Final entre Vizinhos | “Abertura de Hostilidades”, por Miguel Seabra (em Lille para a final da Taça Davis)

Miguel Seabra está em Lille para acompanhar a final da Taça Davis. Aqui ficam os seus primeiros apontamentos a partir do Estádio Pierre Mauroy, após a repartição de vitórias do primeiro dia e numa altura em que as duas seleções preparam o encontro de pares.

Abertura de hostilidades

  1. Cadê a rapaziada?

Uma final de Taça Davis que se preze tem mesmo de começar com um empate ao cabo do primeiro dia – transportando a resolução final para a terceira e última jornada. Com o seu formato competitivo sob escrutínio na vigência desta direção americana da Federação Internacional de Ténis, acaba por ser um aspeto muito positivo: sou um grande apologista dos moldes em que a maior competição por equipas do ténis mundial se joga, embora concorde que há muitos aspetos peculiares que pontualmente fazem com que não seja tão apelativa a um público global. Uma final França-Bélgica passa despercebida nos Estados Unidos ou na China. Por exemplo, a imprensa internacional presente nesta cimeira entre vizinhos é escassa – para além de mim, no que diz respeito à imprensa escrita há somente um húngaro, um suíço e… já nem me lembro de quem mais, para além de colegas franceses e belgas em massa. Mas até os históricos jornalistas ingleses e italianos, eternos defensores da Taça Davis, estão ausentes.

  1. Execuções sumárias

Sim, o ideal para a competitividade da final era que se registasse um empate ao cabo dos dois primeiros encontros de singulares… mas poderiam ter sido bem melhores. Porque para mim foram decepcionantes.

David Goffin trouxe a confiança adquirida na sua prestação no ATP Finals para o Stade Pierre Mauroy e despachou Lucas Pouille em três sets decrescentes (7-5, 6-3, 6-1 em menos de duas horas); lesto a tomar a iniciativa ou a contra-atacar, omnipresente graças à sua rapidez e focado em quase todos os momentos mais relevantes da contenda, o belga parece estar numa missão… enquanto o francês voltou a atuar aquém daquilo que eu penso que é capaz de fazer. Considero que Lucas Pouille tem carradas de talento, mas tenho de confessar que ele foi, para mim, uma das desilusões de 2017 após aquilo que lhe vi fazer na época transacta – ao mais alto nível, evidentemente, porque este ano até somou três títulos em três diferentes superfícies e está instalado na 18º posição da hierarquia mundial. Mas eu via-o bem mais perto do top 10 ou mesmo no lote dos 10 primeiros no final da presente temporada. A sua prestação diante de David Goffin não foi, seguramente, a de um top 10.

Depois, Jo-Wilfried Tsonga fez o que lhe competia enquanto chefe-de-fila da formação gaulesa. 15º do ranking e com quatro troféus adquiridos em 2017 (nota: os dois singularistas franceses ganharam muitos títulos este ano, mas não estão no top 10… o que mostra bem que o seu registo nos torneios principais foi globalmente decepcionante), o número um gaulês sabia que o poder de fogo do seu serviço e da sua direita seriam normalmente suficientes para ultrapassar Steve Darcis. Pessoalmente, esperava mais do belga; é alguém que tem muita experiência de Taça Davis e que consegue transcender-se ao serviço do seu país – e é isso que torna a Taça Davis tão fascinante, o modo como consegue fazer com que jogadores de plano secundário ou terciário se alcandorem ao patamar dos grandes. Mas, desta vez, Steve Darcis foi pequeno. Rapidamente se viu a perder em todos os sets e foi trucidado pelos também decrescentes parciais 6-3, 6-2, 6-1. Mesmo nas derrotas, é importante desgastar o adversário para o tornar menos forte no(s) encontro(s) seguinte(s).

  1. A equação do par

As prestações de David Goffin e de Jo-Wilfried Tsonga nos singulares de abertura podem muito bem fazer os respetivos capitães puxá-los para o encontro de pares deste sábado – porque ganharam ambos convincentemente e nem sequer se desgastaram muito. E a história da Taça Davis mostra-nos que vale a pena investir estrategicamente em jogadores que estão com a moral elevada, havendo a diferença de que David Goffin teve recentemente um torneio de grande exigência física e emocional – com o seu trajecto até à final do ATP Finals, com vitórias diante de Rafael Nadal e Roger Federer pelo meio. O par belga constituído por Ruben Bemelmans e Joris de Loore é sólido e formado por especialistas, mas nenhum deles é brilhante e a equipa confia muito no seu número um; sei que, no que a David Goffin diz respeito, ele aceita qualquer decisão do capitão Johan Van Erck e até é daqueles que acha que todos os elementos de uma equipa devem ter o seu tempo de antena. Já do lado francês, causou alguma celeuma o facto de Yannick Noah ter deixado de fora Nicholas Mahut, mas na caldeirada que constitui qualquer processo de seleção é necessário ter em conta muitos ingredientes – e um deles é o facto de Jo-Wilfried Tsonga só querer jogar pares com Richard Gasquet. E pode ser essa a formação a apresentar hoje por Yannick Noah, em vez da anunciada dupla Richard Gasquet/Pierre-Hughes Herbert.

  1. Asterix e os belgas

O Stade Pierre Mauroy é uma estrutura extraordinária e versátil que pode servir bem qualquer modalidade – do futebol ao ténis, tendo já acolhido a final da Taça Davis de 2014. Nesse ano, a França perdeu com a Suíça; este ano, acolhe a formação belga a escassa distância da fronteira com a Bélgica (por exemplo: eu voei para Bruxelas, que fica bem mais perto de Lille do que Paris). Resultado: parecia que uns bons 40 por cento dos 25,185 espetadores eram belgas, que se fizeram bem ouvir sobretudo na vitória de David Goffin (nem tanto no segundo encontro, que ficou precocemente ‘decidido’). E houve mesmo a necessidade de os franceses começarem a reagir, cantando “on est chez nous” (estamos em casa) ou até mesmo a Marselhesa. Afinal de contas, os anfitriões das últimas quatro finais da Taça Davis saíram derrotados perante o seu público. Os gauleses gozam muito com os belgas – as nossas anedotas de Alentejanos são as ‘histoires belges’ em França – mas existe grande afinidade entre os dois países vizinhos e a cumplicidade é óbvia também nas bancadas. Espera-se que, no encontro de pares de hoje, a competitividade ajude a dar dramatismo a esta final que tem tudo para ser mais uma grande festa do ténis.

Miguel Seabra
Miguel Seabra é jornalista de ténis desde 1990 e comentador de ténis no Eurosport desde 2003. Foi editor das publicações Ténis Europeu, Jornal do Ténis e ProTénis. Foi campeão nacional universitário de ténis, treinador e árbitro internacional. É igualmente jornalista especializado em relojoaria mecânica, sendo editor da revista Espiral do Tempo. Assegura que não há nada melhor do que ter as suas paixões por profissão.