Final entre Vizinhos | “A saga continua…”, por Miguel Seabra (em Lille para a final da Taça Davis)

Fotografia: Corinne Dubreuil/ITF

A recente final da Taça Davis ficou decidida ao cabo do quinto encontro. Aqui ficam cinco notas finais sobre a cimeira fronteiriça de Lille.

1. Carisma vale muito…

Os mais novos não terão uma ideia precisa de quem é Yannick Noah e a aura que o rodeia – afinal de contas, o último tenista masculino francês a ganhar um título do Grand Slam (e logo perante o seu público, em Roland Garros 1983) não tem andado propriamente no meio tenístico ao longo das duas últimas décadas, exceptuando algumas exibições aqui e ali na companhia dos seus colegas de pândega Henri Leconte e Mansour Bahrami.

Até há bem pouco tempo, Yannick Noah gostava de dizer que já não era tenista, que era cantor. Um cantor que vendeu milhões, se faz favor! Já tinha carreira de sucesso quando assumiu o papel de capitão para levar a seleção francesa à conquista do troféu em 1991, graças a um transcendental Henri Leconte que crucificou Pete Sampras e virou de pantanas a famosa final de Lyon: a celebração da equipa foi feita com danças ao som do seu hit ‘Saga Africa’. Cinco anos mais tarde, voltou a conduzir a sua banda ao extraordinário triunfo em Malmoe – estragando a despedida de Stefan Edberg, que até se lesionou: os dois encontros de singulares de domingo foram a cinco sets e as longas maratonas empurraram a decisão para perto da meia noite, arruinando os deadlines numa altura em que os jornais fechavam cedo. E numa altura em que ainda não havia internet… lembro-me também que eu, então um jovem repórter, ganhei respeito dos meus veteranos colegas ao descobrir que aquela era a primeira final de sempre na Taça Davis a ser decidida no quinto set do quinto encontro – com Arnaud Boetsch a salvar matchpoints e a superar cãibras para dar o triunfo à França.

O discurso de Yannick Noah foi notável nessa noite, já para além da meia-noite. Depois voltou às lides musicais, para regressar há dois anos ao ténis e levar a formação gaulesa a erguer de novo a Saladeira. O homem, que sempre fez gala das suas raízes africanas através do pai camaronês Zacharie, muitas vezes deu a ideia de ser uma espécie de feiticeiro através do seu discurso místico. Isso voltou a ficar patente na conferência de imprensa de celebração da vitória deste ano. O carisma pesa muito na condução de uma equipa.

Fotografia: Miguel Seabra

2. Curte em conjunto

21 anos depois de Malmoe, e na sequência do triunfo de domingo em Lille, Yannick Noah enveredou novamente por um discurso místico na conferência de imprensa – talvez mais do que nunca, na sequência de um longo monólogo exorcista em que se confessou agastado com a cultura da derrota e do laxismo que se havia apoderado das hostes gaulesas na sequência de 16 anos de desaires. Mas revelando ser sobretudo um homem de afetos, de relações humanas, de espírito de equipa. Em determinados momentos do discurso, muitos de nós na sala nos questionámos se ele teria fumado ‘alguma coisa’ (sem qualquer maldade, claro). Depois, Pierre-Hugues Herbert, quando instado a definir o triunfo através de uma só palavra, escolheu o termo popular ‘kiffer’, adaptado da cultura árabe tão presente em França e que significa atualmente apreciar, degustar, curtir… quando a sua origem até estava associada à ação de fumar haxixe ou canábis.

A aventura da seleção francesa na campanha de 2017 na Taça Davis foi mesmo uma grande curte cozinhada por Yannick Noah e que ficou concluída da melhor maneira, com todos os elementos da equipa a ganharem um pontinho e o nortenho Lucas Pouille a dar a estocada final perante o seu público — mesmo que no trajeto para a final a França tenha beneficiado do facto de as seleções adversárias terem ateado sem os seus históricos chefes-de-fila (Kei Nishikori no Japão, Andy Murray na Grã-Bretanha, Novak Djokovic na Sérvia)… mas Yannick Noah sempre teve ‘estrelinha’.

