Martina Navratilova e Chris Evert analisam o estado do ténis feminino e prevêem 2018

A semana em que aconteceu já lá vai — foi durante o WTA Finals de 2017 –, mas é agora que a nova temporada está sobre rodas que a análise de Martina Navratilova e Chris Evert ao estado do ténis feminino e a previsão a 2018 fazem mais sentido.

Outrora adversárias dentro do campo, onde foram protagonistas de uma das mais entusiasmantes rivalidades da modalidade, as ex-tenistas norte-americanas estiveram “frente a frente” — apenas separadas pelo “moderador” Andrew Krasny — e o resultado é imperdível:

Entrevistador: Que jogadora tem o melhor primeiro e segundo serviço do circuito?

Martina Navratilova – Os dois combinados? Primeiro e segundo serviço? Karolina Pliskova. Ela tem todos os serviços: chapado, em top-spin, em kick, em slice, e tem força, então consegue variar a velocidade no primeiro serviço tal como a colocação.

Chris Evert – Se a Serena estivesse a jogar ela teria o melhor serviço, mas eu concordo com Karolina Pliskova. É tão alta que a trajetória é diferente, o ressalto é mais alto no serviço e isso causa muitos problemas às suas adversárias e a Serena disse isso quando perdeu com ela no US Open.

Entrevistador: Que jogadora tem maiores probabilidades de ganhar o seu primeiro torneio do Grand Slam em 2018?

Chris Evert – Vou escolher a Simona Halep porque poderia ter ganho três Grand Slams este ano. Ela teve azar, devia ter vencido Roland Garros. Em Wimbledon teve aquele encontro difícil com a Konta e se tivesse ultrapassado isso e jogado com a Venus na final acho que poderia ter vencido. Por ter tido azar e ser número um agora, vai deixar tudo fluir e ficar motivada.

Martina Navratilova – Como dizia uma boa amiga minha, “tu fazes a tua própria sorte” e a Simona não fez isso, não apareceu nos grandes momentos e acho que Karolina Pliskova tem essas armas e talvez seja mais estável mentalmente. Por isso a minha escolha é a Karolina.

Entrevistador: Que jogadora no ativo tem a melhor direita? Quando dizemos jogadora no ativo, a Serena ainda está em licença de maternidade.

Chris Evert – A Venus Williams. É a pancada mais desenvolvida dela. Ela está a bater na bola com potência e a adicionar um pouco de top-spin para esta ir dentro, por isso está a ser consistente. A sua bola de aproximação à rede tem sido incrível.

Martina Navratilova – Acho que a Venus Williams, porque fez os movimentos das pancadas mais pequenos, ela “pescava” com a raquete, tem um braço longo e as pancadas eram enormes e agora encolheu-as e estão mais limpas. Continua a gerar potência mas tem pancadas muito mais sólidas.

Entrevistador: Que rising star vai fazer o seu ‘lançamento’ em 2018? Alguém que ainda está fora do top30 que e está prestes a fazer essa transição.

Chris Evert – Vou dizer Naomi Osaka, ela jogou encontros renhidos com jogadoras do top10, tem potência e precisa de amadurecer e escolher melhor as pancadas. Ainda joga um pouco reto, não digo que não o deva fazer nunca. Ela é uma boa atleta e gera muita velocidade.

Martina Navratilova – DariKasatkina. Ela está fora do top30 e eu gosto dela. É atlética e competitiva e tem garra. Acho que tem um jogo bastante completo. Ainda não está lá.

Entrevistador: Que jogadora no ativo tem a melhor esquerda?

Martina Navratilova – A Halep não é suficientemente agressiva com a esquerda. Escolho a Garbiñe Muguruza.

Chris Evert – Eu também. Acho que é a GarbiñeMuguruza e acho que o vimos em Wimbledon, especialmente na esquerda dela ao longo. Ela é tão forte que põe muita potência na pancada. É a pancada mais natural dela.

