parida ia avançando até aos 26-24, fiquei com a certeza absoluta que é mesmo preciso haver um tie-break – gostaria que fosse aos 12-12, mas se for aos 6-6 como no US Open teremos todos os torneios do Grand Slam com score normalizado e também gosto dessa perspetiva. De qualquer das formas, após aquela sexta-feira 13 acho mesmo que em breve – próximo ano? – será instaurado o tie-break no set decisivo também no Open da Austrália, em Roland Garros e Wimbledon.

Guilhotina dos cabeças-de-série

A passagem dos 16 para 32 cabeças-de-série em torneios do Grand Slam surgiu na década de 90; no ano passado determinou-se que o número de pré-designados iria regressar aos 16 para, supostamente, haver mais emoção nas primeiras rondas. Qual quê? Para mim, trata-se de um tremendo disparate. E isso viu-se em Wimbledon: Entre os 64 cabeças-de-série (32 no masculino, 32 no feminino), houve 21 que caíram na primeira ronda. Deixem-se de coisas…

A regra dos 25 segundos

Há quatro anos, quando estive três dias em Mallorca para uma reportagem sobre Rafael Nadal, ele disse-me em resposta à polémica do tempo excessivo que demorava entre os pontos: “Miguel, quando no final do ano vês as melhores jogadas da temporada elas são todas longas, não há nenhum ponto escolhido com duas ou três pancadas. Se não podemos ter tempo suficiente entre os pontos não há jogadas longas e não há jogadas dessas que ficam na memória”. Em Wimbledon insistiu que o ténis é um jogo de estratégia, sendo necessário pensar o jogo entre os pontos. E Toni Nadal vem agora reforçar que encurtar o tempo entre os pontos não beneficia os jogadores inteligentes. Eu respondo ao tio: quem é inteligente pensa depressa e bem – e tanto o sobrinho como Roger Federer e Novak Djokovic são demasiado inteligentes para precisar de 25, 30 segundos entre os pontos.

Primus Inter Pares

Os torneios do Grand Slam são quatro e todos eles dão os mesmos pontos para o ranking, mas Wimbledon mantém-se como o melhor e mais significativo torneio de ténis do mundo – em praticamente todos os parâmetros de avaliação. O resto, como se costuma dizer, é conversa…

Djokovic está de volta

É uma ilação mais do que óbvia e já dissecada na minha crónica anterior [para ler aqui].

Miguel Seabra
Miguel Seabra é jornalista de ténis desde 1990 e comentador de ténis no Eurosport desde 2003. Foi editor das publicações Ténis Europeu, Jornal do Ténis e ProTénis. Foi campeão nacional universitário de ténis, treinador e árbitro internacional. É igualmente jornalista especializado em relojoaria mecânica, sendo editor da revista Espiral do Tempo. Assegura que não há nada melhor do que ter as suas paixões por profissão.