Rui Neves: o grande protagonista dos bastidores do ténis no Millennium Estoril Open

Sob a supervisão de Roger Federer, Rui Neves prepara a raquete de Kyle Edmund

ESTORIL – Entre toda a azáfama que caracteriza o Millennium Estoril Open é fácil passar ao lado de um tipo muito específico de protagonista: aqueles que mesmo longe de toda a ação têm uma tremenda influência no decorrer do jogo. Nos meandros dos bastidores do ténis, surge um personagem principal chamado Rui Neves — o encordoador das estrelas que visitam o nosso país ano após ano.

Do alto dos seus 52 anos de idade (dos quais 36 como encordoador), Rui Neves já testemunhou todos os grandes marcos do ténis nacional. Desde os primórdios do Estoril Open até ao recente feito histórico protagonizado por João Sousa, esteve sempre lá, a trabalhar afincadamente para que as raquetes potenciem – sem a mínima falha – todo o talento dos atletas que o procuram. Como o próprio viria a contar: “A este nível qualquer grama faz a diferença”.

Intrigados e munidos de um interesse enorme em conhecer a história deste ‘mestre das raquetes’, o RAQUETC foi ao seu encontro no próprio local de trabalho: o stand da Wilson.

stand wilson

À chegada não podíamos ser brindados com melhor cenário: enquanto manobrava habilmente uma raquete na sua máquina, por trás surgia um poster gigante de Roger Federer, exprimindo um olhar atento, como se estivesse a contemplar serenamente uma obra de arte (ver foto de destaque).

Após a raquete ser terminada e embalada, Rui Neves veio ao nosso encontro, exibindo desde o primeiro momento um sorriso e uma simpatia contagiante. “Esta é do Kyle Edmund”, começou por referir aludindo ao seu mais recente trabalho.

A conversa teria de começar, naturalmente, pela origem do seu ofício. Como o próprio recorda, a encordoação surgiu acima de tudo por necessidade. “Eu nasci e cresci no ténis, no estádio nacional. Comecei a jogar aos 13 anos, e na altura era um rapazinho grande e partia muitas cordas”, lembrou antes de continuar. “Então a minha mãe, como o dinheiro não era muito, disse-me ‘olha, tu devias era aprender a fazer as encordoações nas raquetes, o teu padrinho ensina-te e quem sabe se isso não poderá ter futuro”.

Rui Neves já trabalhou com inúmeras raquetes, desde as suas próprias em ‘miúdo’, até às de Federer ou Djokovic

E assim, aos poucos, começando pelas suas próprias raquetes e passando mais tarde a cuidar das dos seus amigos, nasceu aquele que viria a tornar-se um ícone dos bastidores do ténis nacional. Hoje, Rui Neves – além de revelar ter “uma relação muito boa com os nossos jogadores” – conta humildemente que já trabalhou com os maiores nomes do ténis mundial, incluindo Roger Federer, Novak Djokovic e Dinara Safina.

Para o espetador comum, a encordoação de raquetes e a sua importância pode tratar-se de um tópico desconhecido. E de facto, no meio de toda a espetacularidade que se vive dentro do court, os detalhes como este passam para um papel secundário – e por consequência – não tão abordado. Contudo, a tensão inerente às cordas, é um aspeto absolutamente fundamental no jogo. E quem melhor para elucidar os leitores, se não o próprio especialista máximo?

“Tem a ver com a forma como eles jogam. Eles definem uma tensão que se sentem mais confortáveis e depois ajustam conforme as condições climatéricas [exemplo: mais calor = mais distensão nas cordas = mais tensão necessária], normalmente um quilo a mais ou a menos conforme a chuva e o piso. A este nível qualquer grama faz a diferença”, explicou.

Rui Neves 1

A título de curiosidade, Rui Neves ainda nos abre o véu no que toca às especificidades requeridas pelos tenistas presentes no Estoril durante a semana transata. Enquanto a média de tensão se situa nos 22 kg, Simone Bolelli figura como o atleta que entra no court com as cordas mais tensas, chegando aos 28,5 kg. Já no polo oposto, o ex-número um mundial Lleyton Hewitt foi a jogo com apenas 16 kg. Adicionalmente – e por falar em antigos líderes da hierarquia – o encordoador ainda recorda Thomas Munster, que exigia uma tensão estonteante de 40 kg.

Para terminar a conversa, não resistimos em questionar relativamente às queixas que eventualmente podem ter surgido ao longo destes incríveis 36 anos de prática. “Houve várias”, começou por admitir entre risos. “Ás vezes há enganos com tensões ou com a passagem das cordas, que pode acontecer porque são muitas raquetes”, concluiu.

António Vieira
Natural de Lisboa e licenciado em Gestão, vê no Ténis uma extraordinária modalidade com vasto potencial a ser explorado em Portugal. Tem como principal objetivo a contribuição no seu crescimento partilhando com o Mundo a sua espetacularidade.