20 anos depois, Larri Passos recorda conquista de Guga em Paris: “Depois das quartas, eu falei ‘agora o título não escapa, não!'”

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A 8 de junho de 1997, Larri Passos aguardava ansiosamente num dos camarotes do Court Philippe Chatrier (um dos maiores do mundo) pela entrada de Gustavo “Guga” Kuerten. Depois de 6 vitórias nos 6 primeiros encontros, o jovem brasileiro preparava-se para a sua primeira final em Grand Slams, onde viria a conquistar o primeiro título da carreira e logo num torneio a que ficaria ligado para sempre.

Nas bancadas, a especulação era muita. Conseguiria Guga, um jovem brasileiro até então sem qualquer título, derrotar Yevgeny Kafelnikov, o campeão em título? Muitos, talvez a maioria, diziam que não, mas na cabeça do técnico não havia dúvidas: “Eu tinha a certeza de que ele ia conseguir”. E conseguiu.

Na mesma semana em que Jelena Ostapenko se tornou na primeira jogadora desde Gustavo Kuerten a conquistar o primeiro título da carreira num torneio do Grand Slam (o impacto da história aumenta ainda mais se dissermos que a letã nasceu precisamente no dia da vitória de Guga em Paris), Larri Passos viajou para Portugal com Guilherme Clezar. O Lisboa Belém Open, no CIF, foi o primeiro Challenger do jovem brasileiro apoiado pelo credenciado técnico, que viveu cada um dos 20 títulos de Guga no campo e agora, 20 anos depois, recordou ao RAQUETC, muito emocionado, todos esses anos de alegrias e histórias inesquecíveis.

Entre muitos elogios ao novo torneio Challenger ATP, Larri recorda as várias vezes em que passou por Portugal. “A primeira foi em 1986. Fiquei no Porto a treinar durante duas semanas com o Marcos Barbosa [uma das grandes promessas do ténis brasileiro na altura] e desde aí não me separei mais de Portugal. Depois voltei, em 87, 88, para jogar um Challenger no Estádio Nacional e anos mais tarde para os satélites com o Guga, que ganhou uma etapa, então Portugal faz parte da minha história também. Eu sempre tive um carinho muito especial porque vinha para cá desde que ele era juvenil e a gente se divertia muito.”

Depois, a conversa passa rapidamente para a caminhada rumo ao histórico triunfo em Paris. Enquanto revela que “ninguém esperava que ele fosse ganhar Roland Garros 1997, mas na minha cabeça estava claro que ele estava jogando um ténis belíssimo”, Larri Passos começa a recordar a passagem por Portugal nesse mesmo ano.

“Ele ganhou a dupla aqui no Estoril com o Fernando Meligeni e mesmo em singulares, ele perdeu com o Francisco Clavet 7-6 no terceiro set [resultado completo: 1-6, 6-1 e 7-6]. Eu lembro bem, o jogo foi na quadra central do Estádio Nacional e assim que acabou eu falei para ele ‘alguma coisa boa vai acontecer!’ e depois ele vai ganhar Roland Garros… Oh, ’tá a ver, então marcou muito, muito, muito, muito esse jogo aí, acho que foi muito importante botar na cabeça dele para chegar a Roland Garros a um bom nível.”

Como Larri conta ao RAQUETC, chegar à glória em Roland Garros não aconteceu de um dia para o outro. Houve um trabalho planeado ao mais ínfimo detalhe antes daquela viagem para Paris, mas já lá vamos. Primeiro, o técnico brasileiro recorda, emocionado, os 15 dias na capital francesa.

“A primeira rodada foi muito dura. Ele tinha perdido duas vezes com o Dosedel, que era um jogador muito chato, jogava plano, mas como vinha de ganhar um Challenger em Curitiba vinha com muita confiança e chegou a aplicar um 6-0 [6-0, 7-5 e 6-1 foi o resultado final], então todo mundo ficou assim de boca aberta. Ele mesmo hoje fala ‘porra, eu tocava na bola e ela entrava!’ E entrava mesmo. Parecia uma coisa incrível o que estava acontecendo”, diz Passos antes de partir para um dos duelos chave, a batalha na terceira ronda com Thomas Muster (pelo caminho, Guga venceu ainda Jonas Bjorkman em quatro sets).

“O jogo com o Muster foi duríssimo, não é, mas deu para ver que nos dois últimos games ele entrou dentro da quadra e tirou todo o tempo de bola do Muster, que se apavorou. A 5-4 no quinto set o Guga sacou muito, muito bem. É uma lembrança inesquecível e depois o jogo chave foi contra o Kafelnikov nas quartas de final”, relembra.

A batalha com o campeão em título foi preparada com muito sacrifício. “Era um jogo difícil e nem o Guga acreditava que fosse ganhar, mas a gente, acho que o Guga teve um sacrifício muito grande. Ele treinou muito, se preparou muito bem para aquele jogo e para conseguir atacar, porque a bola do Kafelnikov era uma bola muito plana.” Para Larri Passos, foi esse o momento chave. “Depois das quartas, eu falei ‘agora o título não escapa mais!’. Então a gente tava muito confiante depois do Kafelnikov.”

