Esplendor na Relva | “Raios partam o Rastafári”, por Miguel Seabra (em Wimbledon)

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Enquanto assistia ao encontro de pares de João Sousa e Kyle Edmund, dei por mim a olhar frequentemente para trás, em direção ao Centre Court, para ver o evoluir do marcador do encontro entre Andy Murray e Dustin Brown num dos scoreboards existentes no exterior do mais famoso campo de ténis do mundo. Era lá dentro que devíamos estar todos naquele momento: o João, o seu treinador Frederico Marques, o agente Miguel Ramos, o amigo Miguel Medina e eu – e não ali, num banquinho ao lado do Court 8, a levar com o sol na fronha e a penar face aos 31ºC que se fizeram sentir na tarde de quarta-feira.

Pois é, o João não esteve assim tão longe de voltar a defrontar um dos principais tenores do circuito profissional num dos mais prestigiados courts de ténis do mundo – já o fez em todos os palcos principais de todos os eventos do Grand Slam, podia e deveria ter voltado a passar por experiência idêntica na presente edição de Wimbledon. Porque, na primeira ronda, teve o perigoso Dustin Brown na mão ao liderar por 6-3, 5-4 e 40/30… mas não concretizou o set-point e deixou a ave rara fugir num daqueles momentos que, em relva, pode virar um encontro de pantanas. O vimaranense reagiu muito bem a uma desvantagem de 0/30 nesse jogo de serviço ao alinhar três pontos consecutivos… para acabar depois breakado e ver o seu ascendente quebrado.

A partir desse momento, o germano-jamaicano galvanizou-se, afinou processos, tornou-se mais imprevisível e utilizou muito bem bolas curtas e baixas no approach para forçar o número um português a levantar a bola à altura ideal para fechar o ponto no vólei. Dustin Brown tem 1m96 e braços muito compridos que lhe dão uma grande envergadura; tem uma ciência de jogo de rede apurada e é exímio no stop-vólei. O seu ténis, por vezes espetacular, e o seu visual, sempre exótico, colocaram o público do seu lado – afinal de contas, ele é um dos jogadores-culto do circuito – ao passo que o vimaranense desabafava a sua frustração num português que, pelos vistos, deu que falar em Portugal…

Sentado ali ao lado e ao nível do campo (o Court 14), achei na altura que o João deveria ter jogado mais vezes ao corpo (não só no serviço mas sobretudo quando o adversário estava à rede) para retirar tempo de reação ao adversário e deixá-lo mais expectante, mas já se sabe que falar de fora é fácil… difícil é estar lá dentro a defrontar o tenista da cabeleira rastafári, e até Rafael Nadal já perdeu com Dustin Brown duas vezes em relva – incluindo um impressionante correctivo no Centre Court, há um par de anos. Portanto…

… lá estávamos nós, dois dias depois, a ver o João Sousa e o Kyle Edmund a defrontar uma dupla do caril (perdoem a graçola, mas é mais um subterfúgio de escrita do que qualquer reparo xenófobo) no Court 8 em vez de estarmos no Centre Court. Pelo menos ficámos bronzeados, até porque o resultado também não foi favorável na variante: o tandem luso-britânico (representativo da mais antiga aliança oficial entre dois países) sucumbiu diante de dois especialistas de pares indianos numa longa maratona em quatro partidas que deveria ter ido a quinto set. Mas não foi. Alguém me tinha perguntado na véspera quais as hipóteses do duo luso-britânico face a dois nomes menos conhecidos e respondi logo que a equação indianos+pares+relva é sempre muito complicada. Como foi. Mesmo que Divij Sharan tivesse nome de monovolume da Volkswagen e Purav Raja barriga de talhante, mostraram ter aquilo que, por exemplo, o monolítico Kyle Edmund mostrou não ter e que é tão importante na relva como nos pares: mãozinhas. Juntos, conseguiram na clorofila do All England Club a fotossíntese que lhes permitiu derrotar em pares dois jogadores de singulares muitíssimo superiores a eles.

E assim se concluiu a participação lusa na 131ª edição de Wimbledon. Com dois desaires que prolongaram um pouco mais a fase menos boa por que está a passar João Sousa. Uma coisa é certa: mesmo tendo em conta alguns desabafos excessivos (nem eu imaginei que os microfones os captassem tão bem!), vi-o muito bem durante quase dois sets e sempre empenhado, com a sua genica habitual e a sua permanente atitude competitiva. As coisas hão-de melhorar…

O rescaldo de Frederico Marques

Após os dois encontros falei com Frederico Marques para que me fizesse um rescaldo e também para que me explicasse o porquê de várias vezes o ter ouvido dizer ao pupilo para usar mais a direita. Aqui ficam as suas declarações principais resumidas:

Rescaldo: “Não foi uma semana positiva, tal como não foi positiva a temporada de relva. O que foi positivo foi a aprendizagem que tivemos. Tento sempre ser positivo. Este ano temos aprendido muito até porque temos perdido mais do que o normal. Começou-se bem o ano, com uma final e chegamos mais depressa do que nunca aos dez encontros ganhos. Já se viu o João a treinar com mais mentalidade, com os padrões mais mecanizados, a servir e a jogar mais de direita, com mais garra, a controlar melhor as emoções, a chegar perto de uma vantagem de dois sets a zero que lhe daria mais tanquilidade, mas depois surgiram alguns fantasmas das ultimas semanas, custou bastante ao João voltar ao encontro depois de se ver praticamente com dois sets a zero”.

Direita: “Sou uma pessoa muito ambiciosa e crítica com o meu trabalho; se ele não está a ter bons resultados, a culpa é minha. E assumo que saí da minha zona de conforto e que tirei o João da zona de conforto dele relativamente a muitos padrões de jogo que tinha e que lhe dão confiança e eu tirei-o dessa zona, em treinos e torneios, para ver como ele reagia. E temos um João mais forte, não em termos de resultados mas mais forte – agora é uma questão de tempo e voltar um bocadinho ao antigo porque temos um João com melhor esquerda, com melhor resposta de esquerda, a ocupar melhores posições com a esquerda, mas o que lhe dá vitórias é a direita e temos de compaginar aquilo que temos andado a fazer. A zona de conforto é aquilo que faz todos os dias, rotinas que são hábitos, e tirei o João dali, pu-lo a pensar, a duvidar, a aprender… ele já está há quatro anos no top 40 e se quisermos subir temos de ocupar o campo com muito mais esquerda, servir para outras zonas. Claro que quando se toca estas zonas temos sempre dúvidas”.

Aqui fica o ficheiro áudio original da entrevista ao Frederico Marques que vale a pena ouvir, sobretudo a explicação técnico-táctica do trabalho que têm andado a fazer e o porquê da tal saída da zona de conforto. Também é abordado o comportamento de João Sousa — e os desabafos que se tornaram virais nas redes sociais.

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Miguel Seabra
Miguel Seabra é jornalista de ténis desde 1990 e comentador de ténis no Eurosport desde 2003. Foi editor das publicações Ténis Europeu, Jornal do Ténis e ProTénis. Foi campeão nacional universitário de ténis, treinador e árbitro internacional. É igualmente jornalista especializado em relojoaria mecânica, sendo editor da revista Espiral do Tempo. Assegura que não há nada melhor do que ter as suas paixões por profissão.