Esplendor na Relva | “O febril, o resignado e o mergulhador”, por Miguel Seabra (em Wimbledon)

O meu primeiro dia na 132ª edição de Wimbledon foi passado longe dos palcos principais do All England Club – e perto não só dos portugueses como também do mais interessante jogador da NextGen.

Miguel Seabra, em Wimbledon

Se há torneio em que vale quase mais a pena pagar (muito menos) por um bilhete de recinto em vez de um ingresso para os courts principais, esse torneio é Wimbledon… durante a primeira semana. Para que a relva não sofra demasiado com um número excessivo de encontros por dia e possa chegar às fases mais adiantadas de modo relativamente apresentável, geralmente só são escalonados três embates por jornada no Centre Court e no Court 1 – pelo que, nas primeiras rondas, há muitas vedetas que não cabem nessa programação e são espalhadas pelos campos secundários de acesso livre para quem compra um bilhete genérico. E não há nada como pulular de court para court no All England Club para absorver bem o ambiente único da Catedral do Ténis, especialmente quando a meteorologia está excelente.

Na jornada inaugural da 132ª edição do mais prestigiado torneio de ténis do mundo brilhou um sol como não se tem visto muito em Portugal nos últimos tempos. E os dois melhores tenistas portugueses faziam a sua estreia, outro motivo – e o principal – para que no primeiro dia não eu tivesse metido os pés no Centre Court, depois de ter lá ido espreitar o ambiente (como um peregrino a prestar homenagem à catedral) na véspera do arranque da competição. É raro dois representantes lusos jogarem no mesmo dia em torneios do Grand Slam e é ainda menos comum uma situação em que estão a jogar ao mesmo tempo, mas João Sousa e Gastão Elias chegaram a sobrepor-se na sua estreia em Wimbledon… infelizmente, sem o resultado mais esperado na perspetiva portuguesa.

João Sousa começou no Court 11 diante do ucraniano Sergiy Stakhovsky e rapidamente se viu a perder, mostrando não só incredulidade com o rumo dos acontecimentos mas também apanhando todo e qualquer motivo para descarregar a sua frustração. Já se sabe que João Sousa é extremamente competitivo e que tem uma maneira muito especial de lidar com a pressão; desde muito cedo, e mesmo estando a ganhar, sempre foi extremamente expressivo e especialmente ‘verbal’ – claro que também tem trabalhado muito ao longo da última década para melhorar esse aspeto comportamental, mas a verdade é que também chegou onde chegou devido à sua genica e irreverência. E o certo é que, muitas vezes, depois de descarregar a frustração ele esquece o que fica para trás e consegue concentrar-se no que vem a seguir…

Mas, contra Sergiy Stakhovsky, João Sousa entrou num loop nocivo que o impediu de produzir o seu melhor ténis durante dois sets e meio – protestando consigo mesmo, com o seu adversário ucraniano, com o árbitro de cadeira Carlos Bernardes, com os calções e até mesmo com o seu treinador Frederico Marques. Sergiy Stakhovsky não é um jogador qualquer e pode ser mesmo considerado um puro especialista de superfícies relvadas porque o seu jogo parece ter sido talhado para seguir os trâmites clássicos do protótipo do jogador de relva mesmo que nunca tenha passado da terceira ronda no All England Club – aliás, foi um dos poucos a lograr derrotar Roger Federer em Wimbledon ao longo dos últimos quinze anos (desde o primeiro título do campeoníssimo suíço, em 2003, só cinco o conseguiram). Com o court completamente novo e o ressalto a deslizar baixinho, a tarefa do vimaranense complicou-se…

No ano passado, João Sousa esteve muito perto de uma liderança de dois sets a zero e acabou derrotado em quatro partidas pelo germano-jamaicano Dustin Brown, também ele um jogador com caraterísticas para ser catalogado especialista de relva. Diante de Sergiy Stakhovsky, João Sousa começou por ter dificuldades com a variação de jogo e subidas à rede do opositor; o ucraniano serviu bem para as linhas e à figura, alternando o slice com bolas mais chapadas – para além disso, utilizou bem o amortie e o português quase nunca encontrou solução para essas bolas mais curtas e amortecidas, muitas vezes levantando a bola para ser castigado com um smash quando várias vezes deveria ter jogado à figura para apanhar o opositor de 1m93 desprevenido. E chegou a queixar-se da sua falta de toque: “Porque é que eu não tenho mãos?”.