A Yevgeny Kafelnikov seguiu-se a meia-final, ganha ao qualifier Filip Deweulf, e, depois, a final perante Sergi Bruguera, que já tinha ganho Roland Garros em duas ocasiões. “Todo o mundo perguntava como é que o Guga ia jogar, se mais atrás, se mais à frente, e eu pedi ao Guga para jogar com 3 velocidades: jogá-lo para trás, ficar à frente e tentar atacar. E hoje quando olho para o vídeo penso ‘pooxa, ele finalmente conseguiu jogar na final um jogo perfeito’. Ele jogou perfeito! E dá para ver que ele joga o Bruguera para trás, abre a quadra, ataca, deu tudo certo naquela final!”

Chegou a hora de nos contar o segredo. Larri Passos fala de Paris como “um lugar de sonho” e recorda que “a primeira vez que fui a Paris foi em 1986 e eu me apaixonei. Então, trouxe Guga com 15 anos, em 1992, a Paris e mostrei para ele, consegui mostrar Paris para ele paraque ele amasse Roland Garros tanto quanto eu. Acho que isso foi o mais importante. Ninguém consegue entender isso, mas ter um técnico que pega num menininho, um menino órfão de pai, e o leva para Paris e diz ‘vou levar, você tem que amar isso aqui!’… Acho que foi um trabalho maravilhoso e quando ele se apaixonou por Paris eu disse ‘agora vamos trabalhar para isso!’ e aí se criou uma história de amor muito bonita.”

O título em 1997 seria o primeiro de (1997, 2000 e 2001) de Gustavo “Guga” Kuerten em Paris e de 20 ao longo de uma carreira feita de memórias, uma delas feita em Portugal, quando Guga derrotou André Agassi por 6-4, 6-4 e 6-4 para conquistar o Masters do circuito masculino (hoje ATP World Tour Finals) no Pavilhão Atlântico, em Lisboa.

Com uma lágrima no canto do olho, “emocionado”, Larri Passos recorda todos os tempos ao lado de Kuerten mas também aqueles que antecederam os momentos de glória. “Nunca imaginei, quando comecei a jogar ténis, que um pegador de bola, no sul, pobre, fosse atingir tudo isso, então sou muito grato à família dele por ter confiado no meu trabalho. É muito emocionante saber que o Guga vai ser um ídolo eterno do nosso país.”

Depois, há a frase que Larri faz questão de nos contar dizer sempre: “Ele tem um coração maior que o corpo dele. É difícil de explicar, o coração dele é muito grande, é uma pessoa adorável, então é fantástico eu poder ter sido treinador dele, meio pai, conselheiro também… Mesmo agora, a gente conversa com frequência.”

Mas o tempo passa e, 20 anos depois, o treinador brasileiro está perto de completar 60 primaveras. Por isso, não esconde que sentiu necessidade de “acalmar um pouco, curtir mais da família”, mesmo se continua “amando o ténis como se fosse o primeiro dia.”

Foi essa mudança de ritmo que o levou a unir forças com Guilherme Clezar. “A gente está começando a trabalhar juntos, então depois da derrota [com Frederico Silva na primeira ronda do Lisboa Belém Open] eu lhe falei ‘vamos explodir logo com ela e trabalhar, isso é que é importante’ e por isso fomos logo para o campo, bater umas bolas.”

Muito, muito experiente no circuito e por todo o mundo, Larri Passos deixou ainda elogios ao torneio português, que classificou como “perfeito”. O transporte, o hotel, a alimentação são nota 10. Os jogadores estão falando muito, elogiando muito a comida. Obviamente que eu sou suspeito de falar mas a comida portuguesa… Porra, que delícia!”

E no meio de tantas recordações e coincidências como a de Ostapenko e Guga, que diz ser “inexplicável, só mesmo própria do ténis, né?”, Larri Passos diz que “todos os jogadores têm que ter um sonho na cabeça. Mesmo que não se realize, têm de o ter e continuar sonhando. Isso serve para todos, para todos! Serve para os portugueses, que agora está a vir uma boa equipa de vocês, jogando bem, e então eles têm que dizer isso, têm que botar na cabeça deles o sonho de ganhar um Grand Slam, de ganhar, objetivos e lutar por isso. O João Sousa infelizmente pega sempre o Djokovic em todas as rodadas nos Slams [risos] mas está num bom caminho.”

“O ténis português está num bom momento, tem que aproveitar, Gastão, Pedro, João, aqui o Frederico, Domingues… É só eles acreditarem, que não é uma coisa do outro muito, e o trabalho! São 5 coisas importantes: trabalho, trabalho, trabalho, trabalho e trabalho. ”

1997 recordado, 2017 vivido, malas feitas. Chegou a hora: Larri Passos e Guilherme Clezar já estão a caminho de Todi, Itália, onde enfrentam… Gastão Elias na primeira ronda. Porque o ténis, lá está, tem destas coisas.

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