Depois da consagração, a destruição (literal): sem tempo a perder, palco icónico de Roland Garros vai abaixo

Court Philippe Chatrier
Fotografia: FFT

Não, não é falso alarme: o court Philippe Chatrier, que este domingo serviu de palco à 11.ª vitória de Rafael Nadal em Roland Garros, vai ser destruído. E o mais provável é que quando o leitor por aqui passar já esteja mesmo a ser intervencionado pela equipa, que não tem tempo a perder e planeava começar os trabalhos assim que a final masculina ficasse concluída.

É o fim de uma era. “De pé” desde 1928, ano em que ficou pronto para acolher uma eliminatória da Taça Davis, o court principal do Grand Slam parisiense vai abaixo mas promete voltar. Porque a destruição tem um fim, e só um fim — a remodelação do complexo tem conclusão prevista para 2021 e é “encabeçada” pela instalação de uma cobertura e sistema de iluminação nos campos principais.

Christopher Clarey, do The New York Times, escreveu um artigo no qual explica as várias mudanças que vão acontecer no Stade Roland Garros ao longo dos próximos 350 dias — porque tudo terá de estar pronto para a próxima edição do torneio.

Ao contrário do que aconteceu na Rod Laver Arena, no Centre Court ou no Artur Ashe Stadium — os três maiores palcos do Australian Open, de Wimbledon e do US Open, respetivamente –, o court central de Roland Garros não vai levar “só” uma cobertura: vai ser deitado abaixo quase por inteiro para depois ser reconstruído conforme o novo projeto, que já vem sendo pensado, e até trabalhado, há vários anos. Em 2017, por exemplo, as primeiras filas de cadeiras foram retiradas para que uma parede de cimento com 40 metros de comprimento e 20 de profundidade pudesse ser construída tendo em conta as construções futuras.

“Vamos estar a trabalhar das 7 da manhã às 10 da noite, seis dias por semana e durante três meses também à noite”, partilhou Gilles Jourdan, o responsável pelo projeto de modernização de Roland Garros. E o engenheiro não exagera quando o diz: este fim de semana, os funcionários da Federação Francesa de Ténis que trabalham diariamente nas instalações do court Philippe Chatrier foram instruídos a esvaziar os seus escritórios para que, na segunda-feira, cerca de 100 trabalhadores possam chegar ao espaço e rever tudo o que resta para decidirem o que deve ser guardado ou deitado fora.

Ao mesmo tempo, outros 100 trabalhadores estarão a desmontar as cerca de 15.000 cadeiras do court, que serão substituídas (à semelhança do que já aconteceu no court Suzanne Lenglen a tempo desta edição).

O processo de demolição do estádio, em si, começará no mês de julho, com cinco escavadoras, mas entretanto já há “partes” a irem abaixo: a sala onde anualmente centenas de jornalistas trabalham é um exemplo, com os que este ano marcaram presença na grande final a serem, inclusive, convidados para a “Festa da Destruição”.

Quanto à cobertura, que não fechará totalmente o estádio (“é um chapéu de chuva, não um telhado” — vai estar a 2 metros do court, “para evitar problemas de ventilação e humidade e manter as sensações de um torneio ao ar livre, porque o somos”), será colocada entre as edições de 2019 e 2020, com o início de sessões noturnas apontado para 2021 de forma a precaver imprevistos — até porque o plano inclui construir postes que recolham durante o dia e surjam gradualmente à medida que o sol se põe.

A 26 de maio de 2019 tudo terá de estar pronto. Não necessariamente finalizado, porque como Jourdan afirma “não será o fim do mundo se um court tiver menos 1.000 lugares numa edição”, mas em condições para que se possam abrir as portas a dezenas de milhares de espetadores por dia.

Um complexo, muitas mudanças

A destruição e reconstrução do Court Philippe Chatrier pode ser a obra mais vistosa a acontecer no Stade Roland Garros, mas está longe de ser a única: prevista está, também, a construção de um “show court” com a capacidade para 5.000 espetadores, “sub-enterrado” e rodeado de quatro paredes por estufas de vidro que estão prestes a ficar concluídas. De acordo com Clarey, “será o court mais avant-garde e um dos mais intímos do ténis profissional.”

Gaspar Ribeiro Lança
gasparlanca@raquetc.com | Dar palavras a um encontro de dois, três, quatro ou cinco sets, com ou sem tie-break. Dar palavras a recordes, a histórias. Dar ténis a todos aqueles que o queiram. E mais, sempre mais. Por isso depois chegaram o padel, o squash e o ténis de mesa. E assim cá estamos, no RAQUETC ("raquetecétera"). Como escreveu Fernando Pessoa nos anos 20, "primeiro estranha-se, depois entranha-se."