Ah, convém não esquecer a espécie de Haka promovida por Jo-Wilfried Tsonga, que ajudou os franceses a libertarem-se e a chegarem à redenção – esta Taça Davis não representou apenas a chegada aos míticos dois dígitos, a simbólica ‘Décima’ para as cores francesas a surgir precisamente no 90º aniversário do primeiro triunfo sobre os Estados Unidos em Filadélfia que levou à construção do estádio de Roland Garros para acolher a formação norte-americana na final do ano seguinte; esta Taça Davis significou também a redenção para uma notável geração de tenistas franceses que não tinha ainda chegado a um dos títulos fundamentais da modalidade (e, entre todos, só Jo-Wilfried Tsonga tinha jogado uma final de um evento do Grand Slam e de um ATP Finals)… pena é que Gael Monfils, que com Jo-Wilfried Tsonga era uma espécie de ‘filho de Noah’ quando apareceu, não tenha feito parte da fotografia em Lille. Ficou fora da ‘Arca de Noah’.

3. O (único) lamento

Yannick Noah arriscou e ganhou. Arriscou ao colocar Richard Gasquet ao lado de Pierre-Hugues Herbert numa dupla inédita que se estreou logo num momento crucial da história do ténis francês – e saiu com um ponto precioso que se revelou fundamental. Pensava-se também que tinha arriscado ao não colocar o mais experiente Richard Gasquet a jogar o encontro de singulares decisivo em vez de Lucas Pouille, mas não foi propriamente um risco; Richie não estava com as costas perfeitas e o capitão manteve a confiança no jogador local sabendo que não tinha jogado tão mal como isso na sexta-feira: foi David Goffin que se mostrou simplesmente melhor. Aliás, o número um belga e recente finalista do ATP Finals foi claramente o melhor jogador da final, mostrando planar acima de todos os outros (ver os meus reparos sobre ele numa crónica anterior; link aqui). Por isso, a questão principal à volta do desfecho prende-se mesmo com a eventual participação de David Goffin no par – poderia ter feito a diferença. Será esse o único lamento, o único arrependimento. Mas o capitão Johan Van Erck optou por manter a confiança nos seus dois especialistas da variante, que nem andaram longe de uma liderança de dois sets a um. E se tivesse mesmo jogado David Goffin, que vinha de uma semana fisicamente e mentalmente desgastante no ATP Finals e que tinha jogado singulares no dia anterior e teria de voltar a jogar um encontro decisivo de singulares no dia seguinte? Nunca saberemos. ‘Se’ é o título do maior livro da história da humanidade…

4. ‘Shark’ sem dentes

Se, se, se. E se tivesse jogado eu em vez de Steve Darcis? O ‘Shark’, tantas vezes decisivo em favor da Bélgica com vitórias no quinto encontro de várias eliminatórias, perdeu os seus dois compromissos sem apelo nem agravo e acabou ambos completamente aniquilado; os meus colegas belgas dizem-me que continua com os problemas no braço que já o afetavam na derrota de há dois anos na final de Gent diante dos britânicos e nos bastidores gracejava-se que iria jogar com talos no braço. Mais do que o par, foi o elo mais fraco da final porque nem sequer conseguir fazer Lucas Pouille sentir a solenidade da ocasião e acusar a responsabilidade do momento. O desfecho cedo se tornou inevitável. E os quatro encontros de singulares foram todos eles resolvidos em apenas três sets, o que me deixou um acentuado sabor de insatisfação no paladar tenístico.

5. Paradoxo

A 106ª final da secular Taça Davis mostrou tudo o que de bom o tradicional formato da competição encerra mas também as suas alegadas limitações. A cimeira entre vizinhos foi mesmo uma grande festa e um grande acontecimento em França e na Bélgica… mas não conseguiu capturar o imaginário do restante planeta tenístico e desportivo, ao contrário da inaugural Laver Cup em setembro. Sou um acérrimo defensor da Taça Davis e do seu formato atual, mas foi triste constatar a ausência massiva dos meus habituais amigos da imprensa internacional em Lille. Nem ingleses ou italianos, que sempre fizeram questão de acompanhar as finais onde quer que elas se jogassem entre quaisquer que fossem os países – e esse é um indicador deveras preocupante que deve ter dado muita força reformista ao novo presidente americano da Federação Internacional de Ténis, que quer finais em locais neutros e um montão de outras medidas do género. E as americanices deixam-me apreensivo. Vamos ver o que se vai passar nos tempos mais próximos, mas não me matem a minha querida Taça Davis.

Miguel Seabra
Miguel Seabra é jornalista de ténis desde 1990 e comentador de ténis no Eurosport desde 2003. Foi editor das publicações Ténis Europeu, Jornal do Ténis e ProTénis. Foi campeão nacional universitário de ténis, treinador e árbitro internacional. É igualmente jornalista especializado em relojoaria mecânica, sendo editor da revista Espiral do Tempo. Assegura que não há nada melhor do que ter as suas paixões por profissão.