João Sousa falou tanto que duas (atraentes) jovens alemãs ao meu lado não paravam de me pedir a respetiva tradução – e, evidentemente, lá lhes prestei esse serviço. No primeiro set houve um ponto em que uma bola lhe caiu dos calções e a partir daí não mais deixou de se queixar do facto de as bolas andarem a badalar no bolso, incomodando-o… Curiosamente, o adversário tinha exatamente os mesmos calções da mesma marca (a Lotto). Também se queixou do facto de o opositor frequentemente voltar a apanhar a bola após o lançamento, mas em abono da verdade isso talvez fosse mais de atribuir ao vento que se fez sentir do que a qualquer tentativa de desestabilização.

Experiente, Sergiy Stakhovsky também soube ‘picar’ o português, começando por fazer ruído na execução de um vólei fácil para imitar o som que João Sousa normalmente faz quando bate bolas no fundo do court. Também estava constantemente a perguntar ao juíz-de-cadeira brasileiro (chegou mesmo a ser chamado ao court o supervisor Andreas Egli) o que João Sousa ia vociferando – e, em abono da verdade, algumas dessas coisas (sobretudo os reparos sobre o adversário) até poderiam ser sancionadas no âmbito do código de conduta. Na maior parte dos casos era frustração pura e sobretudo o reconhecimento de que mentalmente não estava tranquilo: “tenho a cabeça a fervilhar!”, “apetece-me destruir a raquete em 20 pedaços!”.

Lentamente, João Sousa lá foi assentando o seu jogo e conseguiu fazer um break no terceiro set, que perdeu e depois recuperou para fechar a terceira partida. Sergiy Stakhovsky baixou de intensidade, também desgastado pelas correrias no fundo do court a que o português o forçava de modo cada vez mais frequente. O encontro ficou igualado após um quarto set sucinto e as perspetivas lusas para a quinta partida eram boas… mas cedo se notou que o ucraniano tinha reservado as suas forças para a ponta final. E pareceu espicaçado com o apoio vocal do contingente português (destacando-se à beira do court o treinador Frederico Marques e o irmão, o agente Miguel Ramos, o presidente federativo Vasco Costa e mulher, a vice-presidente Filipa Caldeira, o diretor do Millennium Estoril Open, João Zilhão), muitas vezes pontuando os seus pontos com um sonoro “vamos!” e gestos direcionados para os portugueses.

Entretanto, João Sousa e Frederico Marques pareceram não concordar com a melhor táctica a seguir – o treinador pedia que explorasse mais a direita do antagonista (também era a minha opinião), o jogador respondia que tinha ganho o terceiro e o quarto sets a insistir sobre a esquerda. O certo é que Sergiy Stakhovsky conseguiu o break que lhe permitiu chegar à vitória (inevitavelmente, houve uma ríspida troca de palavras entre ambos depois de se cumprimentarem à rede).

Números de destaque na vitória por 6-3, 6-3, 5-7, 1-6, 6-4: os 20 ases do ucraniano e, sobretudo, os 17 breakpoints por ele salvos (de um total de 22; ao invés, concretizou 5 de 11 oportunidades de break, metade das que o vimaranense teve).

