“Incutir que têm de trabalhar muito para um dia serem profissionais” é o primeiro grande objetivo de Neuza Silva no CAR feminino

BELOURA – A aposta da Federação Portuguesa de Ténis no Centro de Alto Rendimento (CAR) feminino já começou a dar frutos. Este fim de semana, Francisca Jorge sagrou-se campeã nacional absoluta de singulares femininos e, ao lado de Maria Inês Fonte, fez a dobradinha com o título em pares.

Estas são duas das jogadoras que desde janeiro integram a equipa feminina do Centro de Alto Rendimento, entretanto apoiado pelos Jogos Santa Casa. Mas o patrocínio não foi a única novidade dos últimos meses: em setembro, o CAR passou a oferecer “apoio integral às atletas nacionais femininas”, o que significa que quatro jogadoras passaram a ter a condição de “atletas residentes”. São elas Francisca JorgeMaria Inês Fonte, Lúcia Quitério e Leonor Oliveira.

Neuza Silva é a responsável pelo ténis feminino do Centro de Alto Rendimento e, por isso, uma das figuras cada vez mais presente na vida/carreira destas tenistas. Em entrevista dada ao RAQUETC no Campeonato Nacional Absoluto/Taça Guilherme Pinto Basto, a ex-número 1 nacional comentou a importância deste novo projeto e os resultados obtidos pelas “suas” jogadoras.

“Haver um centro de treino nacional apoiado pela Federação Portuguesa de Ténis permite que as nossas melhores jogadoras, jovens promessas, tenham uma facilidade maior de enveredar pelo profissionalismo. E é também um abrir de porta para todas as jovens que estão a despontar, de sub 12, sub 14, para que daqui a uns anos também elas acreditem que podem entrar por esta vertente.”

Ao RAQUETC, a treinadora explicou que “este ano, o meu primeiro grande objetivo é incutir-lhes que têm de trabalhar muito para um dia serem profissionais.” É esta a grande razão pela qual Neuza ainda não apontou objetivos em termos de resultados; porque, como frisa, “sem trabalho não há sucesso e primeiro e primeiro quero que aprendam o que é ser profissional, saberem que as exigências são bastante diferentes do ténis júnior.”

Mas como funciona, afinal, a seleção das jogadoras? “Escolhi aquelas que para mim são as melhores jogadoras de sub 16 e sub 18. Eram atletas referenciadas e elas próprias é que fazem a candidatura”, começa por contar antes de detalhar: “Há uma lista de atletas referenciadas e uma lista de atletas nomeadas, que estão em observação com uma possível entrada no futuro. Estas quatro foram referenciadas, o que significa que se se candidatassem à partida eram aceites e foi o que aconteceu.”

Neuza Silva, que considera que “poder contar com as quatro melhores jogadoras jovens é excelente”, destaca a importância deste grande apoio para as tenistas, mas relembra que não é um processo fácil. “A Leonor e a Inês são de primeiro ano de sub 16, portanto para o ano ainda estão em sub 16 e acho que é uma mais valia para elas estarem a usufruir de todo o apoio da Federação para que possam alcançar os seus próprios sonhos.”

“Como é óbvio não é fácil porque é uma idade complicada e uma adaptação difícil. Eu própria passei por este processo. É por saírem de casa, pelo dia ser mais exigente, tudo é diferente mas elas estão a reagir muito bem e eu estou extremamente contente”, concluiu.

Para já, quatro. No futuro…

Neste momento, que é como quem diz, até ao final do mês de agosto, Neuza Silva informa que “vamos continuar com estas quatro”, o que não significa que no futuro a equipa não possa vir a aumentar. A hipótese ficou, aliás, em aberto. “Nunca se sabe a partir do próximo ano e a equipa técnica também pode crescer.”

A “aposta” que já deu frutos no Campeonato Nacional Absoluto

Mais do que focar-se nos resultados obtidos no Campeonato Nacional Absoluto, Neuza Silva preferiu focar-se em destacar a “aposta ganha” que é este novo projeto da Federação, porque “permitiu que todas as atletas competissem regularmente e sempre acompanhadas de treinador, neste caso eu e o Miguel Sousa, selecionador de sub 18, e a Joana Pangaio, selecionadora de sub 16.”

“Fomos acompanhando a evolução delas em torneios e fiquei a conhecer melhor cada atleta, o que permite neste momento ter um background gigante e saber como se comportam dentro e fora de campo. Consigo fazer um plano de jogo diferente, melhor, para as atletas com quem trabalho diariamente”, completou.

Ainda assim, os resultados obtidos (Leonor Oliveira ultrapassou uma ronda, Maria Inês Fonte chegou às meias-finais e Francisca Jorge foi campeã, tendo as duas últimas vencido em pares) são “um grande exemplo” de que “quando se trabalha bem e com qualidade os resultados aparecem”.

Foi com um “o sucesso só vem com o trabalho” recheado de orgulho no que tem vindo a ser desenvolvido nos últimos meses que Neuza Silva terminou a conversa com o RAQUETC. Agora, é tempo de recarregar baterias para, em breve, começar a planear 2018.

Gaspar Ribeiro Lança
gasparlanca@raquetc.com | Dar palavras a um encontro de dois, três, quatro ou cinco sets, com ou sem tiebreak. Dar palavras a recordes, a histórias. Dar ténis a todos aqueles que o queiram. E mais, sempre mais. Por isso depois chegou o padel, o squash e o ténis de mesa. E assim cá estamos, no RAQUETC ("raquetecétera"). Como escreveu Fernando Pessoa nos anos 20, "primeiro estranha-se, depois entranha-se."