Entrevistador: Quem fez o maior ajuste no seu jogo para chegar ao top-10 ou para regressar ao top-10?

Martina Navratilova – Tenho de dizer a Caroline Wozniacki. Quando as coisas lhe correm bem ela acerta na velocidade do serviço, entra mais na bola na direita, está mais próxima da linha de fundo e é mais agressiva. Ela está mais proativa.

Chris Evert – Caroline Wozniacki. Não teve um ano bom no ano passado e este ano chegou se à frente. Está a bater mais reto e a acelerar mais a raquete. Adoro o serviço dela. O serviço está mais reto e está a jogar fora da zona de conforto, mais agressiva e isso encaixa-lhe bem.

Entrevistador: Que duas jogadoras vão desenvolver a próxima grande rivalidade?

Chris Evert – Eu digo a Serena e a Muguruza. Não sei porque digo isso, apenas veio-me à cabeça. A Muguruza, tem tudo o que é preciso no seu jogo, a sua cabeça tem-na impedido de ganhar mais jogos e ser uma líder, mas acho que as duas podem ter uma boa rivalidade.

Martina Navratilova – Vou dizer Muguruza e Pliskova, têm as duas pancadas muito fortes, são da nova geração e jogarão mais ténis. A Serena vai voltar, mas quanto mais tempo irá jogar? São muitas incertezas. Concordo com a Muguruza, ela tem tudo.

Entrevistador: O que vai acontecer em 2018?

Martina Navratilova – A Serena vai voltar e ganhar um Grand Slam e outra pessoa vai ser número um no final do ano e eu escolho a Pliskova ou a Muguruza. Tenho de escolher as que batem forte na bola.

Chris Evert – Prevejo que a Venus acabe a carreira até ao fim do próximo ano. Acho incrível o ano que ela teve, mas ela ainda tem outro ano à frente e a competição está a ficar muito mais forte. Quanto mais é que ela tem para dar? Acho que vai ser um fim de carreira. Vai ser um ano de sucesso para o ténis feminino. Se a Serena, a Azarenka, a Kvitova e a Maria voltarem, e com todas estas jogadoras novas, vais ser inacreditável. Eu não sei como é que a Serena vai voltar. Se ela pode ganhar um Grand Slam? Claro que pode, mas acho que não vai jogar o calendário inteiro ao ter uma criança.

Entrevistador: Que mudanças? Há alguma coisa que gostariam de ver mudado?

Martina Navratilova – Retirarem a regra do LET, por favor. Talvez também trazer a regra do shot clock, porque é muito imprevisível. O arbitro decide quando dizer ‘tempo’ e é muito arbitrário. Quando experimentaram no US Open juniores e lendas, os fãs gostaram. É excelente, sabes exatamente onde tens de estar, quando tens de pôr a bola em jogo e tira aquele batimento e lançamento de bola porque só tens uma oportunidade de lançar a bola e, se não bateres a bola é falta. As pessoas vão começar a acertar os serviços e precisam de controlar isso melhor, se não conseguem sofrem uma penalização.

Chris Evert – Não gosto dos dez minutos em que os jogadores saem do campo. Às vezes são oito, nove, dez minutos que estamos à espera deles. É mau para a televisão, as pessoas desligam a televisão. É uma pausa de casa de banho por amor de deus. Acho que as lesões têm de ser mais bem supervisionadas e decidir se são cãibras ou se é ansiedade e te sentes tonto.

Martina Navratilova – Quantas vezes saíste do court para ir à casa de banho durante um encontro?

Chris Evert – Nos meus 18 anos de carreira, nunca saí. Nunca saí do campo uma única vez para ir à casa de banho.

O vídeo deste “debate” pode ser visualizado aqui:

Pedro Cunha
O ténis apareceu na minha vida como apenas mais um desporto mas rapidamente o cheiro das bolas e o pó cor de laranja da terra batida onde pratico tornaram a minha vida melhor. Desde o som das pancadas, ao simples abrir de uma lata nova de bolas, tudo neste desporto tem encanto.