Roger Federer
Fotografia: AELTC/Florian Eisele

Enquanto isso…

João Sousa começou a jogar às 11h30 e, no decurso do seu encontro de 3h30, Roger Federer entrou às 13 horas para cumprir a tradição de o campeão masculino em título estrear o Centre Court na primeira segunda-feira (a campeã feminina estreia a programação da primeira terça-feira), espantar o mundo com um novo visual (após mais de 20 anos, passou da Nike para a Uniqlo num contrato de 300 milhões) e vencer rapidamente Dusan Lajovic; entretanto, no Court 4 já jogava há algum tempo Gastão Elias diante de Guillermo Garcia-Lopez – era o segundo embate escalonado para esse campo e felizmente que o primeiro, do torneio feminino, só foi resolvido ao cabo de três partidas, pelo que ainda me foi possível ir para lá acompanhar uma boa fatia do encontro. E vi um Gastão Elias algo descrente.

Mais do que descrente, pareceu-me resignado. Tentou prolongar as jogadas e atacar no momento certo, mas o jogo de paciência não deu resultado e a maior parte dos ataques saldaram-se por erros. As suas trajetórias demasiado altas sobre a rede também não são eficazes sobre a relva e Guillermo Garcia-Lopez foi avançando no marcador sem problemas de maior.

Há mais de uma dúzia de anos que vejo Gastão Elias competir em Wimbledon – desde as suas participações na competição juvenil. Não gostei de o ver tão resignado e triste. Espero bem que recupere confiança, após estes últimos tempos a contas com lesões e resultados menos bons. Portugal precisa dele.

Stefanos Tsitsipas
“El Greco”, que é hoje em dia o jogador que mais mergulha para fazer vóleis, somou a primeira vitória da carreira em Wimbledon | Fotografia: AELTC/Tim Clayton

Finalmente…

Depois dos portugueses, optei por ir para o mítico Court 18 (o tal do Encontro Mais Longo De Todos Os Tempos, jogado em 2010 entre John Isner e Nicolas Mahut) e sentar-me ao lado da entourage de Stefanos Tsitsipas no encontro do jovem grego que tanto tem impressionado a crítica (e os portugueses, chegando às meias-finais do Millennium Estoril Open) diante do francês Grégoire Barrère, vindo da fase de qualificação.

‘El Greco’ já goza de grande popularidade e admiração por parte dos adeptos e, de facto, tem tudo para ser uma das principais vedetas do circuito profissional nos tempos mais próximos. Ganhou os dois primeiros sets mas as coisas complicaram-se, cedendo o tie-break do terceiro set apesar de um espetacular mergulho para um vólei. Subitamente, tornou-se difícil para mim estar onde estava – o pai, a mãe (que fiquei a conhecer relativamente bem durante o Millennium Estoril Open), os treinadores da Academia Mouratoglou, o agente e os acompanhantes não se calavam nos incentivos – não só na língua do pai, em grego, e da mãe, em russo, mas também em inglês e francês. Constantemente, após cada ponto. Quase de modo insuportável. Stef lá conseguiu isolar-se de tanto estardalhaço, mesmo que a certa altura me tenha parecido ter dito em grego para o pai Apostolos parar um pouco, e acabar por ganhar por 6-3, 6-4, 6-7 e 7-5.

E fechei o dia tenístico com a conferência de imprensa do Stan Wawrinka, que entretanto tinha rubricado a melhor vitória desde o seu regresso após operação aos joelhos ao derrotar Grigor Dimitrov em quatro partidas, e do próprio Stefanos Tsitsipas, que me elogiou junto dos meus colegas dizendo que eu era o “melhor on-court presenter do circuito juntamente com o de Roland Garros”, antes de rumar ao bar de imprensa para ver o embate do campeonato do mundo de futebol entre a Bélgica e o Japão com amigos jornalistas belgas e japoneses. Um espetacular jogo de fortes emoções a concluir uma bela jornada que só não foi melhor porque… os portugueses perderam.

Miguel Seabra
Miguel Seabra é jornalista de ténis desde 1990 e comentador de ténis no Eurosport desde 2003. Foi editor das publicações Ténis Europeu, Jornal do Ténis e ProTénis. Foi campeão nacional universitário de ténis, treinador e árbitro internacional. É igualmente jornalista especializado em relojoaria mecânica, sendo editor da revista Espiral do Tempo. Assegura que não há nada melhor do que ter as suas paixões por profissão.